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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A dúvida respondida por São João Paulo II

Na primeira metade de seu pontificado, devido a sérias controvérsias suscitadas na Igreja, São João Paulo II se viu obrigado a confirmar a Tradição católica de não ordenar mulheres.




Depois dos agitados anos 1960, quando a Igreja também se viu questionada pelas revoluções mundo afora, o problema relativo à ordenação de mulheres já não era uma novidade para os teólogos. O tema estava entre os principais assuntos discutidos nas academias, sobretudo após a iniciativa dos anglicanos de incluírem entre os seus sacerdotes também as mulheres. Foi aí que o então Sumo Pontífice Paulo VI, exercendo o ministério petrino de confirmar os irmãos na fé, publicou a Declaração Inter Insigniores, com a qual dirimia qualquer dúvida acerca da Tradição católica. A Igreja "não se considera autorizada a admitir as mulheres à ordenação sacerdotal", explicou o Santo Padre na época. Todavia, o debate estava longe de acabar ali.

As discussões continuaram a fervilhar nos anos seguintes com cada vez mais veemência e caráter reivindicatório. A seu favor, os defensores das ordenações femininas argumentavam que a decisão de Jesus de escolher apenas homens para o ministério apostólico baseava-se somente em um contexto sociológico e que, por isso, tal decisão seria disciplinar, como no caso do celibato dos padres. Ao contrário da doutrina, que não pode ser contestada pelo fiel católico, a disciplina, embora deva ser obedecida enquanto estiver em vigor, pode ser ab-rogada. E era esse o desejo deles.

Em 1978, assume o trono de São Pedro o cardeal polonês Karol Wojtyla. É durante o seu governo que o Papa será desafiado a dar uma resposta definitiva para a questão. O estopim da queda de braço ocorreu nos Estados Unidos, em 1979, na Catedral de Washington. Na ocasião, a irmã Therese Kane, então presidente da US Leadership of the Women Religious, havia sido escolhida para representar as freiras no encontro com o Santo Padre. Foi durante a sua fala que ela explodiu a bomba:
"Nós temos ouvido a poderosa mensagem de nossa Igreja, dirigida à dignidade e à reverência de todas as pessoas [...]. A Igreja deve responder oferecendo a possibilidade de as mulheres, como pessoas, serem incluídas em todos os ministérios."

A mensagem da irmã Therese Kane ganhou o mundo e não podia passar despercebida dentro dos círculos católicos. Apesar do constante ensinamento do Magistério sobre o assunto, a força daquele gesto desencadeou uma nova onda de discussões que exigiram do Papa uma posição inequívoca. E foi o que ele fez, já mesmo na ocasião da visita aos Estados Unidos, explicando repetidas vezes que a Igreja não possuía a faculdade de ordenar mulheres. "Chamando só homens como seus apóstolos, Cristo agiu de maneira totalmente livre e soberana. Fez isto com a mesma liberdade com que, em todo o seu comportamento, pôs em destaque a dignidade e a vocação da mulher", explicou novamente o Santo Padre, agora em 1988, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (n. 26).No mesmo documento, São João Paulo II ainda esclareceu que:
"Se Cristo, instituindo a Eucaristia, a ligou de modo tão explícito ao serviço sacerdotal dos apóstolos, é lícito pensar que dessa maneira ele queria exprimir a relação entre homem e mulher, entre o que é 'feminino' e o que é 'masculino', querida por Deus, tanto no mistério da criação como no da redenção. É na Eucaristiaque, em primeiro lugar, se exprime de modo sacramental o ato redentor de Cristo Esposo em relação à Igreja Esposa. Isto se torna transparente e unívoco, quando o serviço sacramental da Eucaristia, no qual o sacerdote age 'in persona Christi', é realizado pelo homem. É uma explicação que confirma o ensinamento da Declaração Inter Insigniores, publicada por incumbência do Papa Paulo VI para responder à interrogação sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial."

A intervenção clara de São João Paulo II serviu para tranquilizar "muitas consciências que, em boa fé, se deixaram agitar talvez não tanto pela dúvida, como pela insegurança. Elas "encontraram a serenidade graças ao ensinamento do Santo Padre", como observaria o cardeal Ratzinger anos depois.

Por outro lado, algumas oposições ao ensinamento constante do Magistério ordinário da Igreja não cessaram e se fizeram ainda mais atrevidas, chegando ao cúmulo de ordenações clandestinas. O desafio estava lançado à Santa Sé e São João Paulo II não o deixaria sem resposta. No dia 22 de maio de 1994, data em que se celebrava a Solenidade de Pentecostes, o Santo Padre mandou publicar a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis:
"Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja." (grifos nossos)

A definição de São João Paulo II, apesar de clara, ainda foi objeto de dúvidas entre alguns prelados e fiéis. Questionava-se se a declaração possuía caráter dogmático. Em forma de dubium, chegou à Congregação para a Doutrina da Fé a seguinte questão: "Se a doutrina, segundo a qual a Igreja não tem faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, proposta como definitiva na Carta Apostólica Ordinatio sacerdotalis, deve ser considerada pertencente ao depósito da fé." A resposta da mesma congregação foi: "Afirmativa". Roma locuta!

Toda esta controvérsia nos ensina como a Igreja costuma usar o instrumento do dubium (plural dubia) para esclarecer alguma dificuldade interpretativa que possa surgir de um documento magisterial. Ensinar com clareza o caminho de Deus é um grande ato de misericórdia e de caridade para os fiéis. Afinal, não há nada mais importante para as ovelhas do que ouvir, com clareza, a voz do bom pastor e dele receber a vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Fonte: Padrepauloricardo.org

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

São Jerônimo e a coroa triunfal da castidade

O historiador Daniel-Rops conta que, antes de sua conversão definitiva, Jerônimo, “nascido de pais cristãos", “começou a sua vida como um rapaz curioso de tudo, ávido de conhecimento, cujo temperamento oscilava entre um desejo sincero de piedade, e até de ascese, e certas liberdades menos morais" [1]. Tendo recebido a fé cristã desde cedo, Jerônimo ainda não se tinha decidido totalmente por Cristo, sua carne ainda opunha resistência moral à fé que desde a infância o fascinava.

Sua juventude, que culmina com uma fuga decisiva para o deserto, ilustra muito bem o itinerário por que passam muitos cristãos, antes de se converterem. “Sou aquele filho pródigo que malbaratou a sua parte da herança paterna (...) e que ainda não soube menosprezar os afagos de minhas passadas luxúrias e, agora que me empenho em querer superar os meus vícios, ocorre que o diabo procura aprisionar-me em novas redes" [2], confessava o santo, em carta endereçada a Teodósio e outros monges anacoretas. Anos mais tarde, o santo não temeria admitir que fora várias vezes vencido pelo mal: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho" [3].

Essas palavras, certamente difíceis de escrever, revelam como, em qualquer época, onde abundou o pecado sempre é possível que superabunde a graça (cf. Rm 5, 20). O testemunho da reviravolta de Jerônimo – unido, por exemplo, às “Confissões" de um Santo Agostinho – é razão de esperança para aqueles que, tendo passado pelo vale da sombra da morte (cf. Sl 23, 4), querem agora conformar-se a uma vida iluminada pelo Verbo de Deus (cf. Sl 119, 105).

Entretanto, São Jerônimo não pretende iludir ninguém com as facilidades de uma vida mansa. Definitivamente, esse não é o caminho para quem quer possuir a virtude da pureza. A esse propósito, ele faz questão de alertar que são justamente os que lutam os principais alvos do demônio. “O diabo não procura os homens infiéis, que estão fora, cuja carne o rei assírio já queimou na fornalha. É a Igreja de Cristo que ele se apressa em arruinar" [4]. “Cuidado se você não sofre tentações!", alertava o Santo Cura de Ars. E explicava:
“A quem o demônio mais persegue? Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas! (...) As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas." [5]

“As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas (...) a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas". Esta verdade, que São João Maria Vianney pregaria na França no século XVIII, foi confirmada com força por São Jerônimo quando ele, ainda jovem, decidiu se refugiar no deserto e dizer “não" à sua velha vida de prazeres. O seu relato é impressionante, a ponto de o Cura de Ars comentar: “Eu não acredito que exista um santo que tenha sido mais tentado do que ele" [6]. Eis o que Jerônimo escreve:
“Quando eu vivia no deserto, exausto pelo calor do sol, na vasta solidão que dá aos eremitas uma solitária morada, quantas vezes os prazeres de Roma pareciam me assaltar! Permanecia sozinho, porque estava repleto de amargura. As vestes de saco desfiguraram meus membros e minha pele magra se tornara negra como a de um etíope. Chorava e gemia todos os dias, e quando o sono ameaçava superar minhas lutas, os meus ossos nus colidiam com dificuldades contra o chão. De minha comida e bebida eu nada falo, pois, ainda que esgotados, para os eremitas, beber água fria e aceitar alguma comida cozida já é visto como extravagância. Embora em meu medo do inferno eu me encerrasse nessa prisão, onde não tinha outra companhia a não ser a dos escorpiões e das feras selvagens, frequentemente me via rodeado por um bando de garotas. Ainda que minha carne estivesse como que morta, com meu rosto pálido e meu corpo macerado pelos jejuns, minha mente queimava de desejo, e as chamas da luxúria ainda fervilhavam em mim. Desamparado, eu me jogava aos pés de Jesus, derramava sobre eles as minhas lágrimas e as enxugava com meu cabelo: e então submetia meu corpo rebelde a semanas de abstinência. (...) Lembro-me o quanto clamava em alta voz toda a noite até o romper do dia, sem parar de bater em meu peito até que, à repreensão do Senhor, voltasse a ficar tranquilo. Eu chegava a temer minha própria cela, como se ela soubesse os meus pensamentos, e, então, irritado comigo mesmo, saía sozinho pelo deserto. Onde eu encontrasse vales cavernosos, montanhas rochosas ou despenhadeiros, ali eu fazia meu oratório, a fim de corrigir a minha carne infeliz. Aí – e disso o próprio Senhor é minha testemunha –, depois de ter derramado copiosas lágrimas e esticar os meus olhos aos céus, eu às vezes me sentia entre os coros angélicos, que com gozo e alegria cantavam: 'Como perfume derramado é o teu nome, por isso as jovens enamoram-se de Ti' (Ct 1, 3)." [7]

Na luta para vencer as tentações da impureza, o homem é obrigado a tomar uma decisão. Ou ele cede à impureza e, pouco a pouco, perde a fé – afinal, como ensina o bem-aventurado Fulton Sheen, “quem não vive de acordo com aquilo em que acredita termina acreditando naquilo que vive" -, ou combate o bom combate (cf. 2 Tm 4, 7) e, então, ganha a coroa da pureza, como aconteceu com São Jerônimo.

Que alegria não deve ter sido para o santo ver-se rodeado pelas hostes angélicas, após tantos embates e penitências! E que alegria não será também para nós contemplarmos a face de Deus, após as penúrias deste vale de lágrimas! Confiemo-nos à intercessão de São Jerônimo, e não desanimemos diante das tentações, mas creiamos: “Quando te decidires com firmeza a ter vida limpa, a castidade não será para ti um fardo; será coroa triunfal" [8].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014. p. 527.
São Jerônimo, Epistola II (PL 22, 331-332).
São Jerônimo, Epistola XLVIII, 20 (PL 22, 509).
São Jerônimo, Epistola XXII, 4 (PL 22, 396).
Santo Cura de Ars, Sermão sobre as tentações, p. 9-10.
Ibidem, p. 11.
São Jerônimo, Epistola XXII, 7 (PL 22, 398-399).
São Josemaría Escrivá, Caminho, 123.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Mortos por não serem homossexuais



Não é a primeira vez que um sistema político imoral tenta impor-se sobre os cristãos e obrigá-los ao silêncio em relação à homossexualidade. Os mártires de Uganda, ainda no século XIX, foram as primeiras vítimas de uma “ditadura gay”.


Os primeiros missionários cristãos a pisarem no atual território de Uganda eram protestantes. Em 1877, eles foram acolhidos por Mutesa, o monarca de "Buganda" – como então era chamado o reino –, ficando livres para expandir a fé cristã em meio à população. A tolerância do Rei era tanta, que os missionários podiam pregar Jesus Cristo entre os próprios membros da sua corte. Mutesa mesmo, no entanto, não estava disposto a abandonar a poligamia – nem a circuncidar-se, como pedia o Islã. Apesar de aberto à pregação de todas as religiões, ele ficaria sem escolher nenhuma.

Dois anos mais tarde, em 1879, era a vez dos católicos serem acolhidos em seu reino: os Missionários da África – ou "Padres Brancos", como eram denominados – também passaram a evangelizar Uganda.

Em suas bocas, estava o discurso inflamado contra as práticas pagãs e supersticiosas dos nativos africanos. Os missionários da época não sacrificavam a fé no altar do "politicamente correto".Aderir a Cristo significava uma ruptura total com o antigo modo de vida, uma completa mudança de mentalidade e de comportamento. Ao aderir àquela "religião estrangeira", os abasomi – como eram chamados os convertidos à fé cristã – não só abandonavam as velhas tradições de suas tribos, como eram considerados "rebeldes" por seus compatriotas.

O martírio de José Mukasa

Um desses conversos, o seminarista católico José Mukasa, era particularmente importante para a evangelização em Buganda. Amigo pessoal tanto de Mutesa quanto de seu filho Mwanga, Mukasa tinha levado a fé a muitos dos jovens pajens que trabalhavam na corte real. A sua posição de influência junto do Rei confirmava ainda mais a sua liderança e eram muitos os que se faziam católicos graças à sua pregação.

No entanto, aproximava-se o dia em que o mordomo real teria de escolher entre Deus e César, entre o amor à Igreja e a lealdade ao Rei.

De fato, tão logo assumiu o trono em lugar de seu pai, Mwanga I demonstrou-se um verdadeiro inimigo da religião cristã. Os seus motivos eram manifestos. Influenciado por más amizades, Mwanga começou a praticar a homossexualidade e, não podendo suportar as críticas da moral cristã a esse comportamento, passou a perseguir sistematicamente os cristãos de Buganda – tanto anglicanos, quanto católicos. Também não lhe agradava a rejeição dos cristãos ao tráfico de escravos, o qual constituía uma importante fonte de recursos para o reino. Para que pudesse agir como bem entendesse, Mwanga tinha tomado uma firme decisão: teria que riscar o cristianismo do mapa de seu reino.

No dia 31 de janeiro de 1885, os jovens anglicanos Makko Kakumba, Yusuf Rugarama e Nuwa Sserwanga foram as primeiras vítimas do rei. Eles foram desmembrados e queimados no povoado de Busega Natete, por ordem do Rei. Não contente com a execução, em outubro do mesmo ano, Mwanga ordenou o assassinato do bispo anglicano James Hannington, alegando "más intenções" por parte do prelado, só por ele ter entrado no reino por uma rota mais curta que a tradicional.

Tamanha barbaridade suscitou a indignação de José Mukasa, que – a exemplo de Natã diante do rei Davi – reprimiu severamente Mwanga, por matar Hannington sem ao menos dar-lhe a oportunidade de defender-se. Outra crítica, todavia, fez acender de vez a cólera real: avesso à homossexualidade do monarca, Mukasa pediu a Mwanga que parasse de compelir os membros da corte às suas imoralidades. De fato, a promiscuidade do rei era insaciável e ele não hesitava em transformar os seus súditos em "parceiros sexuais". Como reação a isso, José não apenas tinha ensinado os rapazes a resistirem, como fez questão de deixá-los longe do alcance do Rei.

Perturbado com as críticas de Mukasa, Mwanga jogou-o na prisão e, no dia 15 de novembro, mandou queimá-lo publicamente, para que servisse de exemplo a todo o povo de Uganda. Antes de morrer, disse ao seu executor: "Um cristão que dá a sua vida a Deus não tem razão para temer a morte. Diga a Mwanga que ele me condenou injustamente, mas eu o perdoo de todo o meu coração." O carrasco ficou tão impressionado que decapitou-o antes de amarrá-lo e queimar o seu corpo.

O massacre de Namugongo

Muitos outros cristãos caíram nas mãos de Mwanga, totalizando um número de 45 mártires (22 deles católicos). A perseguição da Coroa à fé cristã duraria até o dia 27 de janeiro de 1887, com a morte do católico Jean-Marie Muzeeyi. De todas as atrocidades cometidas por Mwanga, porém, a pior de todas foi o massacre de Namugongo, quando 26 cristãos, sob a liderança de São Carlos Lwanga, foram mortos de uma só vez.

Apontado pelo Rei como novo mordomo da corte, Lwanga não demoraria a causar novos problemas à Coroa. Assim como Mukasa, de fato, Carlos sabia ser "necessário antes obedecer a Deus que aos homens" ( At 5, 29). Uma de suas primeiras preocupações à frente do palácio foi justamente proteger os jovens cristãos dos desejos luxuriosos do monarca. Certa vez, um dos pajens se recusou a manter relações sexuais com o soberano. Perguntado qual era o seu motivo, ele respondeu que estava recebendo catequese de um católico. Tomado pela ira, Mwanga chamou o responsável à sua presença, tomou sua lança e decepou a sua cabeça, sem piedade. 26 de maio de 1886, Daniel Ssebuggwawo é a vítima da vez.

Ainda insatisfeito, o Rei convocou toda a corte para o dia seguinte. Carlos Lwanga, prevendo o que haveria de acontecer, deu o sacramento aos quatro catecúmenos que ainda não tinham recebido o Batismo – entre eles, uma criança de 14 anos, chamada Kizito. No outro dia, logo de manhã, Mwanga separou de sua corte todos os cristãos e, depois de pedir inutilmente que abandonassem a sua fé, condenou-os todos à morte.
"Quem dentre vocês não tiver a intenção de rezar, pode ficar aqui ao lado do trono; aqueles, porém, que quiserem rezar, reúnam-se contra aquele muro", teria dito o Rei, na ocasião. Lwanga foi o primeiro a dirigir-se ao muro, seguido por outros tantos. Mwanga, então, perguntou-lhes: "Mas vocês rezam de verdade?", ao que Carlos respondeu: "Sim, meu senhor, nós rezamos e queremos continuar até a morte".

Alguns deles foram mortos ainda naquele mês, como o católico Nowa Mawaggali, que padeceu estraçalhado por cães selvagens. A maioria, porém, estava destinada a morrer em Namugongo, no dia 3 de junho de 1886.

Era uma quinta-feira da Ascensão do Senhor e os prisioneiros, sentenciados à fogueira, estavam tranquilos e alegres diante de seu veredito. A fila de condenados partia ao lugar da execução, rezando bem alto e recitando o Catecismo pelo caminho. O pequeno Kizito simplesmente sorria, como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira. Testemunhas oculares relatavam a alegria e a confiança dos mártires, encorajando uns aos outros, enquanto eram amontoados em uma grande fogueira por seus carrascos.

"Invoque o seu Deus, e veja se ele pode salvá-lo", disse um deles. "Pobre louco", replicou São Carlos Lwanga. "Você está me queimando, mas é como se estivesse derramando água sobre o meu corpo."

Os outros prisioneiros estavam igualmente calmos. Das chamas ardentes, só se ouviam as suas orações e canções, que ressoavam cada vez mais alto. Quem assistiu à execução atesta nunca ter visto ninguém morrendo daquela forma.
"Semente de novos cristãos"

São Carlos Lwanga e os outros 21 mártires católicos de Uganda foram beatificados pelo Papa Bento XV, em 6 de junho de 1920, e canonizados por Paulo VI, em 18 de outubro de 1964.

Recentemente, durante viagem apostólica à África, o Papa Francisco visitou o Santuário dos Mártires de Namugongo e celebrou uma Missa em sua honra. "O testemunho dos mártires mostra a quantos, ontem e hoje, ouviram a sua história que os prazeres mundanos e o poder terreno não dão alegria e paz duradouras", disse o Santo Padre. "São a fidelidade a Deus, a honestidade e integridade da vida e uma autêntica preocupação pelo bem dos outros que nos trazem aquela paz que o mundo não pode oferecer."

Assim como em outros tempos da Igreja, o sangue desses homens valorosos foi um incentivo para a conversão de muitos outros. O reino de terror instaurado por Mwanga não teve o efeito pretendido: ao invés de diminuir, o número de cristãos só aumentou cada vez mais. Realmente, como escreve Tertuliano, " sanguis martyrum semen christianorum – o sangue dos mártires é semente de novos cristãos".

Hoje, Uganda é um país majoritariamente cristão, graças ao exemplo desses jovens mártires, que resistiram a um governo ímpio para guardar a sua fé e a sua castidade. Notoriamente, trata-se do país africano que mais avanços obteve no combate à AIDS, graças a um programa de saúde que envolve principalmente – mais do que a simples distribuição de preservativos – a abstinência e a fidelidade no casamento. O programa já foi elogiado por especialistas e apontado como o mais eficaz na contenção do vírus HIV.

A primeira-dama do país, Janet Museveni, fala abertamente aos universitários sobre a castidade. "Honrem seus corpos como templo de Deus", ela diz. "Não tomem atalhos nem ponham em perigo suas vidas, utilizando meios inventados pelo homem, como os preservativos, e indo contra o plano de Deus para suas vidas."

Para quem teve Mwanga no passado, é alentador ter uma posição tão contundente a favor da moral católica guiando o futuro de Uganda. Que São Carlos Lwanga e seus 21 companheiros mártires sigam intercedendo pela África e por todo o mundo, a fim de que a castidade que os conduziu ao martírio arda no coração dos nossos jovens e também os leve a um testemunho irrepreensível de amor a Cristo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendação

FAUPEL, John F. African Holocaust: The Story Of The Uganda Martyrs. Literary Licensing, 260p.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Santo Estanislau Kostka


"Santo Estanislau Kostka provou para os jovens de todos os tempos que um homem vale na medida em que corresponde generosamente ao chamado de Deus e deseja as coisas do Alto." - Carmela Werner Ferreira
13 de Novembro - Festa de Santo Estanislau Kostka.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

São Josemaría Escrivá - Pureza (Capítulo do livro "Sulco")



831 A castidade - a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote - é uma triunfante afirmação do amor.

832 O “milagre” da pureza tem como pontos de apoio a oração e a mortificação.

833 A tentação contra a castidade demonstra-se tanto mais perigosa quanto mais dissimulada: por se apresentar insidiosamente, engana melhor. - Não transijas, nem sequer com a desculpa de não “parecer estranho”!

834 A santa pureza: humildade da carne! Senhor - pedias-Lhe -, sete chaves para o meu coração. E aconselhei-te que Lhe pedisses sete chaves para o teu coração e, também, oitenta anos de gravidade para a tua juventude... Além disso, vigia..., porque mais depressa se apaga uma fagulha do que um incêndio; foge..., porque aqui é uma vil covardia ser “valente”; não andes com os olhos esparramados..., porque isso não indica ânimo desperto, mas insídia de satanás. Mas toda essa diligência humana, junto com a mortificação, o cilício, a disciplina e o jejum, que pouco valem sem Ti, meu Deus!

835 Assim matou aquele confessor a concupiscência de uma alma delicada, que se acusou de certas curiosidades: - “Ora! Instintos de machos e de fêmeas!”.

836 Tão logo se admite voluntariamente esse diálogo, a tentação tira paz à alma, do mesmo modo que a impureza consentida destrói a graça.

837 Seguiu o caminho da impureza com todo o seu corpo... e com toda a sua alma. - A sua fé foi-se esfumando..., embora saiba muito bem que não é problema de fé.

838 “O senhor disse-me que se pode chegar a ser `outro' Santo Agostinho, depois do meu passado. Não duvido, e hoje mais do que ontem quero esforçar-me por comprová-lo”. Mas tens de cortar valentemente e pela raiz, como o santo bispo de Hipona.

839 Sim, pede perdão contrito, e faz abundante penitência pelos acontecimentos impuros da tua vida passada - mas não queiras recordá-los.

840 Essa conversa... suja, de cloaca! - Não basta que não a secundes: manifesta energicamente a tua repugnância!

841 É como se o “espírito” se fosse reduzindo, empequenecendo, até ficar num pontinho... E o corpo aumenta, agiganta-se até dominar. - Foi para ti que São Paulo escreveu: “Castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão, não seja que, tendo pregado aos outros, venha eu a ser reprovado”.

842 Que pena dão os que afirmam - pela sua triste experiência pessoal - que não se pode ser casto vivendo e trabalhando no meio do mundo! - Com esse raciocínio ilógico, não deveriam incomodar-se se alguém ofende a memória de seus pais, de seus irmãos, da sua mulher, do seu marido.

843 Aquele confessor, um pouco rude, mas experiente, conteve os desvarios de uma alma e os reduziu à ordem com esta afirmação: “Andas agora por caminhos de gado; depois conformar-te-ás em ir pelos das cabras; e depois..., sempre como um animal, que não sabe olhar para o céu”.

844 Talvez sejas... isso mesmo, o que és: um animalzinho. - Mas tens de reconhecer que outros são íntegros e castos. Ah!, e não te irrites depois, quando não contarem contigo ou quando te ignorarem: eles e elas organizam os seus planos humanos com pessoas que têm alma e corpo..., não com animais.

845 Há quem traga filhos ao mundo para o seu benefício, para o seu serviço, para o seu egoísmo... E não se lembram de que são um dom maravilhoso do Senhor, do qual terão que prestar contas especialíssimas. Trazer filhos, somente para continuar a espécie, também o sabem fazer - não te zangues comigo - os animais.

846 Um casal cristão não pode desejar cegar as fontes da vida. Porque o seu amor se fundamenta no Amor de Cristo, que é entrega e sacrifício... Além disso, como Tobias recordava a Sara, os esposos sabem que “nós somos filhos de santos, e não podemos juntar-nos à maneira dos gentios, que não conhecem a Deus”.

847 Quando éramos pequenos, procurávamos grudar-nos à nossa mãe, ao passarmos por caminhos escuros ou por onde havia cachorros. Agora, ao sentirmos as tentações da carne, devemos chegar-nos estreitamente à Nossa Mãe do Céu, por meio da sua presença bem próxima e por meio das jaculatórias. - Ela nos defenderá e nos levará à luz.

848 Pensa, que são mais homens, ou mais mulheres, por levarem essa vida desordenada. Vê-se que os que raciocinam assim colocam o seu ideal de pessoa nas meretrizes, nos invertidos, nos degenerados..., naqueles que têm o coração podre e não poderão entrar no Reino dos Céus.

849 Permite-me um conselho, para que o ponhas em prática diariamente. Quando o coração te fizer notar as suas baixas tendências, reza devagar à Virgem Imaculada: Olha-me com compaixão, não me deixes, minha Mãe! - E aconselha-o assim a outros.


Fonte: http://www.escrivaworks.org.br/book/sulco-capitulo-26.htm

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

“Conserva-te puro” - Padre Francisco Faus (Como fortalecer a virtude da castidade)


 GUIA: «CONSERVA-TE PURO»

Entre os conselhos finais que São Paulo dá a Timóteo, na primeira carta que lhe escreveu, está o seguinte: Conserva-te puro – literalmente: “guarda-te casto a ti mesmo” (1Tm 5, 12). E, na segunda carta, exorta-o a se afastar dos homens mais amigos dos prazeres do que de Deus (cf. 2Tm 3,4-5).

Víamos no capítulo anterior que a virtude da castidade é um “tesouro”. Por isso, é preciso guardá-la com vigilância, cuidado e delicadeza.

Como qualquer outra virtude humana, a castidade não surge sozinha (ver Cap. 13 a 15). Deve forjar-se, como o ferro, com o fogo da graça de Deus e o martelar do esforço pessoal.

Meditaremos neste capítulo, a partir de agora, sobre os meios para fortalecer a castidade e fazer com que, ao longo da vida, amadureça cada vez mais.

A força da oração

A oração é um meio imprescindível para levar avante a vida cristã. Santo Afonso de Ligório a chamava «o grande meio de salvação» (título de um belo livro dele).

Poucos aprenderam esta verdade melhor que Santo Agostinho, que teve de lutar heroicamente contra os maus hábitos sensuais quando se aproximava da conversão, e que chegou, por experiência própria, à seguinte conclusão: «Ninguém é casto se Deus não lho concede». Devemos pedir, pois, essa virtude com fé, sem desanimar, por mais que demoremos a consegui-la. Com Deus chegaremos até onde nós, só com nossas forças, nunca teríamos chegado.

Dentro do conceito amplo de “oração” (talvez fosse melhor falar de “meios sobrenaturais”), devem-se colocar, em primeiríssimo lugar, dois Sacramentos: a confissão frequente e a comunhão. A confissão pronta e sincera, todas as vezes que precisarmos dela, torna-se uma força impressionante, que só avaliamos quando a praticamos. E força maior ainda é a da comunhão frequente, recebida com as devidas disposições.

A valentia de “fugir”

Essa expressão está inspirada em São Josemaria Escrivá que, falando das tentações contra a castidade, diz: «Não tenhas a covardia de ser “valente”; foge!» (Caminho, n. 132).

«Bem sabes – explica – que a luta, se a manténs desde o princípio, já está vencida. Afasta-te imediatamente do perigo, logo que percebas as primeiras chispas da paixão, e mesmo antes» (Amigos de Deus, n. 182).

Esse conselho reflete a longa experiência dos santos, desde os começos do Cristianismo. Todos os que assumiram a sério o amor de Deus, compreenderam o profundo significado das seguintes expressões de Cristo, pedagogicamente hiperbólicas: Se teu olho for para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o fora… E se a tua mão for para ti origem de pecado, corta-a e joga-a fora (Mt 5,29-30).

Essa “coragem de ser covarde”, de cortar logo, de “fugir”, devemos praticá-la com fortaleza, sem nos enganarmos a nós mesmos, sempre que percebamos que entramos numa ocasião de queda; por exemplo, por ficar conversando com uma pessoa que não nos convém; por estamos num ambiente promíscuo e sensual; por fechar-nos num apartamento solitário; por participar de uma festa ou espetáculo impregnado de erotismo, etc. Nestes casos, é preciso cortar, “fugir”, sem nos importarmos com o que “vão dizer”. Isso exige, naturalmente, graça de Deus, fortaleza e coragem.

«Onde não há mortificação, não há virtude»

Ao longo destas páginas temos recordado muitas vezes estas palavras de São Josemaria. Aplicam-se à castidade, como a qualquer outra virtude.

Para cada virtude, as mortificações – as lutas – têm que ser “sob medida”, ou seja, devem ser as adequadas para a defender e desenvolver. Vejamos agora algumas lutas mais fundamentais para o tema que nos ocupa.

A) A mortificação da curiosidade

Os “incentivos” externos para a sensualidade desordenada entram fundamentalmente pelos olhos, e se cozinham na imaginação.

No mundo atual, esses incentivos são constantes. Por toda a parte há uma estimulação artificial e massiva da sensualidade, da fisiologia, da simples genitalidade animal, sem o menor contexto de grandeza e de Amor (pessoas mal vestidas pela rua, outdoors, jornais, revistas, televisão, e especialmente a Internet). É uma oferta contínua de sexo para consumo e prazer egoísta.

Quem estima a dignidade do corpo e do amor, evita mergulhar o olhar nessa nuvem de pornografia. Mortifica a curiosidade, quando aparece a tentação. Guarda os olhos porque quer guardar a alma. Diz “não”, porque está decidido a dizer “sim” a um ideal de amor muito maior que mero prazer carnal. São Gregório Magno (século VII) resumia essa atitude virtuosa dizendo: «Não é lícito olhar para o que não é lícito desejar» (Moralia, 21,2,4).

B) Mortificação da imaginação

Atribui-se a Santa Teresa de Ávila a famosa frase: «A imaginação é a louca da casa».

Com o “combustível” de quedas passadas, de ocasiões mal evitadas, da curiosidade, da concupiscência atiçada por descuidos, é muito fácil que a imaginação, juntamente com a memória, se incendeie com fantasias eróticas, que envolvem a pssoa, que dominam, e chegam a tornar-se – como, aliás, a própria curiosidade – num verdadeiro “transtorno obsessivo-compulsivo”.

Por isso, faz parte da vigilância sadia conquistar o autodomínio da imaginação, evitando deixar-nos arrastar por ela como por uma enxurrada. Também neste ponto o “sim” à virtude, exige saber dizer, com coragem e amor, os “não” sensatos e eficazes.

C) Mortificação da gula

Já falamos dela ao tratar da temperança. O livro Caminho afirma que «A gula é a vanguarda da impureza» (n. 126).

O abade Cassiano, no século V, escrevia no seu manual de espiritualidade, intituladoCollationes: «O primeiro combate que devemos empreender é contra o espírito de gula, contra a concupiscência da excessiva comida e bebida … É preciso frisar que a abstinência corporal não tem outra razão de ser senão conduzir-nos à pureza do coração».

Os excessos na comida, e sobretudo na bebida, insensibilizam a alma, fazem com que a dimensão corporal abafe a espiritual. A idolatria do prazer material do homem, através dos excessos no comer e no beber, puxa para a escravidão do sexo.

Ter o autodomínio suficiente para não cair no capricho de comer e beber a qualquer hora o que nos apetece, e tanto quanto nos apetece, é um ato de liberdade que garante a saúde moral, além de proteger a saúde física.

A devoção a Maria

Finalmente, o grande meio – depois dos Sacramentos – é a devoção filial e confiante à Mãe de Deus e nossa.

Guimarães Rosa põe na boca de Riobaldo, o protagonista de Grande Sertão: Veredas, as seguintes palavras sobre Nossa Senhora: «O perfume do nome da Virgem perdura muito: às vezes dá saldos para uma vida inteira».

Como ajuda invocar o nome de Maria! O que diz Riobaldo é uma verdade, que a experiência espiritual cristã confirma. Quando as tentações contra a castidade se tornam mais fortes e insistentes, invocar filialmente Maria é o melhor caminho para chegar à paz e à vitória. Mãe puríssima, Mãe castíssima, rogai por mim! Quantas vezes esta breve oração tem tido força e sabor de vitória!


Fonte: http://www.padrefaus.org/

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

As virtudes viris, por Santo Alberto Hurtado



LAS VIRTUDES VIRILES

SAN ALBERTO HURTADO (De: “La búsqueda de Dios”)
Fuerza

Realizar lo que parece imposible. Perseverar cuando todo se ve perdido. ‘Saltar’ cuando se trata de la justicia.

Decir lo que hay que decir, sabiendo que eso nos va a alejar amigos o bienhechores. Saber estar solo. Guardar inflexiblemente su línea. No sacrificar nunca la doctrina.

Hay que tener enorme obstinación, y no menos adaptabilidad. Hacer una obra grande con medios pequeños, con piedras desiguales, con piedras vivas, redondas, duras, blandas; con los hombres que están cerca de mí; con los genios, que cada día hacen problemas a propósito de todo; los hombres de rutina, que quisieran que todo fuera sobre rieles; los activos, que cada día quieren una obra más; los cansados, que encuentran que se hace demasiado; los salvajes, a quienes no interesa el trabajo en equipo.

Estamos en plena guerra. No se trata de perder el tiempo. Hay que ir más a prisa que los otros. Hay que vencer.

La Cruz de Cristo en nuestra piel
De la Cruz hemos hecho un motivo de decoración, y no es inútil. Sólo mirarla nos ayuda a pensar en Cristo. Pero no basta colocarla en el muro, hay que anclarla en la piel. Cristo no quiere quedarnos exterior, quiere transformarnos en Él, el hombre de dolores (Is 53,3). La semejanza a Cristo no se adquiere sin inmensos sufrimientos: todo ha de ser renovado en nosotros por el dolor, hasta que no podamos más bajo el dolor (recuerde Santa Teresita [de Lisieux]: incomprensiones; las dudas de fe; su tisis; su afonía, en que realmente ya no podía más y decía: No me arrepiento de haberme fiado al Amor).

Un día sin dolor debería parecer un día vacío, un día triste. Cuando hay menos dolor podemos preguntarnos qué pasa, pero no hay que maravillarse, porque tal vez mañana será un poco más pesado.

Si nosotros no lo rehusamos, Dios se arregla para hacernos soportar cada día más, un poco más de incomprensión, un poco más de dificultades, un poco más de soledad, un poco más de dolor.

En la vida no hay dificultades. Sólo hay circunstancias. Dios lo conduce todo, y todo lo conduce bien. No hay más que abandonarse, y servir a cada instante en la medida de lo posible.

¿Conflictos? Son inevitables. Son necesarios. Ya se resolverán. Por nada perder la paz (lo de Santa Teresa).

Los grandes dolores

Un gran dolor, cuando se trabaja en común, es el abandono progresivo de muchos, que abandonan el equipo y abandonan el plan de Dios.

Un gran dolor es darse cuenta de la lentitud con que penetra el Mensaje, del rechazo que le oponen los hombres, de ver cómo prefieren las tinieblas a la luz (cf. Jn 3,19).

Un gran dolor, el mayor tal vez, es darse cuenta que la Iglesia tiene en sí todo cuanto puede establecer el mundo en la paz, y encontrar dormidos a la mayor parte de los mejores cristianos, y tantos sacerdotes que no han comprendido el Mensaje.

Un gran dolor es encontrar la oposición de los grupos paralelos o llamados a completarse, con quienes habría que marchar, en perfecta armonía, en la batalla.

Un inmenso dolor es encontrar tanta verdad, tanta generosidad, tanta habilidad, en aquellos que pretenden liberar al hombre, pero que, ignorando a Cristo, no hacen sino encadenarlo.

Un gran dolor es sentirse impotente ante un gran dolor.

Un gran dolor es el amor que fracasa y que no encuentra eco alguno en aquellos a quienes se dirige.

Un gran dolor, en otros momentos, es la soledad. Se puede estar rodeado y sentirse solo. Lleva uno en su interior, sus planes, sus angustias, sus certezas. Los que lo rodean, sin maldad alguna, ni siquiera se interesan por lo que para él es vital.

Y hay un dolor, ese sí que es grande, cuando Dios mismo parece haberse marchado (¡Santa Teresita!).

A veces, al hombre apostólico todo le parece perdido. No hay más que fracasos en perspectiva. Por todos lados, muros. No se ve una salida.

Los colaboradores flaquean; la salud se debilita. Se encuentra privado de su fuerza, de su confianza, de su optimismo, de su testimonio interior. El déficit crece. No entran recursos. Pero, sobre todo, tú mismo no tienes ánimo, te sientes cansado, como sin resorte…

Después de todo, ¿no te equivocaste al tomar este camino? ¿Por qué haber pretendido abarcar tanto, y cosas tan difíciles? ¿¿No quiere todo esto decir que has de echar marcha atrás??

Y aun quizás tratas de echar marcha atrás, pero estás en el tren que echaste a caminar y éste avanza. Aunque quieras frenar, sigue corriendo. Sería necesario que saltaras del carro, que desaparecieras, que abandonaras a los otros. Pero ¡no tienes el derecho de abandonarlos en el combate, después de haberlos lanzado en él! Ellos tienen conciencia clara que te necesitan. Rehusar el esfuerzo ¿no sería traicionar? Todo está perdido. “¡No, todo va bien!”, dice una voz interior.

“Demagogo”, será la palabra que oirás con frecuencia. El que se ocupa de los oprimidos es un demagogo; el que lucha por la justicia, el que afirma el derecho de quienes son incapaces de hacerse respetar es un demagogo. En este sentido, felizmente, el Evangelio todo es demagogia.

Otros, consejeros prudentes, te dirán: ¡¡Anda más despacio, abarca menos!! Pero es el objeto el que impone la rapidez de la marcha. Para quien contempla desde afuera, como espectador indiferente, nada es más fácil que tomar una actitud tranquila. Pero para el que está en la batalla, es distinto; él ve fuerzas ligadas, circunstancias que hay que aprovechar y eso le impone un ritmo.

Alegrarse en los fracasos

Esto parece paradoja o locura. Necesita explicación. Hay falsos místicos, extravagantes, para quienes esta fórmula es peligrosa. Son capaces de una alegría enfermiza en el fracaso, bajo pretexto de abnegación, de unión dolorosa a Cristo, con gran detrimento de la objetividad de su acción y de la obligación que todos tenemos de usar de la prudencia.

El fracaso no debe jamás aparecernos como un fin, y la sucesión indefinida de fracasos como una solución de la vida cristiana. El cristiano debe, más que nadie, conducirse por la razón, y el uso sano de la razón conduce normalmente al éxito. Alegrarse a priori de sus fracasos, sin reflexionar el deber que tenemos de cumplir nuestra misión, de escoger objetivos alcanzables, de adaptar los medios al fin, eso es juego de chiquillos o debilidad de espíritu (cf. Thellier, Luchar contra el mal, en Dans l’épreuve).

Quien se descuida en su acción, consolándose con su unión a Cristo doloroso, necesita detenerse y cambiar de rumbo. A veces se encuentra gente orgullosa que se encapricha en este camino; a veces por orgullo, a veces por un complejo de inferioridad buscará una compensación a su incapacidad en el fracaso. No, no es a éstos a los que decimos que tienen que alegrarse en sus fracasos.

Pero sí a tantos apóstoles que han tomado por Dios, con entusiasmo, el trabajo apostólico, y que llega un momento en que se encuentran ante dificultades insuperables que les hacen pensar en la inutilidad de sus esfuerzos, y están a punto de descorazonarse. No, ¡que aprendan a sacar provecho de sus fracasos!

El fracaso, para el hombre de acción, es su gran educador. La mayor parte de nuestros fracasos vienen por nuestra propia culpa. El objetivo estaba mal definido o mal escogido, o bien usaba medios ineptos… ¡¡o en condiciones en que por falta de realismo no supo prever el fracaso!!

La mayor parte de los hombres, sin embargo, somos inclinados a excusar nuestros fracasos. Estos han ocurrido por casualidad, o por la falta de los otros que se han opuesto, o de circunstancias imprevisibles, de colaboradores flojos o incomprensivos… Pero el testarudo en ningún caso piensa que tal vez sus enemigos tenían razón; que los acontecimientos imprevistos habrían podido ser previstos, que los colaboradores debieron ser mejor escogidos, o mejor formados, o más entrenados en la acción.

La mejor táctica en la acción es tomar para sí toda la responsabilidad del fracaso. Él podrá, reflexionando, descubrir las verdaderas razones. Un hombre prudente no se embarca en una acción sino cuando hay motivos serios; cuando está en la línea de su vocación providencial; bajo el control de la dirección [espiritual] y ayudado por las luces íntimas de la plegaria. Si se aventura a veces, él lo sabe, pero tiene bastantes razones para tentar la aventura, y el fracaso medio previsto no lo sorprenderá ni lo espantará.

Durante años y años el apóstol que comienza no será prudente sino a medias. Debe hacer sus clases en plena vida. Cada fracaso le será una lección amada. Al examinar fríamente la acción emprendida, al criticarla sin vanidad, se dará cuenta de su falta de preparación, de sus prisas desarregladas, de sus motivos pasionales. Antes de obrar habría debido saber más exactamente dónde quería ir, y por qué camino, qué obstáculos iba a encontrar. Pero partió hacia delante con la cabeza abajo, o con los ojos en el Cielo. Nada tiene pues de extraño que se golpeara contra un muro, o se cayera a un barranco.

El humilde, en cambio, saca partido de sus fracasos. El alma de buena voluntad, humilde y objetiva, se hace fuerte por el juego de esta crítica honrada de la acción. El orgulloso se empeñará a comenzar por el mismo camino, pero el humilde rectificará sus encuestas, sus fines, sus métodos: aprenderá a construir. Después de todo, con frecuencia en los fracasos no queda nada del fracaso, y el éxito permanece. Cada fracaso es un vacío: una piedra puede tapar el hueco. Los éxitos son piedras con las cuales se construye un muro, un templo.

¡Cuántos hay que no quieren construir sino catedrales! Dios quiera que los primeros fracasos les hagan comprender que en un pueblecito, basta una capilla, y que es inútil forzar su talento. Cada uno no debe emprender sino obras proporcionadas a su capacidad, y obras útiles. Bendito sea el fracaso que nos enseñó nuestro sitio verdadero.

Después de este examen leal tenemos derecho de considerar las circunstancias independientes de nuestra voluntad, o las malas voluntades que se han mezclado a nuestra acción. Este será el momento de volvernos a Cristo para alegrarnos de parecernos a Él.

Los fracasos conducen al apóstol hacia Cristo. Todos ellos son un eco del fracaso grande de la Cruz, cuando fariseos, saduceos y los poderes establecidos triunfaron visiblemente sobre Jesús. ¿No fue Él acaso vestido de blanco y de púrpura, coronado de espinas y crucificado desnudo, con el título ridículo de Rey de los Judíos? Los suyos lo habían traicionado o huido. Era el hundimiento de su obra, y en ese mismo momento Jesús comenzaba su triunfo. Aceptando la muerte, Jesús la dominaba. Al dejarse elevar sobre la Cruz, elevaba la humanidad hasta el Padre, realizaba su vocación y cumplía su oficio de Salvador. En esa línea van también nuestros fracasos…

Los fracasos de que no somos responsables son el eco de la crucifixión de Cristo en nosotros. Nos hacen semejantes, en nuestra alma espiritual y en nuestra sensibilidad, a Cristo. Los otros fracasos, los que hemos merecido por imprevisión, por precipitación, por mediocridad o por orgullo, lejos de abatirnos deben estimularnos. Y como Cristo fue objetivo, fuerte, perseverante, magnánimo, así también nosotros. Esta reflexión, prudencia, fuerza que nos faltaba, nos la enseñarán nuestros fracasos que nos harán así más semejantes a Cristo.

Feliz falta, decía Agustín. Felices fracasos, diremos nosotros, que nos conducen a nuestro Maestro.

En el estercolero de Job

Esta misma lección podemos sacar al ver los fracasos de uno de nuestros hermanos, gran fracasado: Job.

Allí está, sin poder más, sobre su estercolero. Él ha recorrido espiritualmente el mundo y su propia alma. El mundo lo ha traicionado y él se siente impotente, quebrado, reducido a la nada. Él ha medido la villanía de los hombres y su propia debilidad. Y he aquí que ofrece a todos un triste espectáculo. Sus enemigos pasan delante de él y ríen. ¡Cómo duele su triunfo! Ellos habían visto bien. Con razón le habían dicho: ¡Tú no eres más que apariencia, nada más que viento! El camino está libre ante ellos. Ellos pasan delante de él; se cuchichean. Vuelven a pasar, para gozar mejor de su triunfo… Se van. Ya no eres para ellos más que un mal recuerdo, pronto serás sepultado, ni siquiera una sombra. Los amigos llegan a su vez, predicadores de resignación. Dando consejos, jueces infalibles de sus ilusiones. Lo aplastan con sus palabras sentenciosas. Job, tú eres ahora el vencido de la vida. El que ha visto demasiado grande. A quien el fracaso condena. Uno o dos, tal vez comprenden tu dolor. Tienen el corazón amplio y lo consuelan. Dios te los ha dejado fieles, para que no te pudras completamente sobre tu estercolero… Y he aquí que el estercolero resplandece como el oro. Y he aquí que vuestras lepras se desecan. Y he aquí que vuestras fuerzas vuelven. Y estáis de nuevo plenamente en la vida. En pleno combate. Nuevos enemigos se juntan a los de ayer. Nuevos amigos os rodean. La vida vuelve a su curso. Más dura y más bella. En el amor y en la esperanza.

La continuidad, virtud varonil

Una vida fecunda es una vida continua, en la cual todo aparece ligado como en el árbol. Orientaciones aparentemente nuevas, pero que están en la línea de la elección primera. A veces, cortes dolorosos para despojarse de actividades inútiles.

Asegurar la continuidad en su vida es una de las virtudes más difíciles. Es tan tentador ir a derecha o izquierda; detenerse ante cada flor del camino. Hay tantos caminos sombreados, tantas pistas atrayentes, tanta alegría de que gozar, tanta admiración que recoger, tantas miserias individuales que consolar… Todo esto a nuestro rededor llamándonos como una invitación a vivir.

Y no hay más que un camino que podamos recorrer seriamente. Lo seguimos desde hace tanto tiempo; hemos caído tantas veces, nos hemos levantado tan doloridos que estamos cansados… Y además, hay toda esa gente que arrastrar, esos turbulentos que calmar, esos aventureros que volver a traer al grupo… La ruta es estrecha y empinada, y la vida en otros lados sería tan fácil…

Los ‘no’ indispensables
Si queremos guardar una línea de vida, hemos de aprender a decir muchos “no”: No, a dejarse absorber por los pormenores. No, a dejarse dominar por la sensibilidad, por el corazón. No, a perder su tiempo en futilezas o palabras. No, a dispersarse en todos sentidos, a mariposear. No, a quien viene a verte en la hora de tu trabajo profundo. No, a hacer el trabajo que los demás pueden hacer en lugar tuyo. No, a dejarse corromper. No, a trabajar por dinero o por la gloria. No, al deseo de querer responder inmediatamente a toda pregunta que se haga. No, a tratar los problemas a la ligera. No, a traicionar sus amigos. No, a la polémica con los enemigos. No, a la antipatía a los que te molestan.

No, sobre todo, a todo pecado, a todo lo que te aparta del camino comenzado, a todo lo que te disminuye, te mutila.

Contemplar para perseverar

Y para guardar sus ideales, para permanecer fiel al llamamiento divino en medio del trabajo desbordante, de visitas y cartas y confesiones… guardar la actitud contemplativa, como San Ignacio “contemplativo en la acción”, guardar su paz en la posesión de sí y en la luz de Dios. Marchar en forma tal que permanezcamos siempre bajo el influjo divino.

Fonte: http://www.teologoresponde.org/

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O mais célebre louvor mariano da Antiguidade, feito por São Cirilo de Alexandria




S. Cirilo de Alexandria, por ocasião do final do Concílio de Éfeso, no ano 431 (no qual se proclamou a maternidade divina de Maria), deixou-nos o mais célebre louvor mariano da Antiguidade:

Nós Vos saudamos, ó Maria, Mãe de Deus,
venerável tesouro de toda a terra,
lâmpada inextinguível, coroa da virgindade,
ceptro da verdadeira doutrina, templo indestrutível,
morada d’Aquele que nenhum lugar pode conter,
Mãe e Virgem, por meio da qual nos santos Evangelhos
é chamado bendito O que vem em nome do Senhor.

Nós vos saudamos, ó Maria, que trouxestes
no Vosso seio virginal Aquele que é imenso e infinito.

Por Vós, a Santa Trindade é glorificada e adorada.
Por Vós, a Cruz preciosa é adorada no mundo inteiro.
Por Vós, o Céu exulta.

Por Vós, se alegram os anjos e os Arcanjos.
Por Vós, o diabo tentador foi precipitado no inferno.
Por Vós, a criatura do género humano, sujeito à insensatez da idolatria,
chega ao conhecimento da verdade.

Por Vós, o santo baptismo purifica os que crêem.
Por Vós, nos vem o óleo da alegria.
Por Vós, os povos são conduzidos à penitência.

Créditos: Aleteia
Fonte: Senza Pagare

A conversão de São Bernardo de Claraval


Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.




Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.

Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.

Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:
"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis.Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]

Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:
"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]

Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.

O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].

Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.

Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.

Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.

No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.

São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

A conversão de São Bernardo, II, 9.
Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
A conversão de São Bernardo, III, 6.
Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

terça-feira, 2 de junho de 2015

O guardião da castidade é o amor

Porque o guardião da castidade é o amor, é praticamente impossível falar de pureza para uma civilização que virou as costas para Deus.



Não é novidade alguma que a mensagem do Evangelho sobre a sexualidade cause escândalo às pessoas. C. S. Lewis escreve, com razão, que " a castidade é a menos popular das virtudes cristãs" [1], e, ainda no século XIII, Santo Tomás de Aquino – considerando que, "na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são contidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo" – sublinhava que é grande "milagre e claro efeito da inspiração divina que os espíritos humanos tenham concordado com tudo isto" [2].

Algumas épocas, no entanto, são particularmente insensíveis à virtude da castidade. É o caso da nossa geração, que ainda experimenta os frutos amargos da Revolução Sexual. O advento da pílula anticoncepcional – e o consequente divórcio entre o prazer e a geração dos filhos –, as chamadas "uniões livres", bem como a adoção do divórcio em várias legislações mundo afora, fortaleceram a ideia de que o ser humano poderia fazer de sua sexualidade o que bem entendesse, não dando a mínima para as leis inscritas pelo Criador em seu próprio coração.

A destruição ocorrida nas últimas décadas, no entanto, é apenas reflexo de um mal muito maior: o afastamento de Deus. É praticamente impossível falar de pureza para uma civilização que abandonou os valores eternos. A castidade é, por assim dizer, a "cereja do bolo" do cristianismo. Sem amor, ela se torna apenas uma norma a mais dentro um "moralismo" vazio. Santo Agostinho, por exemplo, fazia notar que o que se louva nas virgens "não é o fato de serem virgens, mas o estarem consagradas a Deus por uma santa continência" [3]. Ou seja, a grandeza da castidade está no amor com que é praticada, ou, como resumiu o próprio Agostinho: "A guardiã da virgindade é a caridade" [4].

Tome-se como modelo a vida da Beata Teresa de Calcutá. Mesmo em tempos de descrença como os nossos, são muitas as pessoas a admirar o testemunho dessa santa religiosa, inclusive fora da Igreja. E o que tornou reluzente a sua figura, fazendo com que os próprios chefes das nações a estimassem, e homens de letras, sem nenhum vínculo com a fé cristã, a respeitassem? Como pode ser que uma consagrada a Deus – e, por si só, "sinal de contradição" ( Lc 2, 34) – tenha conquistado tanta simpatia por onde passou? A resposta está na caridade, que dá forma a todas as obras e virtudes [5]. Por seu grande amor a Deus, Madre Teresa encheu de sentido todas as ações que realizava: desde a oração e vivência fiel dos votos religiosos até o extraordinário cuidado que tinha pelos doentes e miseráveis.

Tirando Deus do centro, porém, o que resta? O escritor britânico G. K. Chesterton, que viu o começo do século XX decretar "a morte de Deus", profetizou, ainda em 1926: " A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual" [6]. Dito e feito. Não foi preciso nem meio século para que a barbárie invadisse as universidades, as igrejas e os lares. Pregou-se abertamente a destruição da família; abandonou-se largamente a vida religiosa; instaurou-se, enfim, no lugar onde deveriam reinar a ordem e a concórdia, uma verdadeira "luta de classes".

Também em seu tempo, São Paulo identificava a degradação sexual como consequência do afastamento e do abandono do verdadeiro Deus: "Apesar de conhecerem a Deus", os homens "não o glorificaram como Deus nem lhe deram graças". Como consequência, "Deus os entregou, dominados pelas paixões de seus corações, a tal impureza que eles desonram seus próprios corpos" (Rm 1, 21.24). Quando se despreza o Criador, não impressiona que as criaturas profanem os templos do Espírito Santo, que são os seus corpos (cf. 1 Cor 6, 19), e envenenem a própria fonte que dá origem ao ser humano. "Creatura enim sine Creatore evanescit – De fato, a criatura, sem o Criador, se esvai" [7].

Para que se devolva a saúde moral à nossa civilização, portanto, nada mais eficaz que mostrar ao mundo a beleza do amor de Cristo, que é o que dá brilho à tão esquecida virtude da castidade. Lembremo-nos das muitas mulheres que consagraram a sua virgindade a Deus e que, no fim da vida, foram coroadas com a palma do martírio. "Águeda e Luzia, Inês, Cecília, Anastásia": a sua caridade era tão ardente, que não contentes em oferecer ao Senhor o seu corpo, ofertaram-Lhe também as suas almas. Elas preferiram enfrentar os mais terríveis suplícios a perder a Santíssima Trindade que habitava em seus corações.

Que também nós, auxiliados pela graça, possamos dar ao mundo paganizado do século XXI um testemunho de Deus. Vale a pena gastar-se inteiramente por Ele, entregando mesmo a própria vida. Afinal, "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos" ( Jo 15, 13).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Martins Fontes: São Paulo, 2005. p. 37.
Suma contra os Gentios, I, 6, 2.
Sobre a Virgindade, 11: PL 40, 401.
Ibidem, 51: PL 40, 426.
Cf. Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 8.
The Next Heresy. G. K.'s Weekly: June 19, 1926.
Constituição Pastoral Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965), n. 36.

domingo, 31 de maio de 2015

São Luís Maria de Montfort ensina como rezar o Santo Rosário

São Luís Maria de Montfort ensina como rezar o Santo Rosário


O Santo Rosário, na forma como é rezado presentemente, foi inspirado à Igreja, e dado pela Santíssima Virgem a São Domingos, no ano de 1214, para converter os albigenses e os pecadores, conforme relatou o Beato Alano de la Roche.

São Domingos, inspirado pelo Espírito Santo, instruído pela Santíssima Virgem e por sua própria experiência, pregou o Rosário todo o resto de sua vida.

Desde o estabelecimento do Rosário por São Domingos, até 1460, quando o Beato Alano o restabeleceu por ordem do Céu, ele foi chamado de Saltério de Jesus e da Virgem, porque contém 150 Ave-Marias — o mesmo número dos Salmos de Davi.

AS ORAÇÕES VOCAIS DO ROSÁRIO
1. Credo, ou Símbolo dos Apóstolos, é rezado na Cruz do Rosário.
Contém ele um resumo das verdades cristãs e é uma oração de grande mérito, porque a fé é o fundamento e o princípio de todas as virtudes cristãs e de todas as orações que agradam a Deus. “Creio em Deus” contém os atos das três virtudes teologais, a fé, a esperança e a caridade, e têm uma eficácia maravilhosa para santificar a alma e aterrorizar o demônio.

2. O Pai Nosso, ou Oração Dominical (de Dominus, Senhor), tira sua primeira excelência de seu Autor, Jesus Cristo, o próprio Rei dos Anjos e dos homens.

“Era necessário, diz São Cipriano, que Aquele que nos veio dar a vida da graça como Salvador, nos ensinasse como Mestre a maneira de rezar”.

O Pai-Nosso contém todos os deveres que nós temos em relação a Deus; contém ademais os atos de todas as virtudes e os pedidos para todas as nossas necessidades espirituais e corporais.

Ele é o resumo do Evangelho, como diz Tertuliano. Ele ultrapassa, diz Tomás de Kempis, todos os desejos dos Santos; compreendia todas as doces sentenças dos salmos e dos cânticos; pede tudo o que nos é necessário; louva a Deus de modo excelente; e eleva a alma da terra ao céu, unindo-a estreitamente a Deus.

Devemos recitar a Oração Dominial na certeza de que o Pai Eterno a atenderá, pois é a oração de seu Filho, que Ele sempre atende.

Santo Agostinho assegura que o Pai-Nosso bem rezado apaga os pecados veniais.

Dizendo: “Pai nosso, que estais no Céu”, formulamos atos de fé, de adoração e de humildade. Desejando que seu Nome seja santificado e glorificado, manifestamos zelo por sua glória.
Pedindo-Lhe que venha a nós o seu Reino, fazemos um ato de esperança. Desejando que sua vontade seja feita na terra como no céu, fazemos um ato de perfeita obediência.
Pedindo-Lhe o pão nosso de cada dia, praticamos a pobreza de espírito e o desapego dos bens terrenos.
Pedindo que nos perdoe as nossas ofensas, realizamos um ato de arrependimento; e perdoando aqueles que nos ofendem, exercitamos a misericórdia na sua mais alta perfeição.
Pedindo seu socorro para não cairmos em tentação, fazemos atos de humildade, de prudência e de fortaleza. Esperando que Ele nos livre do mal, praticamos a paciência.
Enfim, pedindo todas essas coisas, não somente para nós, mas também para o nosso próximo e para todos os membros da Igreja, cumprimos o dever de verdadeiros filhos de Deus, pois O imitamos na sua caridade, que abarca todos os homens, e cumprimos o mandamento do amor ao próximo.

c) A Ave Maria. A Ave Maria, também conhecida como “Saudação Angélica”, é tão sublime e elevada, que o Beato Alano de la Roche julgou que nenhuma criatura pode compreendê-la e que somente Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria, pode explicá-la.

Ela tira principalmente sua excelência da Santíssima Virgem à qual foi dirigida; da finalidade da Encarnação do Verbo para a qual foi trazida do céu; e do Arcanjo São Gabriel, que a pronunciou pela primeira vez. A Saudação Angélica resume toda a teologia cristã sobre Maria Santíssima.

A Santíssima Trindade revelou a primeira parte da Ave Maria; Santa Isabel, iluminada pelo Espírito Santo, acrescentou a segunda; e a Igreja, no I Concílio de Éfeso (ano 430), pôs a conclusão, após ter definido que Nossa Senhora é verdadeiramente Mãe de Deus. Esse Concílio ordenou que Ela fosse invocada com as seguintes palavras: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Deus Pai é glorificado quando honramos a mais perfeita de suas criaturas. Deus Filho é glorificado porque louvamos sua puríssima Mãe. O Espírito Santo é glorificado porque admiramos as graças com as quais Ele cumulou sua Esposa.

Assim como a Virgem, em seu belo cântico Magnificat, remeteu a Deus os louvores e as bençãos que Lhe dirigiu Santa Isabel, assim também Ela remete prontamente a Deus os elogios e as bençãos que Lhe damos pela Saudação Angélica.

No momento em que Santa Isabel ouviu a saudação que lhe deu a Mãe de Deus, ela foi comulada pelo Espírito Santo, e a criança que levava no seio estremeceu de alegria.

Maria é a nossa Mãe e nossa amiga. Ela é a Imperatriz do universo, e nos ama mais do que todas as mães e rainhas juntas amaram um homem mortal. Pois, diz Santo Agostinho, a caridade da Virgem Maria excede todo o amor natural de todos os homens e de todos os Anjos.

Tenhamos sempre a Ave Maria no coração e nos lábios para honrar a Santíssima Trindade, para honrar a Jesus Cristo, nosso Salvador, e sua santa Mãe.

Ademais, no fim de cada dezena acrescentemos:
“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém”.

A ORAÇÃO MENTAL (meditação) — OS QUINZE MISTÉRIOS DO ROSÁRIO
Mistério é uma coisa sagrada e difícil de compreender. As obras de Jesus Cristo são todas sagradas e divinas, porque Ele é Deus e Homem ao mesmo tempo. As da Santíssima Virgem são santíssimas, porque Ela é a mais perfeita de todas as puras criaturas.
Chamam-se mistérios as obras de Jesus Cristo e de sua santa Mãe, porque são repletas de maravilhas, perfeições e instruções profundas e sublimes, que o Espírito Santo revela aos humildes e às almas simples que Os honram.

São Domingos dividiu a vida de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem em quinze mistérios que nos representam suas virtudes e suas principais ações, como quinze quadros, cujas cenas devem nos servir de regra e de exemplo para conduzirmos nossa vida.

Nossa Senhora ensinou a São Domingos esse excelente método de oração e lhe ordenou que o pregasse, a fim de reacender a piedade dos cristãos e de fazer reviver em seus corações o amor de Jesus Cristo.

O Rosário sem a meditação dos mistérios sagrados de nossa salvação não seria senão um corpo sem alma, uma excelente matéria sem a forma que é a meditação.

A primeira parte do Rosário contém cinco mistérios, o primeiro dos quais é a anunciação do Arcanjo São Gabriel à Santíssima Virgem; o segundo, a visitação da Virgem a Santa Isabel; o terceiro, o nascimento de Jesus Cristo; o quarto, a apresentação do Menino Jesus no Templo e a purificação da Virgem; o quinto, o encontro de Jesus no
Templo, entre os doutores. Chamam-se esses mistérios gozosos por causa da alegria que deram a todo o universo.

A segunda parte do Rosário se compõe também de cinco mistérios, que se chamam dolorosos, porque nos representam Jesus Cristo acabrunhado de tristeza, coberto de chagas, sobrecarregado de opróbrios, de dores e de tormentos.
O primeiro desses mistérios é a oração de Jesus e sua agonia no Horto das Oliveiras; o segundo, sua flagelação; o terceiro, sua coroação de espinhos; o quarto, o carregamento da Cruz; e o quinto, sua crucifixão e morte sobre o Calvário.

A terceira parte do Rosário contém cinco outros mistérios, que se chamam gloriosos, porque neles contemplamos a Jesus e Maria no triunfo e na glória.
O primeiro é a ressurreição de Jesus Cristo; o segundo, sua ascensão ao céu; o terceiro, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos; o quarto, a assunção da gloriosa Virgem; e o quinto, sua coroação.

Essas são as quinze flores perfumadas do Rosário místico, sobre as quais as almas piedosas pousam como sábias abelhas, para colher o néctar admirável e dele compor o mel de uma sólida devoção.

Nossa vida é uma guerra e uma tentação contínuas, na qual não temos que combater inimigos de carne e de sangue, mas as próprias potências do inferno.

Armai-vos, pois, com a arma de Deus que é o santo Rosário. Esmagareis assim a cabeça do demônio e permanecereis inabaláveis diante de todas as suas tentações.

Santo Agostinho assegura que não há exercício mais frutuoso e mais útil para a salvação do que pensar frequentemente nos sofrimentos de Nosso Senhor.

Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, soube por revelação que a simples lembrança ou meditação da paixão de Jesus Cristo é mais meritória ao cristão do que jejuar a pão e água todas as sextas-feiras de um ano inteiro, ou recitar todos os dias os cento e cinquenta Salmos.

Ah! qual não será, em consequência, o mérito do Rosário que rememora toda a vida e paixão de Nosso Senhor?

COMO SE DEVE REZAR O ROSÁRIO
Não é o prolongamento de uma oração que agrada a Deus e lhe conquista o coração, mas o seu fervor. Uma só Ave-Maria bem rezada tem mais mérito do que cento e cinquenta mal rezadas.

Em primeiro lugar, é preciso que a pessoa que reza o Rosário esteja em estado de graça, ou pelo menos na resolução de sair do seu pecado, porque a Teologia nos ensina que as boas obras e as orações feitas em pecado mortal são obras mortas, que não agradam a Deus nem podem merecer a vida eterna.

Deus ouve antes à voz do coração que à da boca. Rezar a Deus com distrações voluntárias seria uma grande falta de respeito, que tornaria os nossos Rosários infrutíferos.

Para isso, colocai-vos na presença de Deus, pensando que Ele e sua santa Mãe têm os olhos postos sobre vós.

Pensai que vosso Anjo da Guarda está à vossa direita, colhendo as Ave-Marias que rezais, quando elas são bem rezadas, como se fossem rosas, para com elas tecer uma coroa para Jesus e Maria; e que, pelo contrário, o demônio está à vossa esquerda e ronda em torno de vós para devorar vossas Ave-Marias e as anotar no seu livro da morte, se elas são rezadas sem atenção, devoção e modéstia.

Sobretudo, não deixeis de fazer os oferecimentos das dezenas em honra dos mistérios, e de vos representar na imaginação a Nosso Senhor e à sua Santíssima Mãe no mistério que estais honrando.

Se for preciso combater, durante o Rosário, contra as distrações, combatei valentemente de armas na mão, ou seja, prosseguindo o Rosário, ainda que sem nenhum gosto nem consolação sensível.

É um combate terrível, mas é salutar à alma fiel.

“Quem é fiel nas pequenas coisas também o será nas grandes” (Lc 16,10)

Coragem pois, bom e fiel servidor de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, que tomastes a resolução de rezar o Rosário todos os dias! Que a multidão das moscas (chamo assim as distrações que vos fazem guerra enquanto rezais) não vos faça deixar covardemente a companhia de Jesus e de Maria, na qual estais quando dizeis vosso Rosário. A partir daqui indicarei os meios para diminuir as distrações.

Invocai inicialmente o Espírito Santo para bem rezar o vosso Rosário, e colocai-vos em seguida um momento na presença de Deus.

Antes de começar cada dezena, parai um pouco para considerar o mistério que estais celebrando, e pedi sempre, pela intercessão de María Santíssima, uma das virtudes que mais ressaltam naquele mistério ou da qual tendes mais necessidade.

Tende, pois, sempre em vista, ao rezar o Rosário, alguma graça a pedir, alguma virtude a a imitar ou algum pecado a evitar.

É importante rezar o Rosário com atenção e devoção.

Deve-se rezar o Rosário com modéstia, tanto quanto possível de joelhos e com as mãos postas, tendo o Rosário nas mãos.

Pode-se rezá-lo na cama, se está doente; se em viagem, pode-se rezá-lo caminhando.

Pode-se até mesmo rezar o Rosário trabalhando, quando não se pode deixar o trabalho por causa dos deveres profissionais; pois o trabalho manual nem sempre é contrário à oração vocal.

Se não tendes tempo para rezar o terço do Rosário de uma só vez, rezai uma dezena aqui, uma dezena acolá, de tal forma que, apesar das vossas ocupações e negócios, tenhais o Rosário inteiro rezado antes de vos deitardes à noite.

De todas as maneiras de rezar o Rosário, a mais gloriosa a Deus, mais salutar á alma e mais terrível ao demônio, é salmodiá-lo ou rezá-lo publicamente em dois coros.

O Rosário cotidiano tem tantos inimigos, que eu considero um dos mais assinalados favores de Deus a graça de perseverar nele até à morte.

Perseverai nele e terei a coroa admirável que está preparada nos ceus para a vossa fidelidade: “Permanece fiel até à morte e te darei a coroa” (AP 2,10).

***

Fonte: MONTFORT, Luís Maria Grignion de. A eficácia maravilhosa do Santo Rosário. São Paulo: Artpress, 2000
Créditos: O Camponês

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