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sexta-feira, 3 de março de 2017

Grandes batalhas forjam grandes homens - BRAVUS



Por Rodrigo Nascimento

Se caio a cada instante, na fé confiante farei com que Ele me levante” (Santa Elizabete da Trindade)

Para aqueles que lutam arduamente para se manterem longe do pecado, cada situação de queda traz à tona a impotência e frustração. É um misto de falta de esperança em nós mesmos e questionamento acerca da ação de Deus.

No que diz respeito a nós, nos enganamos em achar que, com nossas próprias forças, temos capacidade de permanecer puros. E a frustração está precisamente em nos depararmos com nossa limitação. A respeito de Deus, passamos a questionar se Ele, de fato, está realmente intervindo, com Sua graça, para que não mais pequemos ou se está nos deixando à nossa própria sorte.

Esses dois aspectos têm sua fonte na soberba, enraizada em nós como consequência do pecado original. No nosso íntimo, travamos uma batalha entre sermos totalmente dependentes de Deus e bastarmos a nós mesmos. Esse é o ponto central de nossa conversão, principalmente a nós, homens, que tendemos à independência e à autossuficiência.

Todavia, há situações que se nos apresentam que tiram completamente o controle das nossas mãos e nos violentam profundamente, colocando em xeque a nossa percepção de si e de nossa capacidade de intervir e solucionar.

São grandes batalhas. Podem se apresentar como pecados com os quais lutamos ao longo de anos — e frequentemente caímos, apesar do esforço —; enfermidades que implodem o frágil edifício da nossa inconsciência de que somos transitórios; situações adversas que nos “tiram o chão”. Nesses casos, porque Deus permite que isso ocorra?

"E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça, é, em verdade, muito bom” (São Thomas More).

Justamente, temos de contemplar as batalhas como providência de Deus para a nossa conversão e salvação.

Os metais preciosos são forjados no fogo, a altas temperaturas, e são completamente desfigurados e, depois, inseridos num molde e reconstruídos para uma finalidade específica. Esse calor intenso, não altera somente a forma, mas, sobretudo, as propriedades do metal, aumentando sua rigidez e durabilidade.

Tais batalhas podem, na graça, se tornar essa grande forja em que almas santas são remodeladas com uma única finalidade: romper-se em caridade ardente e completa, fundindo-se, para todo o sempre, com Deus. Isso desde que tenhamos nosso coração ancorado no céu; a pátria celeste deve ser sempre o horizonte.

Os tempos de luta permitem que nossa alma se fortaleça, aumentando a nossa esperança em Deus e descobrindo a nossa limitação. O esforço para ser melhor, tendo-se reconhecido os limites humanos e, por outro lado, abandonando-se à graça, é a grande fornalha que forma os guerreiros mais nobres, almas santas e virtuosas.

Todos os atletas se impõem a si muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível. Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros” (I Cor 9,25-27).

A vida de oração é a porta de entrada através da qual nosso esforço encontra a graça. É um antídoto para a soberba e um alento para as quedas. É a arma essencial nessa batalha que perdura ao longo da vida. Batalha esta que nós, homens, devemos assumir com urgência.

Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo a virilidade necessária.

Fonte: Bravus, pela hombridade.

O que é um pecado mortal? - Padre Paulo Ricardo

103. O que é um pecado mortal?



Todo pecado é uma ação contrária ao amor de Deus, mas existem faltas mais graves do que outras, às quais a Igreja costuma dar o nome de "pecado mortal".

Em que consiste esse tipo de pecado e o que ele faz com a pessoa que o comete? E quanto aos pecados mais leves, seriam eles por acaso desprezíveis?

É o que Padre Paulo Ricardo esclarece neste episódio de "A Resposta Católica".

O Catecismo da Igreja Católica define o pecado como "uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Foi definido como uma palavra, um ato ou um desejo contrário à lei eterna" (CIC 1849). Resumidamente, o pecado é uma ação contrária ao amor de Deus. Do mesmo modo que o homem é livre para amar e praticar a caridade, também é livre para desobedecer.

É sabido também que existe uma grande variedade de pecados e, apesar de todos serem uma ofensa a Deus, estão separados em diferentes graus. A Sagrada Escritura traz várias listas e descrições. Por exemplo, São Paulo na Carta aos Gálatas diz que: "as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno, como já vos preveni, os que tais coisas praticam não herdarão o Reino de Deus" (5,1 9-21)

O pecado, conforme sua gravidade, pode ser dividido em pecado mortal ou pecado venial. Por pecado venial entende-se aquele ato que não separa o homem totalmente de Deus, mas que fere essa comunhão. Já o pecado mortal, por sua vez, atenta gravemente contra o amor de Deus, desviando o ser humano de sua finalidade última e da bem-aventurança. Ensina o Catecismo:
"O pecado mortal requer pleno conhecimento e pleno consentimento. Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afetada e o endurecimento do coração não diminuem, antes aumentam, o caráter voluntário do pecado." (CIC 1859)

Isso significa que o pecado mortal só acontece quando o indivíduo comete um delito contra Deus, consciente desses três requisitos citados acima, não somente pela matéria grave. Por exemplo, se uma pessoa - sem formação moral e intelectual adequada e sem condições de adquirí-la - pratica uma ação pecaminosa, ela pode ser isenta de culpa, pois se enquadra no caso da ignorância invencível. Por outro lado, existe também a ignorância afetada, que é quando a pessoa tinha condições de conhecer a verdade, mas preferiu não conhecê-la. Neste caso, o indivíduo peca gravemente.

Na prática, o que um pecado mortal pode fazer com a pessoa que o comete? O mesmo Catecismo ensina que:

"O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de graça. Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus." (CIC 1861)

"O pecado cria uma propensão ao pecado; gera o vício pela repetição dos mesmos atos. Disso resultam inclinações perversas que obscurecem a consciência e corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se, mas não consegue destruir o senso moral até a raiz." (CIC 1865)

Mas o que dizer, então, dos pecados veniais? Eles são desprezíveis? Não, pois um pecado mortal é gerado por uma multidão de pecados veniais que foram cometidos antes. O pecado venial, embora pareça sem importância, é um passo que conduz ao abismo. Um após o outro, leva a pessoa para o buraco, que é o rompimento da amizade com Deus. O Catecismo cita Santo Agostinho para explicar melhor como se dá a ação dos pecados veniais:

"O homem não pode, enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes, se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los. Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então nossa esperança? Antes de tudo, a confissão..." (CIC 1863)

Portanto, para evitar o rompimento da amizade com Deus, ou seja, cometer um pecado grave, é preciso combater os chamados pecados veniais, os quais são passos que se dão em direção ao abismo. Nesse sentido, o sacramento da confissão é o remédio eficaz que pode refrear essa triste caminhada.

Fonte: padrepauloricardo.org

quinta-feira, 2 de março de 2017

Da página BRAVUS: Uma Cruzada Interior com São José – Brava Quaresma 2017


Por Daniel P. Volpatp · 1 DE MARÇO DE 2017 - Texto retirado do site Brav.us
Brava Quaresma 2017 Cruzada Interior Com São José
No ano passado, oferecemos alguns propósitos quaresmais diários, aos quais denominamos Brava Quaresma, e que obtiveram bons frutos, como muitos de nossos leitores testemunharam pelas redes sociais. Para este ano, a Providência coincidiu o início da Quaresma com o primeiro dia de março, o mês josefino. Propomos a nossos leitores, portanto, “Uma Cruzada Interior com São José” durante esse tempo.

A Quaresma é o tempo litúrgico penitencial de 40 dias (excluindo-se os domingos) que nos preparam para a Páscoa de Nosso Senhor. É inspirada nos 40 dias e 40 noites de jejum que Cristo passou no deserto (Mt 4), onde foi tentado pelo demônio, antes de começar seu ministério.

O número 40 possui forte significado nas Sagradas Escrituras. Representa um período de intensa preparação que antecede acontecimentos marcantes na História da Salvação: 
* Foram 40 os dias do dilúvio, preparação a uma nova humanidade, purificada (Gn 7, 4ss); 
* Foram 40 os dias de jejum de Moisés para enfim receber as Tábuas da Lei (Ex 34, 28); 
* Foram 40 os anos de caminhada do povo hebreu, rumo à Terra Prometida. 
* Foram 40 os dias de jejum do Profeta Elias, antes de encontrar a Deus no monte Horeb (I Rs 19,8); 
* Foram 40 os dias de penitência dos ninivitas, que assim obtiveram o perdão de Deus (Jn 3, 4ss).
cruzada interior luta batalha liberdade
A Quaresma sempre é tempo forte e abundante de graças, propício à conversão e à mudança de vida. Se bem vivida, proporciona muitos frutos de santificação e crescimento em virtudes. É o que almejamos com a Brava Quaresma: dar uma pequena contribuição neste processo.

É parte do tornar-se homem deixar o papel de protegido e assumir o ofício de protetor. Esse chamado é para todo homem, seja casado ou celibatário, pai biológico ou espiritual, sacerdote ou leigo. E é por isso que cada homem possui dentro de si um espírito de soldado, que protege os seus próximos com a própria vida, se preciso for.

O que se percebe, porém, é que este espírito combativo está dormente. Para acordá-lo, o homem precisa realizar esta cruzada interior contra si mesmo, vencendo seus medos e fraquezas, adquirindo domínio de si e crescendo em virtudes para, enfim, ser livre e amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. É a verdadeira liberdade, o bem agir conforme a vontade de Deus, o fim último desta cruzada interior.

Que companheiro melhor nesta cruzada do que São José, o homem justo? Nele encontramos a perfeição no trabalho, como excelente carpinteiro; a perfeita autoridade e solicitude como chefe familiar; o perfeito amor de pai a Cristo; e o perfeito amor de esposo à Virgem Maria.

Convidamos você, caro leitor, a juntar-se a nós nesta cruzada interior de 40 dias, no exército de São José, acompanhando as seguintes atividades:
  1. Os propósitos que publicaremos diariamente em nossas redes sociais, abarcando os três pilares da Quaresma católica, o jejum, a oração e a esmola;
  2. Uma oração diária e jaculatórias à São José;
  3. A participação no grupo de Facebook (aqui) que criamos, para estabelecer uma fraternidade entre aqueles que desejam viver a Brava Quaresma.
O primeiro propósito você já pode conferir:
Brava Quaresma 2017 Dia 01
Referências

Plinio Maria Solimeo. “Ide a José!”: Vida, privilégios e virtudes de São José, segundo os Evangelhos, a tradição e outros documentos. Art Press, 2007.
Thurston, H. “Lent”. In The Catholic Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/09152a.htm.

A ira de um santo - Pier Giorgio Frassati, um jovem IRADO


Enganam-se os que pensam que os santos têm “sangue de barata”.

Pier Giorgio sabia ser um cara cheio de grandes gentilezas. Quando ia às montanhas, trazia flores para enfeitar os oratórios de Nossa Senhora. Se viajava, mandava cartões postais para a família. Nas escaladas, ao perceber que algum amigo estava cansado, fingia que tinha de parar para amarrar os sapatos e obrigava todo mundo a parar. Nunca se esquecia de escrever cartas para os amigos nos seus aniversários.

Mas AI se mexessem com a Verdade do Evangelho... Ah, daí o “bicho pegava”.

Em um carnaval, o grupo de Pier Giorgio fez um cartaz chamando todos os católicos da universidade para rezarem em reparação dos pecados cometidos naqueles dias. Frassati pôs o cartaz no mural da universidade, no meio de um monte de convites cheios de cores berrantes que convidavam os jovens para as baladas. A galera da universidade ficou furiosa e quiseram rasgar o convite. Pier Giorgio pôs-se, então, com muita tranquilidade, entre a multidão de mais ou menos cem rapazes e o cartaz.

Começaram a insultá-lo e ameaça-lo, mas nada o fez recuar. Foram para cima do nosso amigo bem-aventurado, que deu vários murros e pontapés. Mas evidentemente o número venceu Frassati: destroçaram o cartaz católico. Pier Giorgio levantou-se, recolheu com muita calma os pedaços do cartaz e se retirou. O amigo que estava com ele testemunha: “Frassati não disse uma única palavra enquanto voltávamos para casa, mas aquele silêncio valia por um sermão”.

Nosso Pier Giorgio Frassati irado também cacetou sozinho um grupo de fascistas quando, em um almoço, invadiram sua casa. Botou-os pra correr! Lutou com um policial porque ele queria lhe retirar uma bandeira católica que segurava durante uma manifestação, brigou muitas vezes com católicos que tinham postura política contrária à Caridade.

Ser cristão não é ter aquela ideia maconheira de “paz e amor” nem o conceito de religião light de madame “comer, rezar e amar”. Com a mesma ira com que Nosso Senhor Jesus Cristo pegou no chicote, os santos souberam defender a Verdade.

Que Pier Giorgio Frassati nos ajude a combater pela Fé e que tenhamos uma boa dose dessa santa ira, dessa ira buona.

*texto de 20 de agosto de 2015.
Fonte: Página Pier Giorgio Frassati

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Paixão de Jesus Cristo e os divertimentos do carnaval.


Consummabuntur omnia, quae scripta sunt per prophetas de filio hominis — “Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas, tocante ao Filho do homem” (Luc. 18, 31).

Sumário. Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. A nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para compadecermos do seu divino Esposo, e o consolarmos com os nossos obséquios, ao passo que os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Não temos por ventura bastantes motivos para isso?

I. Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus — “Ele vai ser entregue aos gentios”. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur — “Ele será mortejado, flagelado e coberto de escarros”. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra Santo Nome de Deus! — Et postquam flagellaverint, occident eum — “Depois de o terem açoitado, o farão morrer”. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-lhe num domingo de Qüinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do Ecce Homo, e com dois algozes ao lado, os quais lhe apertavam a coroa de espinhos e o batiam sem piedade. Ah! Meu pobre Senhor!

II. Refere o Evangelho em seguida, que, aproximando-se Jesus de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ouvindo passar a multidão, perguntou o que era. Sabendo que passava Jesus de Nazaré, apesar de a gente o ralhar, a fim de que se calasse, não cessava de gritar: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim (1). Por isso mereceu que, em recompensa de sua fé, o Senhor lhe restituísse a vista: Fides tua te salvum fecit — “A tua fé te valeu”.

Se quisermos agradar ao Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego, e neste tempo de desenfreada licença, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais que de ordinário, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, lembrando-nos do que diz São Pedro Crisólogo. Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo — “Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo”. Quando nos acharmos em presença de Jesus no tabernáculo, peçamos-lhe luz para detestarmos as ofensas que o magoam tão profundamente. Peçamos-lhe não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: Domine, ut videam — “Senhor, fazei-me ver”.

Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo Espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! Pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam, Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. — Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, a fim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo. “Atendei, Senhor, benigno às minhas preces, e soltando-me das cadeias do pecado, preservai-me de toda a adversidade.”(2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.


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1. Luc. 18, 38.
2. Or. Dom. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 279 - 282.)
Créditos: Blog São Pio V

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A vocação ao celibato, a masculinidade transcendente

Texto retirado do excelente site http://www.brav.us/

Por Diego Amaya Vasquez, Chile.
Texto original em espanhol, tradução nossa (Brav.us)

Se uma pessoa qualquer escutar a palavra “celibato”, em sua mente virá, imediatamente, a vida sacerdotal ou consagrada, mas, jamais ousaria relacioná-la à vida laica, o que, na vida da Igreja, sempre foi uma realidade presente. Atualmente a palavra celibato é motivo de riso e chacota. Muitos outros erram ao confundir o celibato com a continência (ou abstinência). Por esse motivo, é necessário seguir um processo definido para tratar corretamente esse tema: começaremos definindo, distinguindo, para, então, aplicar este tema na prática. Tentaremos, ao longo deste texto, responder às seguintes questões:

a) O que é o celibato?
b) Para que o celibato?
c) Por que o celibato?
d) A quem o celibato é destinado?

Além disso, buscaremos demonstrar algumas conclusões práticas para o nosso tempo, durante o simples e superficial desenvolvimento deste tema, de acordo com os limites deste artigo.

O que é o celibato?

a) Em primeiro lugar, o celibato, no sentido cristão, não é simplesmente “não estar casado”, e não é um desprezo do matrimônio. Não é um vilipêndio da carnalidade, nem significa reprimir aquilo que no homem é tão veemente e que Deus inseriu na natureza humana como um meio de santificação com exercício no interior do matrimônio. São João Paulo II afirmava “Quando a sexualidade humana não é considerada um grande valor dado pelo Criador, perde-se o significado da renúncia pelo Reino dos Céus”1. Por muitos anos temos presenciado como o mundo se encarrega de “deificar” o corpo e depreciar a alma. Bento XVI nos motiva afirmando que a dignidade e grandeza humana está em ambas as realidades que formam uma só substância: “Se o homem pretender ser só espírito e quiser desprezar a carne como se fosse uma herança meramente animal, espírito e corpo perderiam sua dignidade. Se, ao contrário, repudia o espírito e leva em consideração somente a matéria, o corpo, como uma realidade exclusiva, reduz igualmente sua grandeza”2.

O celibato não é uma negação, senão uma escolha livre, ativa e frutífera. É um grande “SIM”. Por isso, não se deve confundi-lo com a continência, visto que não se trata de um simples “conter”, mas, sim, uma opção livre por um bem maior. A continência, vista objetivamente, pode ser praticada por qualquer pessoa, inclusive por um não crente. Todavia, o celibato, na perspectiva cristã, é um meio de santificação, que só é possível ser assumido com uma ajuda sobrenatural da graça, e que sempre se opta livremente por um bem maior e transcendente: o Reino dos Céus.

Na antiguidade havia homens (eunucos) que se dedicavam completamente ao serviço de seus senhores e a estes, Nosso Senhor Jesus Cristo fazia referência quando dizia “e há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens”3. Nosso Senhor, no entanto, inaugura um novo celibato, repleto de esplendor e liberdade, livre de toda escravidão anterior e em vistas da glória futura, dizendo “também há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus”4, manifestando que se trata de um meio que se escolhe livremente e que tem um fim sobrenatural. Jesus estava totalmente consciente da rigidez desse convite e que essa realidade de vida não é fácil se o sujeito confia em suas próprias forças, e traduzindo ao nosso tempo, nos adverte o Divino Salvador “Quem puder entender, que entenda!”5.

A doutrina da Igreja, no Concílio Vaticano II, canta um verdadeiro louvor ao celibato, denominando-o de “dom precioso da graça divina dado a alguns pelo Pai”6, “sinal e estímulo do amor”7 e “símbolo especial dos benefícios celestiais”. Isto é sinal de que a Igreja sempre tem tido grande estima acerca do dom do celibato, exigindo-o explicitamente aos sacerdotes de rito latino desde o século IV, e no oriente é exigido aos monges e os candidatos ao episcopado. E é essencial deixar claro que o celibato não tem somente um fim prático, como muitos poderiam crer.
Para que o celibato?

b) O celibato permite entregar-se e servir a Deus com um coração indiviso. Este dom celestial permite, àquele que o vivencia como um dom precioso, ser um sinal da vida futura, uma presença escatológica já em nosso tempo. O celibato é viver como estivéssemos já no céu. É trazer o céu ao nosso tempo, vivido em nossa natureza completa, em corpo e alma.

Esse convite de Cristo a uma vida celibatária é um desafio para elevar o amor humano e a descobrir novas maneiras de demostrar e encarnar esse amor escatológico. Não podemos reduzir o amor verdadeiro à relação sexual somente, pois o amor é muito mais que a união corporal. De fato, atualmente, somos testemunhas de como o amor e o ato sexual tem sido absolutamente dissociados um do outro, rebaixando a dignidade deste ato sublime e procriador a um entretenimento banal e superficial. Inclusive, dentro da mesma Igreja, podemos encontrar alguns membros que reduzem o celibato à castidade e à negação das relações sexuais, quando, na verdade, a castidade e o celibato envolvem e são envólucros da pessoa em sua totalidade, em cada um de seus atos.

Hoje em dia a Igreja se encontra “em débito” sobre o tema do celibato laical. No documento Lumen Gentium, do Concílio Vaticano, ele é colocado na mesma categoria da viuvez. No entanto, a cada dia, a Igreja toma mais consciência de que a vida celibatária é uma vocação particular e não imposta por circunstâncias distintas. Não são todos os homens que são chamados à vida matrimonial e à vida consagrada e, não por isso, estes permanecem numa lacuna vocacional. Na atualidade, há muitas pessoas que decidem viver uma vida de celibato no meio do mundo, cooperando com as tarefas da Santa Mãe Igreja e vivendo uma vida de santidade plena inseridos em seus afazeres diários. Sinal dessa realidade é que em alguns novos movimentos da Igreja estão abertos à possibilidade de que leigos optem pela vida celibatária sem deixar de ser leigos. Esses leigos celibatários desejam santificar-se sem outra consagração além do Batismo, que já é, por si, uma grande responsabilidade.

Por que o celibato?

Cristo, ao ser celibatário, nunca renuncia seu ser masculino, a ser um homem verdadeiro e completo em todos os sentidos. 

c) Poderíamos nos perguntar, por que o celibato? A resposta pode ser somente uma: Porque Jesus Cristo, nosso modelo de santidade e único mediador, foi celibatário. Obviamente, nem todos são chamados a seguir a Cristo nesse estilo de vida. Logo, se nem todos são chamados à vida de celibato, é porque é um chamado particular. E se é particular, então recebe graças especiais para ser vivido, as quais se chamam graças de estado. Tudo isso indica que o celibato é uma verdadeira vocação particular. Alguns poderiam dizer que “Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus e, por isso, conseguia viver o celibato”, mas aqueles que fazem essa afirmação esquecem que Ele assumiu a natureza humana em sua totalidade, uma masculinidade íntegra e totalmente ordenada segundo a graça. Por esse motivo que Jesus Cristo revela o homem ao próprio homem8, já que é igual a nós em tudo, menos no pecado. Nesse sentido, a virgindade e o celibato de maneira alguma rebaixam a natureza humana, da qual Cristo é o modelo pleno, mas, em contrapartida, elevam-na a um nível muito mais profundo e transcendente. É muito importante destacar que a vida de celibato não significa a renúncia da masculinidade (ou da feminilidade), pelo contrário, significa torná-la sobrenatural, do mesmo modo que o fez o filho de Deus. Cristo, ao ser celibatário, nunca renuncia seu ser masculino, a ser um homem verdadeiro e completo em todos os sentidos. É necessário reafirmar essa verdade sobre a masculinidade de Cristo contra todas aquelas falsas teologias que se dedicam a diminuir a importância dessa realidade. Cristo não é um ser etéreo e assexuado, mas um Deus que se fez HOMEM9.

A quem o celibato é destinado?

d) Definitivamente o celibato não é somente para os sacerdotes consagrados. Inclusive, nem sequer é exigido para todos os clérigos do rito oriental. E, além disso, existe o testemunho de tantos consagrados que se santificam por meio dos conselhos evangélicos e que não são sacerdotes. Mas, a questão que se aplica é: pode um leigo viver o celibato e receber a graça para isso? A resposta é SIM, mesmo que para aos olhos do mundo seja impossível e o celibato pareça uma doutrina medieval. Um leigo também pode ser chamado a servir a Deus com um coração indiviso; ele também pode ser chamado a ser um sinal escatológico e, mais ainda, todos os leigos são chamados a imitar Jesus Cristo, mas alguns de uma maneira especial, vivendo sua dimensão celibatária.

Desde o início dos tempos da Igreja já existia o celibato leigo, não é uma “novidade” do Concílio Vaticano II. São Paulo já revelava isso na Primeira Carta aos coríntios, quando afirmava: “Portanto, o que se casa com sua noiva, o faz bem. E o que não se casa, faz melhor. A mulher está ligada a seu marido enquanto vive; mas, uma vez que o marido morre, fica livre para casar-se com quem desejar, mas só no Senhor. Será feliz se permanece assim segundo o meu conselho; que também eu creio ter o Espírito de Deus”10.

O celibato leigo era praticado na igreja primitiva, tanto no caso de homens quanto no de mulheres. Os homens eram chamados de “continentes” e “ascetas”, as mulheres que viviam esse conselho evangélico eram conhecidas por “virgens”.

São Paulo diz “Aquele que não é casado se preocupa com as coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado se preocupa com as coisas do mundo, em como agradar sua mulher; está, portanto, dividido. A mulher não casada, o mesmo que a donzela, se preocupa com as coisas do Senhor, de ser santa no corpo e no espírito. Mas a casada se preocupa com as coisas do mundo, em como agradar seu marido”11.

Nesses textos não se pretende pronunciar uma condenação contra o estado conjugal, longe disso. Devemos recordar que no mesmo texto, São Paulo compara o matrimônio ao amor de Cristo pela Igreja e ressalta, desse modo, a indissolubilidade do matrimônio.

Em todos os tempos o celibato tem sido causa de crítica, escândalo e incompreensões. E, diante disso, a Igreja tem sido obrigada a armar-se e a defender excelência desse estado de vida eleito tanto por consagrados como por leigos12. De maneira alguma se deseja aqui obscurecer e tirar o valor do matrimônio, somente pretendemos transmitir o ensinamento bimilenar e plurissecular da Igreja, mãe e mestra, que nos recorda no Catecismo: “Essas duas realidades, o sacramento do matrimônio e a virgindade pelo reino de Deus, provém do próprio Senhor, é Ele quem lhes dá sentido e lhes concede a graça indispensável para que os viva de acordo com a Sua vontade. O apreço da virgindade pelo reino e o sentido cristão do matrimônio são inseparáveis e se apoiam mutuamente”.

O celibatário não é um “solteirão”, nem é alguém incapaz para uma relação matrimonial ou para o sexo. Exatamente o oposto, é alguém que alcançou um nível de maturidade emocional, psicológica e espiritual que o levou a discernir que não é chamado à vida matrimonial e, em alguns casos, tampouco, à vida consagrada. É alguém chamado a viver o amor e a fecundidade de uma maneira sobrenaturalmente diferente do matrimônio, sem negar sua própria sexualidade, elevando seus afetos ao mandato evangélico que exorta a “Ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”.

***
Em nosso tempo, devemos ser rebeldes. A melhor maneira de viver essa rebeldia é por meio de uma vida virtuosa. 

Créditos: http://www.brav.us/2016/08/a-vocacao-ao-celibato-a-masculinidade-transcendente/

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Fuga da ociosidade - Santo Afonso Maria de Ligório


É preciso notar aqui que é um engano acreditar que o trabalho é nocivo à saúde do corpo, quando é certo que o exercício corporal ajuda muito a conservar a saúde.

Muitas vezes o que faz apresentar escusas do trabalho, não é tanto o perigo da saúde, mas o peso e fadiga que o acompanham e que desejamos evitar. Ah! Quem lançar os olhos no Crucifixo, não andará esquivando-se dos trabalhos. — Um dia, Sór Francisca do Santo Anjo, Carmelita, se lamentava de ter as mãos todas dilaceradas de tanto trabalhar, e Jesus Crucificado lhe respondeu: Francisca, olha as minhas mãos e depois lamenta-te. 

Além disso, o trabalho é um remédio contra os enfados de solidão, e também contra as numerosas tentações que muitas vezes assaltam os solitários. — Sto. Antão abade achava-se um dia muito atormentado de pensamentos desonestos e ao mesmo tempo muito fatigado da solidão: não sabia o que fazer para se aliviar. Apareceu-lhe então um anjo, que o conduziu ao pequeno jardim que havia ali perto; e, tomando uma enxadinha, começou a lavrar a terra, e, em seguida, se pôs a orar. De novo, principiou a trabalhar e depois tornou a orar. Com isto, ensinou ao santo o modo como havia de conservar a solidão e ao mesmo tempo livrar-se das tentações, passando da oração ao trabalho, e do trabalho a oração. Não se deve trabalhar sempre, mas também não se pode orar sempre, sem se arriscar a perder a cabeça, e se tornar depois absolutamente inútil para todos os exercícios espirituais. — É por isso que Sta. Teresa, depois de sua morte, apareceu à Sór Paula Maria de Jesus e lhe recomendou que nunca abandonasse os exercícios corporais sob pretexto de fazer obras mais santas, assegurando-lhe que tais exercícios aproveitam muito para a salvação eterna. 

De outra parte, os trabalhos manuais, quando se fazem sem paixão e sem inquietação, não impedem de fazer oração. — Sor Margarida da Cruz, arquiduquesa de Áustria e religiosa descalça de Sta. Clara, se dedicava aos ofícios mais trabalhosos do mosteiro, e dizia que, entre outros exercícios, o trabalho não é somente útil às monjas, mas também necessário, visto que não impede o coração de se elevar para Deus.

Narra-se que S. Bernardo, um dia vendo um monge que não deixava de orar enquanto trabalhava, disse-lhe: “Continua, meu irmão, a fazer sempre o que fazes agora, e alegra-te, porque, deste modo, quando morreres, serás livre do purgatório”. O mesmo santo seguia esta prática como refere o escritor de sua vida; pois, não descuidava dos trabalhos exteriores e ao mesmo tempo se recolhia todo em Deus.

Santo Afonso de Ligório no livro: A Verdadeira Esposa de Cristo.
Créditos: Modéstia Masculina São José

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Não dê um smartphone ao seu filho



Por Jonathon van Maren | Depois de passar quatro dias em um encontro de combate à exploração sexual, na cidade de Houston, no Texas, minha mente está exausta. Assistimos a palestras sobre neurociência, tráfico humano, abuso sexual, exploração infantil e muito mais. Também assistimos a muitas, muitas palestras, sobre o veneno que tem se infiltrado em todos os lugares, alimentando o estupro, destruindo relacionamentos, debilitando os homens e obliterando a infância: a pornografia.

Ainda escreverei muito mais sobre o que aprendi, mas, por enquanto, gostaria de fazer aos pais um breve apelo, que praticamente todos os palestrantes fizeram e eu faço questão de repetir: não dê um smartphone ao seu filho.

Parece loucura imaginar que, uma década atrás, smartphones eram incomuns. Muitas pessoas sequer tinham um celular em mãos. Agora, de acordo com a premiada jornalista e escritora Nancy Jo Sales — autora de American Girls: Social Media and the Secret Lives of Teenagers —, praticamente todas as interações sociais (e sexuais) dos adolescentes foram canalizadas para os pequenos e frenéticos aparelhos que eles carregam consigo para onde quer que vão. Isso tem feito crescerem ocyberbullying, o consumo e a produção de pornografia e até mesmo o suicídio e a exploração sexual entre jovens. Adolescentes — e crianças — são puxados para dentro das redes sociais, do Facebook ao Instagram, do Snapchat a outra meia dúzia de aplicativos desconhecidos, onde as interações e os conteúdos são selecionados apenas pelas crianças que os acessam, livres de qualquer supervisão dos pais ou adultos.

Os adolescentes sabem que isso está tornando as suas vidas miseráveis. As meninas com quem conversou a jornalista Nancy Sales também lhe contaram isso. Mas elas também revelaram não ter saída. Como hoje a maior parte da vida das pessoas se passa online, optar por sair é como escolher o isolamento voluntário. As "moedas de troca" geralmente envolvem imagens de nudez, sexo explícito ou "selfies" — e, cada vez mais, também isso deixou de ser opcional.

Os pais são incapazes de controlar esse novo mundo dos adolescentes. Em muitos casos, eles sequer conseguem penetrar o seu interior. É por isso que um pai ficou tão perplexo quando sua filha se enforcou depois de um adolescente cruelmente publicar um vídeo seu tomando banho no Snapchat — aquela tinha sido, na verdade, a primeira vez em que o pai, desolado, ouviu falar de "Snapchat". Para os pais que desejam resgatar os seus filhos da "selva da Internet" ou poupá-los do sofrimento que está devastando milhões de pessoas, há algumas alternativas. Diálogo honesto e conversas francas. Fiscalização atenta do uso das redes sociais. Programas especiais e filtros de Internet em todos os aparelhos de tecnologia.

Mas, por hoje, eu gostaria de indicar apenas uma coisa: não dê um smartphone ao seu filho.

Esse conselho tem me tornado bastante impopular em alguns ambientes. Um dia desses, durante apresentação em uma escola, um adolescente me cumprimentou com sarcasmo: "Então você é aquele que disse aos meus pais que eu não deveria ter um celular". Mas isso é essencial. As crianças e a maior parte dos adolescentes não precisam de um celular com acesso à Internet. Eles não precisam de acesso ininterrupto aos sites de mídia social que os submetem mais à influência de seus colegas que à de seus pais. Eles não precisam da pressão social que inevitavelmente —inevitavelmente — advém da entrada em um mundo com novos padrões e novas "moedas de troca". E, acima de tudo, eles não devem ter acesso a toda a pornografia que a web pode oferecer, a todo esse material sujo criando novos e destrutivos modelos de comportamento — modelos com os quais toda a juventude, para além dos Estados Unidos, está começando a se conformar, seja por pressão, por violência ou por escolha própria.

Escutei dezenas de histórias nesse fim de semana, de pais que se surpreenderam encontrando os seus filhos assistindo a pornografia pesada em seus smartphones. Crianças com idade menor que a média de primeira exposição a pornografia, que costumava ser 11 anos. Agora são 9. Essas crianças, em alguns breves momentos de espanto e terror, têm roubada a sua inocência. Seus mundos mudam por completo naquele momento. Elas não podem "desver" o que viram. Elas sequer deveriam ter acesso a isso, para começo de história.

Por isso, não coloque um smartphone na mão do seu filho.

Eu entendo que os adolescentes tendem mais a precisar realmente de um celular. Meus pais me compraram um telefone celular quando eu tirei a carteira de habilitação — não para que eu interagisse com meus amigos e entrasse na Internet, mas para que eles entrassem em contato comigo e eu tivesse um meio de me comunicar quando estivesse fora, essas coisas. Meus primeiros celulares não tinham acesso à Internet, e eu não perdi nada com isso. Confesso que às vezes gostaria que meu telefone atual também não tivesse Internet, porque eu sou culpado, juntamente com esta geração, de desperdiçar tempo no meu telefone quando poderia estar fazendo alguma coisa (qualquer coisa, na verdade) mais produtiva. Mas, quando adolescentes precisam de um telefone, mesmo assim eles não precisam de um telefone com acesso à Internet. Um telefone que lhes permita fazer ligações e mandar mensagens é bom o suficiente. Eles não precisam estar constantemente conectados às redes sociais, não precisam de Snapchat (um aplicativo que pode arruinar vidas em questão de segundos) e eles definitivamente não devem ter acesso à pornografia selvagem com a qual quase inevitavelmente irão se deparar.

Não dê aos produtores pornográficos o acesso que eles tanto procuram aos seus filhos. Eles sabem que crianças e adolescentes são mais propensos a encontrar pornografia em seus celulares, e é por isso que eles fizeram um esforço gigantesco nos últimos anos para criar material pornô que pudesse ser visto e transmitido via aparelhos móveis. Eles sabem como chegar aos seus filhos: por meio de um smartphone.

Não dê um ao seu filho.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Créditos: padrepauloricardo.org

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Nossa liberdade está em sermos servos da verdade


Em discurso feito ainda no início de seu pontificado, São João Paulo II encoraja os sacerdotes a serem fiéis à doutrina moral da Igreja e faz uma bela reflexão sobre a reconciliação da consciência humana com Deus.


O texto a seguir infelizmente só se encontrava no site do Vaticano em línguas italiana e francesa, mas, dadas a atualidade do assunto, a caridade e a verdade das palavras, bem como a autoridade de quem fala — um Papa santo —, demo-nos ao trabalho de vertê-lo para a língua portuguesa, a fim de tornar disponível, a todos os que nos acompanham, esta preciosidade.

Quem se pronuncia abaixo é São João Paulo II, o tema de seu discurso é a "procriação responsável" e os destinatários de sua fala são os sacerdotes. A eles, partícipes consigo "do único sacerdócio de Cristo", o Papa dirige uma palavra de encorajamento, ao mesmo tempo em que medita sobre a reconciliação da consciência humana com Deus — tema ao qual ele dedicaria, em 1993, a importantíssima encíclica Veritatis Splendor.
Discurso do Papa São João Paulo II a sacerdotes participantes de seminário sobre "A procriação responsável"
Quinta-feira, 1.º de março de 1984
Caríssimos sacerdotes!

1. Alegro-me em acolher-vos nesta audiência especial, que me permite exprimir-vos o profundo afeto que tenho por vós, partícipes comigo do único sacerdócio de Cristo, e manifestar-vos ao mesmo tempo a grande consideração que tenho pelo trabalho pastoral ao qual dedicais as vossas melhores energias.

Vós desenvolveis o vosso apostolado particularmente a serviço da família, na justa convicção de que toda ajuda oferecida a esta célula fundamental do consórcio humano comporta uma eficácia multiplicada, que se reflete em diversos componentes do núcleo familiar, ao mesmo tempo em que se perpetua no tempo, graças à obra educacional que dos pais se percebe nos filhos e, por meio destes, nos netos.

Desejo confirmar-vos nesta convicção e encorajar-vos a prosseguir a obra começada, na qual não vos pode faltar a bênção de Deus, primeiro idealizador da comunidade familiar e, "quando chega a plenitude do tempo" (Gl 4, 4), seu providente redentor.

2. Este encontro acontece por ocasião de vossa participação no congresso que oCentro de estudos e pesquisas sobre a regulação natural da fertilidade, da Universidade Católica do Sagrado Coração, e o Instituto de estudos sobre o matrimônio e a família, da Pontifícia Universidade Lateranense, oportunamente promovem sobre o importante tema da procriação responsável. Gostaria, nesta circunstância, de dizer alguma coisa sobre o assunto a partir de um ponto de vista sobretudo pastoral.

Na recente celebração do Jubileu dos sacerdotes, admoestei-os: "Abramos sempre mais largamente os olhos — o olhar da alma — para compreender melhor o que significa perdoar os pecados e reconciliar as consciências humanas com o Deusinfinitamente santo, com o Deus da Verdade e do Amor" [1]. Reconciliar a consciência humana com o Deus da Verdade e do Amor; é esse o vosso ministério sempre, mas de um modo especial quando colocais o vosso sacerdócio a serviço dos esposos.

Vós quisestes, nestes dias, descobrir e aprofundar os fundamentos científicos, filosóficos e teológicos da procriação responsável: mais precisamente da doutrina da encíclica Humanae Vitae e da exortação apostólica Familiaris Consortio, a fim de reconciliar a consciência humana dos esposos com o Deus da verdade e do amor. Mas quando é que, de fato, a consciência humana é "reconciliada"? Quando passa a existir nela a paz profunda? Quando ela está na Verdade. E os dois documentos acima citados, na fidelidade à tradição da Igreja, ensinaram a verdade acerca do amor conjugal enquanto comunhão de pessoas.

O que significa "reconciliar a consciência dos esposos com a verdade do seu amor conjugal"? Quando os seus contemporâneos perguntam a Cristo se seria lícito ao marido repudiar a mulher, Ele responde reportando-se "ao princípio", isto é, aoprojeto original do Criador sobre o matrimônio. Vós também, que enquanto sacerdotes operais em nome de Cristo, deveis mostrar aos esposos que tudo quanto foi ensinado pela Igreja sobre a procriação responsável não é senão o projeto original que o Criador imprimiu na humanidade do homem e da mulher que se casam, e que o Redentor veio para restabelecer. A norma moral ensinada pelaHumanae Vitae e pela Familiaris Consortio é a defesa da verdade inteira do amor conjugal, porquanto exprime as exigências imprescindíveis deste amor.

Estejai certos: quando o vosso ensinamento é fiel ao magistério da Igreja, vós não ensinais algo que o homem e a mulher não possam compreender — inclusive o homem e a mulher de hoje. Esse ensinamento, de fato, que vós fazeis ressoar aos seus ouvidos, já está escrito em seus corações. O homem e a mulher devem ser ajudados a ler profundamente essa "escritura no coração". E o fato de que nesses três dias de estudo vós quisestes descobrir as razões do Magistério da Igreja, não significa porventura que quereis ter sempre mais claras as vias pelas quais conduzir os esposos à verdade profunda de si mesmos e do seu amor conjugal?

3. Reconciliar a consciência humana dos esposos com o Deus da verdade e do amor: a consciência humana dos esposos é verdadeiramente reconciliada quando eles descobrem e acolhem a verdade sobre o seu amor conjugal. De fato, como escreve Santo Agostinho, "beata quippe vita est gaudium de veritate, hoc est enim gaudium de te, qui veritas es — felicidade é gozo da verdade, o que significa gozar de ti, que és a verdade" [2].

Vós bem sabeis que, muitas vezes, a fidelidade por parte dos sacerdotes — digamos até, da própria Igreja — a essa verdade e às normas morais decorrentes (aquelas, quero dizer, ensinadas pela Humanae Vitae e pela Familiaris Consortio) custa muitas vezes um alto preço. Muitas vezes se é ridicularizado, acusado de incompreensão e de dureza, e de muitas outras coisas. É a sorte de todo testemunho da verdade, como bem sabemos. Ouçamos ainda uma página de Santo Agostinho: "No entanto, por que a verdade gera o ódio?", pergunta-se o santo doutor. "De fato", ele responde, "o amor da verdade é tal que os que amam algo diferente querem que aquilo que amam seja a verdade. Como não admitem ser enganados, detestam ser convencidos do seu erro. Assim, odeiam a verdade porque amam aquilo que supõem ser a verdade. Amam-na quando ela brilha, e a odeiam quando ela os repreende." [3]

Com simples e humilde firmeza, portanto, sede fiéis ao magistério da Igreja sobre esse ponto de importância tão decisiva para os destinos do homem.

4. Existe uma dificuldade verdadeira à reconciliação da consciência humana dos esposos com o Deus da verdade e do amor, dificuldade que é de natureza bem diferente desta há pouco indicada.

A reconciliação não acontece se os esposos somente sabem perceber a verdade do seu amor conjugal: é necessário que a sua liberdade se realize diante da verdade. A dificuldade verdadeira é que o coração do homem e da mulher é habitado pela concupiscência; e a concupiscência inclina a liberdade a não se submeter às exigências autênticas do amor conjugal.

Seria um erro gravíssimo concluir disso que a norma ensinada pela Igreja é em si própria apenas um "ideal" que deve posteriormente ser adaptado, proporcionado, graduado — dizem — às concretas possibilidades do homem: segundo um "cálculo dos vários bens em questão". Mas quais são as "concretas possibilidades do homem"? E de que homem se fala? Do homem dominado pela concupiscência ou do homem redimido por Cristo? Pois é disso que se trata: da realidade da redenção de Cristo. 

Cristo nos redimiu! Isso significa que Ele nos deu a possibilidade de realizar toda a verdade do nosso ser; Ele libertou a nossa liberdade do domínio da concupiscência. E se o homem redimido ainda peca, não é devido à imperfeição do ato redentor de Cristo, mas à vontade do homem de furtar-se à graça que brota daquele ato. O mandamento de Deus é certamente proporcionado às capacidades do homem: mas às capacidades do homem a quem foi dado o Espírito Santo; do homem que, no caso de cair no pecado, sempre pode obter o perdão e gozar da presença do Espírito.

A reconciliação da consciência humana dos esposos com o Deus da Verdade e do Amor se dá pela remissão dos pecados — pelo humilde reconhecimento de que não somos adequados e comensurados, por assim dizer, à verdade e às suas exigências —, e não pela orgulhosa redução da verdade e das suas exigências àquilo que nósdecidimos ser verdadeiro e bom. A nossa liberdade está em sermos servos da verdade. Como lemos na Liturgia das Horas de ontem: "Servo fiel é aquele que não espera ouvir de ti o que desejaria ouvir, mas antes deseja aquilo que ouve de ti" [4].

A nossa caridade pastoral para com os esposos consiste em sermos sempre disponíveis a oferecer-lhes o perdão dos pecados, através do sacramento da Penitência, não em diminuirmos aos seus olhos a grandeza e a dignidade do seu amor conjugal.

5. "Abramos sempre mais largamente os olhos — o olhar da alma — para compreender melhor o que significa perdoar os pecados e reconciliar as consciências humanas com o Deus infinitamente santo, com o Deus da verdade e do amor".

É desse olhar profundo de nossa alma sacerdotal que os esposos têm necessidade, que toda a Igreja tem necessidade. Para que os esposos, para que toda a Igreja louve o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, imersa na contemplação daquele amor e daquela verdade com as quais vós reconciliais a consciência humana dos esposos.

Invocando sobre o vosso ministério a confortante efusão dos copiosos dons da sabedoria e da caridade, de coração vos concedo minha bênção apostólica.

Fonte: Santa Sé | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
Santo Agostinho, Confissões X, 23, 33. Trad. port. de Maria L. J. Amarante. São Paulo: Paulus, 1984, p. 292.
Idem.
Santo Agostinho, op. cit., X, 26, 37, p. 295.

Créditos:https://padrepauloricardo.org/blog/nossa-liberdade-esta-em-sermos-servos-da-verdade

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O que Chesterton diria sobre o “casamento gay”?

Por Dale Ahlquist | Tradução: Equipe CNP — Um dos temas prementes na época de Chesterton era o "controle de natalidade". Ele não fazia objeção apenas à ideia, mas ao próprio termo, porque significava o oposto do que queria dizer. Não significava nem natalidade, nem controle. Posso supor que ele teria as mesmas objeções contra o "casamento gay". Não só a ideia, como também o nome está errado: o "casamento gay" não é gay, no sentido original do termo [1], nem é casamento.

Chesterton era sempre sensato em seus pronunciamentos e profecias porque entendia que qualquer coisa que atacasse a família era ruim para a sociedade. Foi por isso que ele falou contra a eugenia e a contracepção, contra o divórcio e o "amor livre" (outro termo que ele rejeitava por sua falsidade), mas também contra a escravidão assalariada e a educação estatal compulsória, com mães contratando outras pessoas para fazer o que elas foram designadas para fazer por si mesmas. É seguro dizer que Chesterton se levantou contra toda moda e tendência que hoje nos aflige porque cada uma dessas modas e tendências minava a família. Um Estado intervencionista (Big Government) tenta substituir a autoridade da família, e um Mercado dominador (Big Business) tenta substituir a sua autonomia. Há uma constante pressão comercial e cultural sobre o pai, a mãe e os filhos. Eles são minimizados, marginalizados e, sim, ridicularizados. Mas, como diz Chesterton, "esse triângulo de truísmos — pai, mãe e filho — não pode ser destruído; só se destroem as civilizações que o desprezam" [2].

A legalização das uniões homossexuais não é nem o último nem o pior ataque à família, mas tem um valor impressivo, apesar do processo de dessensibilização em que nos colocaram as indústrias de informação e entretenimento ao longo dos últimos anos. Quem tenta protestar contra a normalização do anormal é recebido "ou com ataques ou com o silêncio" — assim como Chesterton, quando ele tentou argumentar contra as novas filosofias promovidas pela maior parte dos jornais de sua época. Em 1926, ele alertou: "A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual" [3]. Seu aviso passou desapercebido, enquanto a moral sexual decaía progressivamente. Mas vamos nos lembrar que tudo começou com o controle da natalidade, que é uma tentativa de viver o sexo por ele mesmo, transformando um ato de amor em um ato de egoísmo. A promoção e a aceitação do sexo sem vida, estéril e egoísta evoluiu, logicamente, para a homossexualidade.

Chesterton mostra que o problema da homossexualidade como inimiga da civilização é bem antigo. Em O Homem Eterno, ele descreve que o culto à natureza e a "simples mitologia" produziram uma perversão entre os gregos. "Da mesma forma que eles se tornaram inaturais adorando a natureza, assim eles de fato se tornaram efeminados adorando o homem". Qualquer jovem, ele diz, "que teve a sorte de crescer de modo sensato e simples" sente um repúdio natural pela homossexualidade porque "ela não é verdadeira nem para a natureza humana, nem para o senso comum". Ele argumenta que, se tentarmos agir indiferentemente em relação a ela, estaremos nos enganando a nós mesmos. É "a ilusão da familiaridade" quando "uma perversão se torna uma convenção" [4].

Em Hereges, Chesterton quase faz uma profecia sobre o abuso da palavra "gay". Ele escreve sobre a "poderosa e infeliz filosofia de Oscar Wilde", "a religião do carpe diem". Carpe diem significa "aproveite o dia", faça o que quiser, sem pensar nas consequências, viva apenas pelo momento. "No entanto, a religião do carpe diem não é a religião das pessoas felizes, mas a das absolutamente infelizes" [5]. Há um desespero bem como um infortúnio ligado a isso. Quando o sexo é apenas um prazer momentâneo, quando não oferece nada além de si mesmo, ele não traz nenhuma satisfação. É literalmente sem vida. E, como Chesterton escreve em seu livro São Francisco de Assis,"no momento em que o sexo deixa de ser um servo, ele se torna um tirano" [6]. Essa é talvez a mais profunda análise do problema dos homossexuais: eles são escravos do sexo. Estão tentando "perverter o futuro e desfazer o passado". Eles precisam ser libertados.

O pecado tem consequências. Ainda assim, Chesterton sempre sustenta que devemos condenar o pecado, não o pecador. E ninguém mostra mais compaixão pelos decaídos do que ele. Sobre Oscar Wilde, que ele chama de "o chefe dos decadentes" [7], Chesterton diz que ele cometeu um "erro monstruoso", mas também sofreu monstruosamente por isso, indo para uma terrível prisão, onde ele foi esquecido por todas as pessoas que antes tinham brindado a sua rebeldia impulsiva. "A vida dele foi completa, naquele sentido inspirador em que a minha vida e a sua são incompletas, já que nós ainda não pagamos por nossos pecados. Nesse sentido, podemos chamar a vida dele de perfeita, assim como falamos de uma equação perfeita, que é neutralizada. De um lado, nós temos o saudável horror ao mal; de outro, o saudável horror à punição" [8].

Chesterton se referia ao comportamento homossexual de Wilde como um pecado "altamente civilizado", por ser uma das piores aflições entre as classes ricas e ilustradas. Era um pecado ao qual Chesterton nunca havia sido tentado, e ele diz que não é uma grande virtude nunca termos cometido um pecado ao qual não fomos tentados. Outra razão pela qual devemos tratar nossos irmãos e irmãs homossexuais com compaixão. Nós conhecemos nossos próprios pecados e fraquezas o suficiente. Fílon de Alexandria dizia: "Seja gentil, pois todos à sua volta estão lutando uma batalha terrível".

Compaixão, contudo, não significa jamais compromisso com o mal. Chesterton ressalta aquele equilíbrio pelo qual nossa verdade não deve ser desprovida de piedade, nem a nossa compaixão deve ser separada da verdade. A homossexualidade é uma desordem. É contrária à ordem. Os atos homossexuais são pecaminosos, ou seja, são contrários à ordem de Deus. Eles jamais poderão ser normais. Pior ainda, jamais sequer poderão ser vividos normalmente. Como diz o grande detetive Padre Brown: "Os homens até podem se manter em um nível razoável de bondade, mas ninguém jamais foi capaz de permanecer em um nível de maldade. Essa estrada conduz ao fundo do abismo" [9].

O matrimônio é entre um homem e uma mulher. Essa é a ordem. E a Igreja Católica ensina que essa é uma ordem sacramental, com implicações divinas. O mundo tem feito uma sátira do casamento que agora culminou com as uniões homossexuais. Mas foram os homens e as mulheres heterossexuais que pavimentaram o caminho para essa decadência. O divórcio, que é algo anormal, é agora tratado como normal. A contracepção, outra coisa anormal, é agora tratada como normal. O aborto ainda não é normal, ainda que seja legal [10]. Legalizar o "casamento" homossexual não o tornará normal, só vai aumentar ainda mais a confusão dos tempos e a decadência da nossa civilização. Mas a profecia de Chesterton permanece: não seremos capazes de destruir a família. Ao desprezá-la, o que vamos fazer é simplesmente destruir-nos a nós mesmos.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Notas e referências
Antes de significar "homossexual", a palavra inglesa gay remetia simplesmente à ideia de alegria e despreocupação.
CHESTERTON, G. K. The Superstition of Divorce. London: Chatto & Windus, 1920, p. 63.
______. The Next Heresy. In: The Chesterton Review 26 (3), p. 295-298 (2000).
______. O Homem Eterno (trad. de Almiro Pisetta). São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 164-165.
______. Hereges (trad. de Antônio Emílio Angueth de Araújo). 3. ed. Campinas: Ecclesiae, 2012, p. 119.
______. Saint Francis of Assisi. London: Hodder and Stoughton, 1923, p. 30.
______. The Victorian Age in Literature. London: Williams and Norgate, 1913, p. 226.
______. Oscar Wilde. In: On Lying in Bed and Other Essays. Calgary: Bayeux Arts, 2000, p. 248.
______. The Flying Stars. In: A Inocência do Padre Brown. Porto Alegre: L&PM, 2011.
Nos Estados Unidos, o aborto é legalizado desde a famosa decisão Roe vs. Wade, de 1973.

Créditos: Site Padre Paulo Ricardo

Cardeal Sarah: Ideologia de gênero é mortal e demoníaca


Cardeal Robert Sarah. Crédito: Sabrina Fusco (ACI Prensa)

WASHINGTON DC, 19 Mai. 16 / 06:00 pm (ACI).- O Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, Cardeal Robert Sarah, afirmou que a ideologia de gênero é “demoníaca” e um “impulso mortal” que ataca as famílias.
Assim o indicou o Cardeal africano em sua intervenção no tradicional ‘National Catholic Prayer Breakfast’, em Washington (Estados Unidos), no qual se reuniram diversos líderes do país para tratar diversos temas de grande importância.
Em sua exposição, o Cardeal disse que em nenhum lugar a perseguição religiosa é “mais clara que na ameaça das sociedades contra as famílias através da uma demoníaca ideologia de gênero, um impulso mortal que se experimenta em um mundo no qual extirpa cada vez mais Deus através da colonização ideológica” denunciada em distintas ocasiões pelo Papa Francisco.
O Prefeito disse ainda que defender a família é uma tarefa fundamental na sociedade atual: “Não é uma guerra ideológica. Trata-se na verdade de defender-nos a nós mesmos, os nossos filhos e as gerações futuras ante uma ideologia demoníaca (a ideologia de gênero), a qual afirma que as crianças não necessitam mães e pais. Ela nega a natureza humana e quer extirpar Deus de gerações inteiras”.
“A ruptura das relações fundamentais na vida da pessoa – por meio da separação, do divórcio ou das imposições distorcidas da família como a convivência e as uniões do mesmo sexo – é uma ferida profunda que fecha o coração ao amor que se entrega até a morte e que leva ao cinismo e à desesperança”.
Estas situações, continuou o Cardeal, “prejudicam as crianças pequenas ao deixá-las com uma dúvida existencial profunda sobre o amor. São um escândalo e um obstáculo, que faz com que os mais vulneráveis não acreditem em tal amor, e um peso, que esmaga e que pode impedir que se abram ao poder de cura do Evangelho”.
Em meio a tudo isto, disse o Cardeal africano, a Igreja e o Papa Francisco tentam combater a globalização da indiferença.
“Por esta razão o Santo Padre, aberta e vigorosamente, defende o ensinamento da Igreja sobre a anticoncepção, o aborto, a homossexualidade, as tecnologias reprodutivas, a educação das crianças e muitos outros”, indicou o Cardeal.
Atualmente, continuou o Cardeal Sarah, “a violência contra os cristãos não é somente física” como a que sofrem os fiéis do Oriente Médio nas mãos do Estado Islâmico, “mas também política, ideológica e cultural”.
“Esta forma de perseguição religiosa é tão ou mais prejudicial, mas é mais escondida. Não destrói fisicamente, mas espiritualmente”, precisou.
Por isso, o Cardeal disse que atualmente e “em nome da ‘tolerância’ os ensinamentos da Igreja sobre o matrimônio, a sexualidade e a pessoa humana estão sendo desmanteladas” e criticou a legalização das uniões de mesmo sexo, o mandato abortista da administração Obama e as leis que permitem o acesso aos banheiros de acordo com a chamada “identidade de gênero”.
Em seguida, o Cardeal se dirigiu aos participantes do ‘National Catholic Prayer Breakfast’ ressaltando que chegou aos Estados Unidos para “encorajá-los a ser proféticos, fiéis e sobretudo a fim de que rezem”.
“Estas três sugestões – prosseguiu – demonstram que a batalha pela alma da América e a alma do mundo é basicamente espiritual. Mostram que a batalha briga primeiro com nossa própria conversão a Deus a cada dia”.
É importante para esta missão, continuou, um grande discernimento a respeito de como “em suas vidas, em seus lares, em seus locais de trabalho, em sua nação, Deus está sendo reduzido, eclipsado e liquidado”.
Recordando o título do seu livro, o Cardeal concluiu: “ao final, é Deus ou nada”.
“Dieu ou rien” (Deus ou nada) é o nome do livro no qual aparece a extensa entrevista realizada pelo jornalista francês Nicolas Diat ao Cardeal Sarah. Este homem de imprensa também escreveu um livro sobre Bento XVI.
Os temas do livro são variados e não excluem alguns polêmicos como os abusos sexuais de alguns membros do clero e a enérgica e decisiva reação de João Paulo II, Bento XVI e Francisco com sua política de tolerância zero; além das grandes perguntas do mundo pós-moderno que vive longe de Deus.
O Cardeal Sarah foi ordenado sacerdote em 1969 e foi consagrado bispo em 1979, tornando-se o bispo mais jovem do mundo.
Em 2001, foi convocado a Roma pelo Papa João Paulo II para servir como Secretário da Evangelização dos Povos.

Bento XVI o escolheu como presidente do Pontifício Conselho Cor Unum em 2010 e em 2014 o Papa Francisco o nomeou Presidente do dicastério vaticano que é responsável pela liturgia.

Fonte: ACI Digital
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