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sexta-feira, 3 de março de 2017

Grandes batalhas forjam grandes homens - BRAVUS



Por Rodrigo Nascimento

Se caio a cada instante, na fé confiante farei com que Ele me levante” (Santa Elizabete da Trindade)

Para aqueles que lutam arduamente para se manterem longe do pecado, cada situação de queda traz à tona a impotência e frustração. É um misto de falta de esperança em nós mesmos e questionamento acerca da ação de Deus.

No que diz respeito a nós, nos enganamos em achar que, com nossas próprias forças, temos capacidade de permanecer puros. E a frustração está precisamente em nos depararmos com nossa limitação. A respeito de Deus, passamos a questionar se Ele, de fato, está realmente intervindo, com Sua graça, para que não mais pequemos ou se está nos deixando à nossa própria sorte.

Esses dois aspectos têm sua fonte na soberba, enraizada em nós como consequência do pecado original. No nosso íntimo, travamos uma batalha entre sermos totalmente dependentes de Deus e bastarmos a nós mesmos. Esse é o ponto central de nossa conversão, principalmente a nós, homens, que tendemos à independência e à autossuficiência.

Todavia, há situações que se nos apresentam que tiram completamente o controle das nossas mãos e nos violentam profundamente, colocando em xeque a nossa percepção de si e de nossa capacidade de intervir e solucionar.

São grandes batalhas. Podem se apresentar como pecados com os quais lutamos ao longo de anos — e frequentemente caímos, apesar do esforço —; enfermidades que implodem o frágil edifício da nossa inconsciência de que somos transitórios; situações adversas que nos “tiram o chão”. Nesses casos, porque Deus permite que isso ocorra?

"E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça, é, em verdade, muito bom” (São Thomas More).

Justamente, temos de contemplar as batalhas como providência de Deus para a nossa conversão e salvação.

Os metais preciosos são forjados no fogo, a altas temperaturas, e são completamente desfigurados e, depois, inseridos num molde e reconstruídos para uma finalidade específica. Esse calor intenso, não altera somente a forma, mas, sobretudo, as propriedades do metal, aumentando sua rigidez e durabilidade.

Tais batalhas podem, na graça, se tornar essa grande forja em que almas santas são remodeladas com uma única finalidade: romper-se em caridade ardente e completa, fundindo-se, para todo o sempre, com Deus. Isso desde que tenhamos nosso coração ancorado no céu; a pátria celeste deve ser sempre o horizonte.

Os tempos de luta permitem que nossa alma se fortaleça, aumentando a nossa esperança em Deus e descobrindo a nossa limitação. O esforço para ser melhor, tendo-se reconhecido os limites humanos e, por outro lado, abandonando-se à graça, é a grande fornalha que forma os guerreiros mais nobres, almas santas e virtuosas.

Todos os atletas se impõem a si muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível. Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros” (I Cor 9,25-27).

A vida de oração é a porta de entrada através da qual nosso esforço encontra a graça. É um antídoto para a soberba e um alento para as quedas. É a arma essencial nessa batalha que perdura ao longo da vida. Batalha esta que nós, homens, devemos assumir com urgência.

Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo a virilidade necessária.

Fonte: Bravus, pela hombridade.

O que é um pecado mortal? - Padre Paulo Ricardo

103. O que é um pecado mortal?



Todo pecado é uma ação contrária ao amor de Deus, mas existem faltas mais graves do que outras, às quais a Igreja costuma dar o nome de "pecado mortal".

Em que consiste esse tipo de pecado e o que ele faz com a pessoa que o comete? E quanto aos pecados mais leves, seriam eles por acaso desprezíveis?

É o que Padre Paulo Ricardo esclarece neste episódio de "A Resposta Católica".

O Catecismo da Igreja Católica define o pecado como "uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Foi definido como uma palavra, um ato ou um desejo contrário à lei eterna" (CIC 1849). Resumidamente, o pecado é uma ação contrária ao amor de Deus. Do mesmo modo que o homem é livre para amar e praticar a caridade, também é livre para desobedecer.

É sabido também que existe uma grande variedade de pecados e, apesar de todos serem uma ofensa a Deus, estão separados em diferentes graus. A Sagrada Escritura traz várias listas e descrições. Por exemplo, São Paulo na Carta aos Gálatas diz que: "as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno, como já vos preveni, os que tais coisas praticam não herdarão o Reino de Deus" (5,1 9-21)

O pecado, conforme sua gravidade, pode ser dividido em pecado mortal ou pecado venial. Por pecado venial entende-se aquele ato que não separa o homem totalmente de Deus, mas que fere essa comunhão. Já o pecado mortal, por sua vez, atenta gravemente contra o amor de Deus, desviando o ser humano de sua finalidade última e da bem-aventurança. Ensina o Catecismo:
"O pecado mortal requer pleno conhecimento e pleno consentimento. Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afetada e o endurecimento do coração não diminuem, antes aumentam, o caráter voluntário do pecado." (CIC 1859)

Isso significa que o pecado mortal só acontece quando o indivíduo comete um delito contra Deus, consciente desses três requisitos citados acima, não somente pela matéria grave. Por exemplo, se uma pessoa - sem formação moral e intelectual adequada e sem condições de adquirí-la - pratica uma ação pecaminosa, ela pode ser isenta de culpa, pois se enquadra no caso da ignorância invencível. Por outro lado, existe também a ignorância afetada, que é quando a pessoa tinha condições de conhecer a verdade, mas preferiu não conhecê-la. Neste caso, o indivíduo peca gravemente.

Na prática, o que um pecado mortal pode fazer com a pessoa que o comete? O mesmo Catecismo ensina que:

"O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de graça. Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus." (CIC 1861)

"O pecado cria uma propensão ao pecado; gera o vício pela repetição dos mesmos atos. Disso resultam inclinações perversas que obscurecem a consciência e corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se, mas não consegue destruir o senso moral até a raiz." (CIC 1865)

Mas o que dizer, então, dos pecados veniais? Eles são desprezíveis? Não, pois um pecado mortal é gerado por uma multidão de pecados veniais que foram cometidos antes. O pecado venial, embora pareça sem importância, é um passo que conduz ao abismo. Um após o outro, leva a pessoa para o buraco, que é o rompimento da amizade com Deus. O Catecismo cita Santo Agostinho para explicar melhor como se dá a ação dos pecados veniais:

"O homem não pode, enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes, se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los. Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então nossa esperança? Antes de tudo, a confissão..." (CIC 1863)

Portanto, para evitar o rompimento da amizade com Deus, ou seja, cometer um pecado grave, é preciso combater os chamados pecados veniais, os quais são passos que se dão em direção ao abismo. Nesse sentido, o sacramento da confissão é o remédio eficaz que pode refrear essa triste caminhada.

Fonte: padrepauloricardo.org

quinta-feira, 2 de março de 2017

Da página BRAVUS: Uma Cruzada Interior com São José – Brava Quaresma 2017


Por Daniel P. Volpatp · 1 DE MARÇO DE 2017 - Texto retirado do site Brav.us
Brava Quaresma 2017 Cruzada Interior Com São José
No ano passado, oferecemos alguns propósitos quaresmais diários, aos quais denominamos Brava Quaresma, e que obtiveram bons frutos, como muitos de nossos leitores testemunharam pelas redes sociais. Para este ano, a Providência coincidiu o início da Quaresma com o primeiro dia de março, o mês josefino. Propomos a nossos leitores, portanto, “Uma Cruzada Interior com São José” durante esse tempo.

A Quaresma é o tempo litúrgico penitencial de 40 dias (excluindo-se os domingos) que nos preparam para a Páscoa de Nosso Senhor. É inspirada nos 40 dias e 40 noites de jejum que Cristo passou no deserto (Mt 4), onde foi tentado pelo demônio, antes de começar seu ministério.

O número 40 possui forte significado nas Sagradas Escrituras. Representa um período de intensa preparação que antecede acontecimentos marcantes na História da Salvação: 
* Foram 40 os dias do dilúvio, preparação a uma nova humanidade, purificada (Gn 7, 4ss); 
* Foram 40 os dias de jejum de Moisés para enfim receber as Tábuas da Lei (Ex 34, 28); 
* Foram 40 os anos de caminhada do povo hebreu, rumo à Terra Prometida. 
* Foram 40 os dias de jejum do Profeta Elias, antes de encontrar a Deus no monte Horeb (I Rs 19,8); 
* Foram 40 os dias de penitência dos ninivitas, que assim obtiveram o perdão de Deus (Jn 3, 4ss).
cruzada interior luta batalha liberdade
A Quaresma sempre é tempo forte e abundante de graças, propício à conversão e à mudança de vida. Se bem vivida, proporciona muitos frutos de santificação e crescimento em virtudes. É o que almejamos com a Brava Quaresma: dar uma pequena contribuição neste processo.

É parte do tornar-se homem deixar o papel de protegido e assumir o ofício de protetor. Esse chamado é para todo homem, seja casado ou celibatário, pai biológico ou espiritual, sacerdote ou leigo. E é por isso que cada homem possui dentro de si um espírito de soldado, que protege os seus próximos com a própria vida, se preciso for.

O que se percebe, porém, é que este espírito combativo está dormente. Para acordá-lo, o homem precisa realizar esta cruzada interior contra si mesmo, vencendo seus medos e fraquezas, adquirindo domínio de si e crescendo em virtudes para, enfim, ser livre e amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. É a verdadeira liberdade, o bem agir conforme a vontade de Deus, o fim último desta cruzada interior.

Que companheiro melhor nesta cruzada do que São José, o homem justo? Nele encontramos a perfeição no trabalho, como excelente carpinteiro; a perfeita autoridade e solicitude como chefe familiar; o perfeito amor de pai a Cristo; e o perfeito amor de esposo à Virgem Maria.

Convidamos você, caro leitor, a juntar-se a nós nesta cruzada interior de 40 dias, no exército de São José, acompanhando as seguintes atividades:
  1. Os propósitos que publicaremos diariamente em nossas redes sociais, abarcando os três pilares da Quaresma católica, o jejum, a oração e a esmola;
  2. Uma oração diária e jaculatórias à São José;
  3. A participação no grupo de Facebook (aqui) que criamos, para estabelecer uma fraternidade entre aqueles que desejam viver a Brava Quaresma.
O primeiro propósito você já pode conferir:
Brava Quaresma 2017 Dia 01
Referências

Plinio Maria Solimeo. “Ide a José!”: Vida, privilégios e virtudes de São José, segundo os Evangelhos, a tradição e outros documentos. Art Press, 2007.
Thurston, H. “Lent”. In The Catholic Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/09152a.htm.

A ira de um santo - Pier Giorgio Frassati, um jovem IRADO


Enganam-se os que pensam que os santos têm “sangue de barata”.

Pier Giorgio sabia ser um cara cheio de grandes gentilezas. Quando ia às montanhas, trazia flores para enfeitar os oratórios de Nossa Senhora. Se viajava, mandava cartões postais para a família. Nas escaladas, ao perceber que algum amigo estava cansado, fingia que tinha de parar para amarrar os sapatos e obrigava todo mundo a parar. Nunca se esquecia de escrever cartas para os amigos nos seus aniversários.

Mas AI se mexessem com a Verdade do Evangelho... Ah, daí o “bicho pegava”.

Em um carnaval, o grupo de Pier Giorgio fez um cartaz chamando todos os católicos da universidade para rezarem em reparação dos pecados cometidos naqueles dias. Frassati pôs o cartaz no mural da universidade, no meio de um monte de convites cheios de cores berrantes que convidavam os jovens para as baladas. A galera da universidade ficou furiosa e quiseram rasgar o convite. Pier Giorgio pôs-se, então, com muita tranquilidade, entre a multidão de mais ou menos cem rapazes e o cartaz.

Começaram a insultá-lo e ameaça-lo, mas nada o fez recuar. Foram para cima do nosso amigo bem-aventurado, que deu vários murros e pontapés. Mas evidentemente o número venceu Frassati: destroçaram o cartaz católico. Pier Giorgio levantou-se, recolheu com muita calma os pedaços do cartaz e se retirou. O amigo que estava com ele testemunha: “Frassati não disse uma única palavra enquanto voltávamos para casa, mas aquele silêncio valia por um sermão”.

Nosso Pier Giorgio Frassati irado também cacetou sozinho um grupo de fascistas quando, em um almoço, invadiram sua casa. Botou-os pra correr! Lutou com um policial porque ele queria lhe retirar uma bandeira católica que segurava durante uma manifestação, brigou muitas vezes com católicos que tinham postura política contrária à Caridade.

Ser cristão não é ter aquela ideia maconheira de “paz e amor” nem o conceito de religião light de madame “comer, rezar e amar”. Com a mesma ira com que Nosso Senhor Jesus Cristo pegou no chicote, os santos souberam defender a Verdade.

Que Pier Giorgio Frassati nos ajude a combater pela Fé e que tenhamos uma boa dose dessa santa ira, dessa ira buona.

*texto de 20 de agosto de 2015.
Fonte: Página Pier Giorgio Frassati

quarta-feira, 1 de março de 2017

[Sermão] Quarta-Feira de Cinzas: A morte e quais e como devem ser nossas práticas quaresmais - Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Estamos hoje na quarta-feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma. Dia de jejum e abstinência. Abstinência é não comer carne, obrigando todos os fiéis católicos, a partir dos 14 anos. Jejum é fazer uma refeição normal, em geral o almoço, e duas colações, uma de manhã e uma de tarde, que, juntas, não cheguem a uma refeição normal. E não se deve comer nada entre as refeições. Todos os católicos entre dezoito e sessenta anos estão obrigados ao jejum, a não ser por motivo de saúde, ou por trabalho mais duro, ou uma mulher pela gravidez, por exemplo.

Recomendo muito, prezados católicos, que escolham um bom livro para acompanhá-los durante a quaresma. O livro de Santo Afonso sobre a Paixão, por exemplo, ou as meditações diárias do mesmo santo, a Prática do Amor a Jesus Cristo ainda de Santo Afonso; Filotéia de São Francisco de Sales, ou o Combate Espiritual, do Padre Scupoli, os Exercícios de Perfeição Cristã do Padre Rodrigues, ou uma boa Vida de Cristo. Algo que possa elevar a alma nesse tempo santo.

“Memento, homo, quia pulvis est et in pulverem reverteris.” Lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás.”

É com essa frase que a Igreja quer que nossa fronte seja marcada pelas cinzas. Lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás. A Igreja, nesse início de Quaresma, coloca diante do homem a sua mortalidade. Ela nos lembra que a morte vem para todos, indistintamente. Essa é a grande certeza de todos os homens: a morte, morreremos um dia. Todavia, a morte certa tem também uma incerteza: não sabemos nem o dia nem a hora. Portanto, caros, católicos, sabemos que iremos morrer, mas não sabemos quando. A grande ilusão é crer que temos ainda muito tempo para nos arrepender, para chorar pelos nossos pecados, para avançar na virtude, para nos converter. Como nos lembra o Livro de Esther em uma das Antífonas de hoje: emendemo-nos para melhor, para que não suceda que, surpreendidos pela morte, procuremos espaço para fazer penitência e não o encontremos. É aqui e agora que devemos nos converter.

O tempo da Quaresma é um tempo de grandes graças, se procuramos vivê-lo bem, isto é, se procuramos realmente nos converter a Deus, para amá-lo e servi-lo como nosso infinito bem que é. Não podemos desperdiçar esse tempo de graça. É preciso aproveitá-lo, para que não suceda que, surpreendidos pela morte, procuremos espaço para nos converter e não o encontremos.

Na Quaresma, prezados católicos, nossas práticas devem ter dois aspectos. Um deles se refere, digamos, ao passado: nossas práticas quaresmais devem ter como finalidade a expiação, a penitência, pelos nossos pecados cometidos. O outro aspecto diz respeito ao presente: nossas práticas quaresmais devem ter como finalidade nosso avanço na virtude, no amor a Deus, no abandono de nossos pecados presentes. A Quaresma é tempo de grandes graças para obter a misericórdia divina, para abandonar o velho homem, para abandonar o nosso pecado habitual, dominante. Assim, prezados católicos, nossas práticas não devem ser simplesmente práticas mais ou menos austeras, mas devem ter por finalidade o pedir perdão a Deus e o avanço no caminho do amor a Deus. Como nos diz o Profeta Joel: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas e com gemidos. É preciso nos converter a Deus de todo o coração, orientando-nos para Ele, inteiramente, colocando-o como o fim de nossas vidas. É preciso nos converter a Deus com jejuns, reparando pelos nossos pecados. É preciso nos converter a Deus com lágrimas e gemidos, isto é, com verdadeiro arrependimento por tê-los cometidos e com o firme propósito de não mais pecar. O tempo da quaresma é um tempo de graça. É tempo de uma boa confissão, sincera, humilde, integral.

Nossas práticas quaresmais, caros católicos, devem ser feitas com humildade. Devemos ter plena consciência de que não são nada diante de Deus e diante do que Lhe é devido, por mais que essas práticas pareçam muito perfeitas. Se nas nossas devoções, se na nossa prática religiosa entra o orgulho, tudo será prejudicado. Devemos, então, ficar atentos, e fazê-las com humildade, como algo que é simplesmente devido a Deus e que é nada diante do que deveríamos fazer por Ele. A recompensa das nossas práticas quaresmais não pode ser a nossa satisfação própria ou o elogio alheio, mas deve ser a vida eterna. Nossas práticas terminarão sendo mais ou menos conhecidas pelas pessoas que nos são próximas, mas devemos sempre endireitar nossa intenção: faço isso para Deus e não para que as outras pessoas me estimem.

A quaresma é um tempo de graça. A primeira graça está nas palavras: Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás). Devemos guardar essas palavras durante toda a nossa vida. Somos pó, e pó é tudo que há sobre a terra. Vamos morrer, caros católicos. Não sabemos quando. É preciso estar pronto. Deus nos dá esse tempo favorável, o tempo da quaresma, tempo em que é extremamente largo em sua misericórdia. Na quaresma, Deus bate de modo particular na porta de nossa alma. A nós, cabe abrir a porta. Cabe-nos abrir a porta pela conversão a Ele, de todo o coração. Cabe-nos abrir essa porta pelas súplicas de nossas orações redobradas durante a quaresma. Cabe-nos abrir essa porta pela prática da virtude. Cabe-nos abrir essa porta pela mortificação. Tendo escolhido nossas práticas quaresmais, mantenhamo-nos firmes. Se falharmos uma vez ou outra, peçamos o auxílio da graça e retomemos nossas resoluções, sem abandoná-las. Abramos a porta ao divino Salvador. Ele não vai bater eternamente.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Fonte: Missa Tridentina em Brasília

Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma - Padre Paulo Ricardo


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 6, 1-6.16-18)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus.

Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa.

Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa.

Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa".

O tempo da Quaresma, a que hoje damos início, é um tempo de aprofundamento espiritual especialmente dedicado à nossa santificação pessoal, por meio sobretudo do jejum e de outros exercícios penitenciais, como, por exemplo, a esmola e as pequenas mortificações e renúncias, obras a que a santa mãe Igreja, não só neste período do ano litúrgico, mas a todo instante exorta seus filhos e súditos. A finalidade da Quaresma é, portanto, uma só — santificar-nos —, se bem possa ser articulada em seus dois momentos constitutivos: afastar-nos do pecado, por um lado, e aproximar-nos de Deus, por outro. Trata-se, nesse sentido, de um único movimento de conversão em cujo termo inicial somos impulsionados, de modo mais direto, pela virtude sobrenatural da penitência, pela qual, "num esforço pessoal de retificação de vida e de a viver com mais fidelidade, reparando, por qualquer privação voluntária, as negligências de outros tempos" [1], arrependemo-nos sinceramente das faltas por nós cometidas enquanto ofensas a Deus [2].

Um segundo aspecto da espiritualidade quaresmal, relacionado mais estreitamente com nossa aproximação de Deus e, de maneira geral, um pouco negligenciado pelo comum dos fiéis, é a necessidade de dedicar-se mais à oração. Por isso, um propósito que todos, bem aconselhados por nosso diretor espiritual, podemos fazer é o de comungar com frequência; se possível, todos os dias, pois é este o meio mais eficaz, observadas as prescrições da Igreja, de entrarmos em contato com Aquele que deseja, com sede de amor, unir-se a nós pela virtude teologal da fé. Com efeito, a nossa justificação, em função da qual temos de viver este tempo de Quaresma, consiste não só na infusão da graça santificante e na remissão da culpa, mas também num movimento livre de nossa vontade em direção a Deus, por atos de fé informada pela caridade, e para longe do pecado, por atos de penitência e arrependimento [3].

Peçamos, pois, à Virgem Santíssima, Mater Dolorosa, que nos acompanhe ao longo destes próximos quarenta dias de preparação para Páscoa e, por sua materna intercessão, alcance-nos de seu Filho a graça de vivermos este tempo, não como os hipócritas e vaidosos de que nos fala o Evangelho de hoje, mas como filhos pródigos e humildes, que, desejando voltar o quanto antes à casa paterna, só pensam e querem o que pode agradar e consolar o coração dAquele que nos vê e ama no segredo de nosso coração pecador.

Referências

D. Gaspar Lefebvre (org.), Missal Romano Quotidiano. Trad. port. dos monges beneditinos de Singeverga. Bruges: Biblica, 1963, p. 136.
Cf. A. Royo Marín, Espiritualidad de los Seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 211, n. 148.
Cf. Santo Tomás de Aquino, Sum. Th. III, q. 86, a. 6, ad 1.

Fonte: padrepauloricardo.org

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Reparação pelos pecados do Carnaval: A Santa Missa é a melhor reparação - Padre Daniel Pinheiro (Sermão)

Em nome do Pai…
Ave Maria…

Caros católicos, lá está Nosso Senhor abandonado no Jardim das Oliveiras, sem ninguém para vigiar com Ele, sem ninguém que o acompanhe na oração. Aqueles que Ele veio salvar, o traem, se entregando, sem hesitação ao pecado. E nós, que dizemos ser discípulos dEle, dormiremos ou acompanharemos Jesus em sua agonia pelos pecados abomináveis cometidos durante o carnaval? Se um só pecado ofende a Deus, o que dizer do carnaval em que tantos e tão torpes pecados se concentram em tão pouco tempo? É bem verdade que em nossa sociedade vivemos praticamente um carnaval constante. Sem dúvida, porém, nesse tempo em que a razão é deixada de lado, em que a lei divina é deixada de lado pelos homens, as ofensas chegam ao extremo.

Pelos pecados impuros, o homem se assemelha aos animais brutos, que buscam uma satisfação sem causa, sem motivo, irracional. Por um momento de satisfação se perde o céu e se merece o inferno, por tão pouca coisa. Se não vale perder a alma pelo mundo inteiro, quanto mais por um pecado torpe, caros católicos. Nossa razão nos mostra e a Revelação nos confirma que esses atos devem estar voltados para a procriação, e para a procriação dentro do matrimônio indissolúvel, entre um homem e uma mulher, para que se eduquem bem os filhos.

Pelos pecados em geral e pelos pecados do carnaval, em particular, se ofende a Deus criador, se ofende a Deus legislador, a Deus que se fez homem para nos salvar. Deus detesta tanto o pecado e ama tanto a santidade, que, para destruí-lo, não recusou morrer na Cruz, sofrendo imensamente. Deus amou tanto o mundo que Ele enviou seu próprio Filho. E Cristo, Filho de Deus, nos amou tanto que morreu na Cruz para nos tirar do pecado… O próprio Deus que entrega sua vida por nós… E nós recusamos essa salvação por nossos crimes, por nossos pecados, por nossos caprichos… E como nós somos rápidos para pecar e ofender a Deus e como somos lentos para nos arrepender e reparar pelos nossos pecados.

Prezados católicos, precisamos reparar pelos nossos pecados e pelos pecados do nosso próximo. Precisamos desagravar o Sagrado Coração de Cristo do peso dos pecados. Como fazer para reparar pelos pecados do carnaval, para desagravar o Coração de Cristo? Reparar nada mais é do que oferecer à pessoa ofendida o que lhe agrada mais do que a ofensa lhe desagradou. Como reparar pelo pecado mortal, incessantemente cometido durante o carnaval? O pecado mortal é uma ofensa infinita a Deus? Como podemos nós, pobres seres humanos e, portanto, finitos, limitados, reparar por tantas ofensas infinitas? Existe uma só solução. Devemos nos unir a Cristo, pois Cristo, sendo homem e Deus, agrada infinitamente a Deus. Assim, caros católicos, em união com Cristo, quer dizer, em estado de graça, e com desejo de agir por amor a Deus, poderemos imitar Santa Maria Madalena de Pazzi, que passava as noites inteiras do carnaval diante do Santíssimo oferecendo a Deus o sangue de Cristo pelos pobres pecadores – espero que possamos fazer isso no ano que vem, com a tradicional devoção das 40 horas de adoração ao Santíssimo durante o carnaval. Unidos a Cristo, poderemos imitar o Bem-aventurado Henrique Suso, que durante o carnaval guardava um jejum rigoroso, a fim de expiar as intemperanças cometidas. Unidos a Cristo, poderemos imitar São Carlos Borromeu, que durante o carnaval, castigava seu corpo com penitências. Unidos a Cristo poderemos imitar São Felipe Neri, que visitava o santuário e fazia exercícios espirituais. Unidos a Cristo, poderemos imitar os santos, procurando santificar ao máximo esse tempo em que se cometem tantas e tantas abominações.

Todavia, caros católicos, a melhor reparação está aqui, diante de nós: a Santa Missa. Aqui é o próprio Cristo que repara pelos pecados, é o próprio Cristo que é oferecido em expiação pelos pecados. Sem a Santa Missa, já teríamos merecido há muito tempo o castigo de um dilúvio ou de uma destruição equivalente à de Sodoma e Gomorra. É a Santa Missa, o sacrifício de Cristo renovado no altar, que impede castigo semelhante.

Essa reparação pela Santa Missa, porém, será plena, de nossa parte, se nos oferecermos juntamente com Cristo durante a Missa. Nos oferecermos não somente com palavras, da boca para a fora, mas nos oferecermos realmente, com tudo o que somos e temos, oferecendo-nos sem reservas, para que Cristo faça conosco segundo a sua vontade, para que possamos reparar pelos pecados, nossos e do nosso próximo. Ofereçamo-nos, então, junto com Cristo durante a Santa Missa, em reparação pelos pecados do carnaval.

E peçamos muitas vezes nesses dias: Meu Jesus, misericórdia.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Fonte: Blog São Pio V.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Paixão de Jesus Cristo e os divertimentos do carnaval.


Consummabuntur omnia, quae scripta sunt per prophetas de filio hominis — “Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas, tocante ao Filho do homem” (Luc. 18, 31).

Sumário. Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. A nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para compadecermos do seu divino Esposo, e o consolarmos com os nossos obséquios, ao passo que os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Não temos por ventura bastantes motivos para isso?

I. Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus — “Ele vai ser entregue aos gentios”. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur — “Ele será mortejado, flagelado e coberto de escarros”. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra Santo Nome de Deus! — Et postquam flagellaverint, occident eum — “Depois de o terem açoitado, o farão morrer”. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-lhe num domingo de Qüinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do Ecce Homo, e com dois algozes ao lado, os quais lhe apertavam a coroa de espinhos e o batiam sem piedade. Ah! Meu pobre Senhor!

II. Refere o Evangelho em seguida, que, aproximando-se Jesus de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ouvindo passar a multidão, perguntou o que era. Sabendo que passava Jesus de Nazaré, apesar de a gente o ralhar, a fim de que se calasse, não cessava de gritar: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim (1). Por isso mereceu que, em recompensa de sua fé, o Senhor lhe restituísse a vista: Fides tua te salvum fecit — “A tua fé te valeu”.

Se quisermos agradar ao Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego, e neste tempo de desenfreada licença, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais que de ordinário, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, lembrando-nos do que diz São Pedro Crisólogo. Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo — “Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo”. Quando nos acharmos em presença de Jesus no tabernáculo, peçamos-lhe luz para detestarmos as ofensas que o magoam tão profundamente. Peçamos-lhe não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: Domine, ut videam — “Senhor, fazei-me ver”.

Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo Espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! Pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam, Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. — Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, a fim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo. “Atendei, Senhor, benigno às minhas preces, e soltando-me das cadeias do pecado, preservai-me de toda a adversidade.”(2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.


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1. Luc. 18, 38.
2. Or. Dom. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 279 - 282.)
Créditos: Blog São Pio V

Da gratidão para com as Dores de Maria Santíssima - Santo Afonso Maria de Ligório


Honora patrem tuum: et gemitus matris tuae ne obliviscaris — “Honra a teu pai e não te esqueças dos gemidos de tua mãe” (Eccles. 7, 29).

Sumário. Posto que a morte de Jesus Cristo fosse suficiente para remir uma infinidade de mundos, quis todavia a Santíssima Virgem, pelo amor que nos tem, cooperar para a nossa salvação, preferindo sofrer toda espécie de dores a ver nossas almas sem redenção e na antiga perdição. É nosso dever respondermos a tamanho amor da Rainha dos Mártires, ao menos pela compaixão de suas dores e pela imitação de seus exemplos.

I. São Boaventura, contemplando a divina Mãe ao pé da Cruz para assistir à morte de seu Filho, volve-se para ela e lhe diz: Senhora, porque quisestes vós também sacrificar-vos sobre o Calvário? Não bastava, por ventura, para nossa redenção um Deus crucificado, que quisésseis ser crucificada também vós sua Mãe? Non sufficiebat Filii passio, nisi crucifigeretur et Mater? — Ah certamente bastava a morte de Jesus para salvar o mundo e ainda infinitos mundos; mas, pelo amor que nos tem nossa boa Mãe quis também concorrer para a nossa salvação, pelos merecimentos de suas dores, que ofereceu por nós no Calvário.

Por isso diz o Bem-aventurado Alberto Magno, que, assim como somos obrigados a Jesus pela Paixão que quis sofrer por nosso amor, assim também somos obrigados a Maria pelo martírio, que na morte do Filho quis espontaneamente padecer pela nossa salvação. — Acrescento espontaneamente, porque, como revelou o Anjo a Santa Brígida, esta nossa tão piedosa e benigna Mãe antes quis sofrer todas as penas do que ver as almas privadas da redenção e deixadas na antiga miséria.

A bem dizer, foi este o único alívio de Maria, no meio de sua grande dor pela paixão do Filho: o ver com a sua morte remido o mundo perdido e reconciliados com Deus os homens seus inimigos. Mas, infelizmente, esse único alívio da Santíssima Virgem foi-lhe amargurado pela previsão que, se a morte de Jesus havia de ser para muitos a causa de ressurreição e de vida, para muitos outros seria por própria culpa causa de maior ruína e de morte eterna: Ecce positus est hic in ruinam et in resurrectionem multorum in Israel (2) — “Eis que este está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel”.

II. Tão grande amor de Maria em unir ao sacrifício da vida do Filho o de seu próprio coração, bem merece a nossa gratidão; e a nossa gratidão consista em meditarmos e nos compadecermos das suas sores. Mas disto exatamente queixou-se ela com Santa Brígida: “Minha filha”, disse-lhe, “quando considero os cristãos que vivem no mundo, para ver se há quem se compadeça de mim e se lembre de minhas dores, acho bem poucos, ao passo que a maior parte deles se esquecem por completo. Por isso quero que tu ao menos delas te lembres e nelas medites muitas vezes, e compadecendo-te de mim, procures, quanto for possível, imitar a minha resignação em padecê-las: Vide dolorem meum, et imitare quantum potes et dole.” — Meu irmão, imaginemos que a divina Mãe nos fala da mesma maneira, particularmente nestes dias do carnaval, em que os pecadores renovam tantas vezes a crucifixão de Jesus e por conseguinte também as dores de Maria.

Ó minha dolorosa Mãe, vós tanto chorastes o vosso filho, morto pela minha salvação; mas que me aproveitarão as vossas lágrimas, se eu me condeno? Pelos merecimentos, pois, das vossas dores, alcançai-me uma verdadeira dor dos meus pecados, uma verdadeira emenda de vida, com uma perpétua e tenra compaixão da Paixão de Jesus e das vossas dores. Se Jesus e vós, sendo tão inocentes, tanto tendes padecido por mim, alcançai-me que eu, réu do inferno, padeça também alguma coisa por vosso amor.

Finalmente, ó minha Mãe, pela aflição que experimentastes, vendo diante de vossos olhos os vosso Filho, entre tantas penas, inclinar a cabeça e expirar sobre a Cruz, vos suplico que me alcanceis uma boa morte. Ah, advogada dos pecadores, não deixeis de assistir à minha alma aflita e combatida, na grande passagem que terá de fazer para a eternidade. E porque é fácil ter eu então perdido a fala e a voz para invocar o vosso nome e o de Jesus, em que ponho todas as minhas esperanças, rogo desde agora a vosso Filho, vosso Esposo e a vós, que me socorrais naquele último momento, e digo: † Jesus, Maria e José, expire a minha alma em paz em vossa companhia (3). (*I 229.)
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1. Se entre a Epifania e a Septuagésima só houve três semanas, os devotos de Maria Santíssima poderão tomar hoje a meditação sobre Maria Santíssima modelo da esperança, pag. 205.
2. Luc. 2, 34.
3. Indulg. de 100 dias, cada vez.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 259 - 262.)
Créditos: São Pio V

Para os dias de Carnaval: O pecador não quer obedecer a Deus - Santo Afonso


A saeculo confregisti iugum meum, rupisti vincula mea, et dixisti: non serviam — “Quebraste desde o princípio o meu jugo, rompeste os meus laços, e disseste: não servirei” (Ier. 2, 20).

Sumário. Grande Deus! Todas as criaturas obedecem a Deus, como a seu supremo Senhor; os céus, a terra, o mar, os elementos obedecem-lhe de pronto ao menor sinal. E o homem, mais amado e privilegiado de Deus do que todas essas criaturas, não quer obedecer-lhe, e cada vez que peca, diz por suas obras com inaudita temeridade a Deus: Senhor, não Vos quero servir — Confregisti iugum meum, dixisti: non serviam. Irmão meu, é isso o que tu também fizeste, se jamais tiveste a desgraça de pecar.

I. Grande Deus! Todas as criaturas obedecem a Deus como ao seu soberano Senhor; os céus, a terra, o mar, os elementos obedecem-Lhe de pronto ao menor sinal. E o homem, mais amado e privilegiado de Deus do que todas essas criaturas, não Lhe quer obedecer, e cada vez que peca, diz, por suas obras, com inaudita temeridade a Deus: Senhor, não Vos quero servir. Confregisti iugum meum, dixisti: non serviam — “Quebraste o meu jugo e disseste: não servirei”.

O Senhor lhe diz: não te vingues, e o homem responde: quero vingar-me; — não te aposses dos bens alheios: quero apossar-me deles; — abstém-te desse prazer desonesto: não quero abster-me. O pecador fala a Deus do mesmo modo que o Faraó, quando Moisés lhe levou da parte de Deus a ordem de restituir o seu povo à liberdade. Aquele temerário respondeu: quem é esse Senhor, para que eu ouça a sua voz? Não conheço o Senhor (1). O pecador diz a mesma coisa: Senhor, não Vos conheço, quero fazer o que me agrada. Numa palavra, ultraja-O face a face, e volta-Lhe as costas. No dizer de Santo Tomás, é isso exatamente o pecado mortal: o voltar às costas a Deus, o Bem incomutável. É disso também de que o Senhor se queixa: Tu religuisti me, dicit Dominus; retrorsum abiisti (2). Foste ingrato, assim fala Deus, porque me abandonaste, ao passo que eu nunca te teria abandonado: retrorsum abiisti, voltaste-me as costas.

Deus declarou que odeia o pecado; portanto não pode deixar de odiar igualmente a quem o comete. E o homem, quando peca, ousa declarar-se inimigo de Deus e resiste-lhe na face: Contra Omnipotentem roboratus est — “ele se fez forte contra o Todo-poderoso”, diz Jó (3). O mesmo santo varão acrescenta que levanta o colo: isto é, o orgulho, e corre para insultar a Deus: arma-se com uma testa dura, isto é, com ignorância, e diz: Quid feci? Que é que fiz? Onde está o grande mal que fiz pecando? Deus é misericordioso; perdoa aos pecadores. Que injúria! Que temeridade! Que insensatez!

II. Irmão meu, se nós também no passado quebramos o jugo suave do Senhor, e recusando-Lhe a obediência tornamo-nos escravos do demônio, peçamos agora, humilhados e contritos, perdão de nossos pecados; esforcemo-nos, com o nosso arrependimento, e com os nossos obséquios, em reparar um pouco as muitas ofensas que, particularmente nestes dias de carnaval, são feitas a nosso Pai celestial.

Eis aqui a vossos pés, meu Deus, o rebelde, o temerário que tantas vezes teve a audácia de Vos injuriar no rosto e de Vos voltar às costas, mas que agora Vos pede misericórdia. Vós dissestes: Clama ad me, et exaudiam te (4) — “Clama a mim e eu te atenderei”. Um inferno ainda é pouco para mim: confesso-o; mas sabeis que tenho mais dor por Vos haver ofendido, ó Bondade infinita, do que se houvesse perdido todos os meus bens e a vida. Ah! Meu Senhor; perdoai-me e não permitais que Vos torne a ofender. Vós por mim esperastes, a fim de que bendiga para sempre a vossa misericórdia, e Vos ame. Sim, bendigo-Vos, amo-Vos e espero pelos merecimentos de Jesus Cristo, nunca mais separar-me do vosso amor. Foi o vosso amor que me livrou do inferno, esse mesmo amor deve livrar-me do pecado no futuro.

Agradeço-Vos, meu Senhor, estas luzes e o desejo que me inspirais de sempre Vos amar. Peço-Vos que tomeis plena posse de mim, de minha alma, de meu corpo, das minhas faculdades, dos meus sentidos, de minha vontade e da minha liberdade: Tuus sum ego, salvum me fac (5) — “Eu sou vosso; salvai-me”. Vós que sois o único bem, o único amável, sêde também o meu único amor. Dai-me fervor em Vos amar. Já Vos ofendi muito; portanto não me posso contentar com amar-Vos simplesmente; quero amar-Vos muito para compensar as injúrias que Vos fiz. De Vós espero esta graça porque sois todo-poderoso; espero-a também, ó Maria, das vossas orações, que são todo-poderosas para com Deus. (*II 68.)
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1. Ex. 5, 2.
2. 3 Reg. 12, 28.
3. Iob. 15, 25.
4. Ier. 33, 3.
5. Ps. 118, 94.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 252 - 254.)
Créditos: Blog São Pio V

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A vocação ao celibato, a masculinidade transcendente

Texto retirado do excelente site http://www.brav.us/

Por Diego Amaya Vasquez, Chile.
Texto original em espanhol, tradução nossa (Brav.us)

Se uma pessoa qualquer escutar a palavra “celibato”, em sua mente virá, imediatamente, a vida sacerdotal ou consagrada, mas, jamais ousaria relacioná-la à vida laica, o que, na vida da Igreja, sempre foi uma realidade presente. Atualmente a palavra celibato é motivo de riso e chacota. Muitos outros erram ao confundir o celibato com a continência (ou abstinência). Por esse motivo, é necessário seguir um processo definido para tratar corretamente esse tema: começaremos definindo, distinguindo, para, então, aplicar este tema na prática. Tentaremos, ao longo deste texto, responder às seguintes questões:

a) O que é o celibato?
b) Para que o celibato?
c) Por que o celibato?
d) A quem o celibato é destinado?

Além disso, buscaremos demonstrar algumas conclusões práticas para o nosso tempo, durante o simples e superficial desenvolvimento deste tema, de acordo com os limites deste artigo.

O que é o celibato?

a) Em primeiro lugar, o celibato, no sentido cristão, não é simplesmente “não estar casado”, e não é um desprezo do matrimônio. Não é um vilipêndio da carnalidade, nem significa reprimir aquilo que no homem é tão veemente e que Deus inseriu na natureza humana como um meio de santificação com exercício no interior do matrimônio. São João Paulo II afirmava “Quando a sexualidade humana não é considerada um grande valor dado pelo Criador, perde-se o significado da renúncia pelo Reino dos Céus”1. Por muitos anos temos presenciado como o mundo se encarrega de “deificar” o corpo e depreciar a alma. Bento XVI nos motiva afirmando que a dignidade e grandeza humana está em ambas as realidades que formam uma só substância: “Se o homem pretender ser só espírito e quiser desprezar a carne como se fosse uma herança meramente animal, espírito e corpo perderiam sua dignidade. Se, ao contrário, repudia o espírito e leva em consideração somente a matéria, o corpo, como uma realidade exclusiva, reduz igualmente sua grandeza”2.

O celibato não é uma negação, senão uma escolha livre, ativa e frutífera. É um grande “SIM”. Por isso, não se deve confundi-lo com a continência, visto que não se trata de um simples “conter”, mas, sim, uma opção livre por um bem maior. A continência, vista objetivamente, pode ser praticada por qualquer pessoa, inclusive por um não crente. Todavia, o celibato, na perspectiva cristã, é um meio de santificação, que só é possível ser assumido com uma ajuda sobrenatural da graça, e que sempre se opta livremente por um bem maior e transcendente: o Reino dos Céus.

Na antiguidade havia homens (eunucos) que se dedicavam completamente ao serviço de seus senhores e a estes, Nosso Senhor Jesus Cristo fazia referência quando dizia “e há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens”3. Nosso Senhor, no entanto, inaugura um novo celibato, repleto de esplendor e liberdade, livre de toda escravidão anterior e em vistas da glória futura, dizendo “também há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus”4, manifestando que se trata de um meio que se escolhe livremente e que tem um fim sobrenatural. Jesus estava totalmente consciente da rigidez desse convite e que essa realidade de vida não é fácil se o sujeito confia em suas próprias forças, e traduzindo ao nosso tempo, nos adverte o Divino Salvador “Quem puder entender, que entenda!”5.

A doutrina da Igreja, no Concílio Vaticano II, canta um verdadeiro louvor ao celibato, denominando-o de “dom precioso da graça divina dado a alguns pelo Pai”6, “sinal e estímulo do amor”7 e “símbolo especial dos benefícios celestiais”. Isto é sinal de que a Igreja sempre tem tido grande estima acerca do dom do celibato, exigindo-o explicitamente aos sacerdotes de rito latino desde o século IV, e no oriente é exigido aos monges e os candidatos ao episcopado. E é essencial deixar claro que o celibato não tem somente um fim prático, como muitos poderiam crer.
Para que o celibato?

b) O celibato permite entregar-se e servir a Deus com um coração indiviso. Este dom celestial permite, àquele que o vivencia como um dom precioso, ser um sinal da vida futura, uma presença escatológica já em nosso tempo. O celibato é viver como estivéssemos já no céu. É trazer o céu ao nosso tempo, vivido em nossa natureza completa, em corpo e alma.

Esse convite de Cristo a uma vida celibatária é um desafio para elevar o amor humano e a descobrir novas maneiras de demostrar e encarnar esse amor escatológico. Não podemos reduzir o amor verdadeiro à relação sexual somente, pois o amor é muito mais que a união corporal. De fato, atualmente, somos testemunhas de como o amor e o ato sexual tem sido absolutamente dissociados um do outro, rebaixando a dignidade deste ato sublime e procriador a um entretenimento banal e superficial. Inclusive, dentro da mesma Igreja, podemos encontrar alguns membros que reduzem o celibato à castidade e à negação das relações sexuais, quando, na verdade, a castidade e o celibato envolvem e são envólucros da pessoa em sua totalidade, em cada um de seus atos.

Hoje em dia a Igreja se encontra “em débito” sobre o tema do celibato laical. No documento Lumen Gentium, do Concílio Vaticano, ele é colocado na mesma categoria da viuvez. No entanto, a cada dia, a Igreja toma mais consciência de que a vida celibatária é uma vocação particular e não imposta por circunstâncias distintas. Não são todos os homens que são chamados à vida matrimonial e à vida consagrada e, não por isso, estes permanecem numa lacuna vocacional. Na atualidade, há muitas pessoas que decidem viver uma vida de celibato no meio do mundo, cooperando com as tarefas da Santa Mãe Igreja e vivendo uma vida de santidade plena inseridos em seus afazeres diários. Sinal dessa realidade é que em alguns novos movimentos da Igreja estão abertos à possibilidade de que leigos optem pela vida celibatária sem deixar de ser leigos. Esses leigos celibatários desejam santificar-se sem outra consagração além do Batismo, que já é, por si, uma grande responsabilidade.

Por que o celibato?

Cristo, ao ser celibatário, nunca renuncia seu ser masculino, a ser um homem verdadeiro e completo em todos os sentidos. 

c) Poderíamos nos perguntar, por que o celibato? A resposta pode ser somente uma: Porque Jesus Cristo, nosso modelo de santidade e único mediador, foi celibatário. Obviamente, nem todos são chamados a seguir a Cristo nesse estilo de vida. Logo, se nem todos são chamados à vida de celibato, é porque é um chamado particular. E se é particular, então recebe graças especiais para ser vivido, as quais se chamam graças de estado. Tudo isso indica que o celibato é uma verdadeira vocação particular. Alguns poderiam dizer que “Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus e, por isso, conseguia viver o celibato”, mas aqueles que fazem essa afirmação esquecem que Ele assumiu a natureza humana em sua totalidade, uma masculinidade íntegra e totalmente ordenada segundo a graça. Por esse motivo que Jesus Cristo revela o homem ao próprio homem8, já que é igual a nós em tudo, menos no pecado. Nesse sentido, a virgindade e o celibato de maneira alguma rebaixam a natureza humana, da qual Cristo é o modelo pleno, mas, em contrapartida, elevam-na a um nível muito mais profundo e transcendente. É muito importante destacar que a vida de celibato não significa a renúncia da masculinidade (ou da feminilidade), pelo contrário, significa torná-la sobrenatural, do mesmo modo que o fez o filho de Deus. Cristo, ao ser celibatário, nunca renuncia seu ser masculino, a ser um homem verdadeiro e completo em todos os sentidos. É necessário reafirmar essa verdade sobre a masculinidade de Cristo contra todas aquelas falsas teologias que se dedicam a diminuir a importância dessa realidade. Cristo não é um ser etéreo e assexuado, mas um Deus que se fez HOMEM9.

A quem o celibato é destinado?

d) Definitivamente o celibato não é somente para os sacerdotes consagrados. Inclusive, nem sequer é exigido para todos os clérigos do rito oriental. E, além disso, existe o testemunho de tantos consagrados que se santificam por meio dos conselhos evangélicos e que não são sacerdotes. Mas, a questão que se aplica é: pode um leigo viver o celibato e receber a graça para isso? A resposta é SIM, mesmo que para aos olhos do mundo seja impossível e o celibato pareça uma doutrina medieval. Um leigo também pode ser chamado a servir a Deus com um coração indiviso; ele também pode ser chamado a ser um sinal escatológico e, mais ainda, todos os leigos são chamados a imitar Jesus Cristo, mas alguns de uma maneira especial, vivendo sua dimensão celibatária.

Desde o início dos tempos da Igreja já existia o celibato leigo, não é uma “novidade” do Concílio Vaticano II. São Paulo já revelava isso na Primeira Carta aos coríntios, quando afirmava: “Portanto, o que se casa com sua noiva, o faz bem. E o que não se casa, faz melhor. A mulher está ligada a seu marido enquanto vive; mas, uma vez que o marido morre, fica livre para casar-se com quem desejar, mas só no Senhor. Será feliz se permanece assim segundo o meu conselho; que também eu creio ter o Espírito de Deus”10.

O celibato leigo era praticado na igreja primitiva, tanto no caso de homens quanto no de mulheres. Os homens eram chamados de “continentes” e “ascetas”, as mulheres que viviam esse conselho evangélico eram conhecidas por “virgens”.

São Paulo diz “Aquele que não é casado se preocupa com as coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado se preocupa com as coisas do mundo, em como agradar sua mulher; está, portanto, dividido. A mulher não casada, o mesmo que a donzela, se preocupa com as coisas do Senhor, de ser santa no corpo e no espírito. Mas a casada se preocupa com as coisas do mundo, em como agradar seu marido”11.

Nesses textos não se pretende pronunciar uma condenação contra o estado conjugal, longe disso. Devemos recordar que no mesmo texto, São Paulo compara o matrimônio ao amor de Cristo pela Igreja e ressalta, desse modo, a indissolubilidade do matrimônio.

Em todos os tempos o celibato tem sido causa de crítica, escândalo e incompreensões. E, diante disso, a Igreja tem sido obrigada a armar-se e a defender excelência desse estado de vida eleito tanto por consagrados como por leigos12. De maneira alguma se deseja aqui obscurecer e tirar o valor do matrimônio, somente pretendemos transmitir o ensinamento bimilenar e plurissecular da Igreja, mãe e mestra, que nos recorda no Catecismo: “Essas duas realidades, o sacramento do matrimônio e a virgindade pelo reino de Deus, provém do próprio Senhor, é Ele quem lhes dá sentido e lhes concede a graça indispensável para que os viva de acordo com a Sua vontade. O apreço da virgindade pelo reino e o sentido cristão do matrimônio são inseparáveis e se apoiam mutuamente”.

O celibatário não é um “solteirão”, nem é alguém incapaz para uma relação matrimonial ou para o sexo. Exatamente o oposto, é alguém que alcançou um nível de maturidade emocional, psicológica e espiritual que o levou a discernir que não é chamado à vida matrimonial e, em alguns casos, tampouco, à vida consagrada. É alguém chamado a viver o amor e a fecundidade de uma maneira sobrenaturalmente diferente do matrimônio, sem negar sua própria sexualidade, elevando seus afetos ao mandato evangélico que exorta a “Ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”.

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Em nosso tempo, devemos ser rebeldes. A melhor maneira de viver essa rebeldia é por meio de uma vida virtuosa. 

Créditos: http://www.brav.us/2016/08/a-vocacao-ao-celibato-a-masculinidade-transcendente/

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Fuga da ociosidade - Santo Afonso Maria de Ligório


É preciso notar aqui que é um engano acreditar que o trabalho é nocivo à saúde do corpo, quando é certo que o exercício corporal ajuda muito a conservar a saúde.

Muitas vezes o que faz apresentar escusas do trabalho, não é tanto o perigo da saúde, mas o peso e fadiga que o acompanham e que desejamos evitar. Ah! Quem lançar os olhos no Crucifixo, não andará esquivando-se dos trabalhos. — Um dia, Sór Francisca do Santo Anjo, Carmelita, se lamentava de ter as mãos todas dilaceradas de tanto trabalhar, e Jesus Crucificado lhe respondeu: Francisca, olha as minhas mãos e depois lamenta-te. 

Além disso, o trabalho é um remédio contra os enfados de solidão, e também contra as numerosas tentações que muitas vezes assaltam os solitários. — Sto. Antão abade achava-se um dia muito atormentado de pensamentos desonestos e ao mesmo tempo muito fatigado da solidão: não sabia o que fazer para se aliviar. Apareceu-lhe então um anjo, que o conduziu ao pequeno jardim que havia ali perto; e, tomando uma enxadinha, começou a lavrar a terra, e, em seguida, se pôs a orar. De novo, principiou a trabalhar e depois tornou a orar. Com isto, ensinou ao santo o modo como havia de conservar a solidão e ao mesmo tempo livrar-se das tentações, passando da oração ao trabalho, e do trabalho a oração. Não se deve trabalhar sempre, mas também não se pode orar sempre, sem se arriscar a perder a cabeça, e se tornar depois absolutamente inútil para todos os exercícios espirituais. — É por isso que Sta. Teresa, depois de sua morte, apareceu à Sór Paula Maria de Jesus e lhe recomendou que nunca abandonasse os exercícios corporais sob pretexto de fazer obras mais santas, assegurando-lhe que tais exercícios aproveitam muito para a salvação eterna. 

De outra parte, os trabalhos manuais, quando se fazem sem paixão e sem inquietação, não impedem de fazer oração. — Sor Margarida da Cruz, arquiduquesa de Áustria e religiosa descalça de Sta. Clara, se dedicava aos ofícios mais trabalhosos do mosteiro, e dizia que, entre outros exercícios, o trabalho não é somente útil às monjas, mas também necessário, visto que não impede o coração de se elevar para Deus.

Narra-se que S. Bernardo, um dia vendo um monge que não deixava de orar enquanto trabalhava, disse-lhe: “Continua, meu irmão, a fazer sempre o que fazes agora, e alegra-te, porque, deste modo, quando morreres, serás livre do purgatório”. O mesmo santo seguia esta prática como refere o escritor de sua vida; pois, não descuidava dos trabalhos exteriores e ao mesmo tempo se recolhia todo em Deus.

Santo Afonso de Ligório no livro: A Verdadeira Esposa de Cristo.
Créditos: Modéstia Masculina São José

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

7 práticas para todo homem de Deus alimentar a sua vida de fé

Em uma ousada tática para trazer os homens de volta à Igreja, o bispo da diocese de Phoenix, nos Estados Unidos, escreveu uma exortação apostólica intitulada Into the Breach ("Na Brecha", lit.). A iniciativa surgiu como uma resposta à desafiante crise que enfrentam a masculinidade e a paternidade em nossos tempos — crise que também já foi objeto de reflexão neste site.
Em um trecho dessa carta, o bispo Thomas Olmsted enumera sete importantes práticas que todo homem de Deus deve cultivar para tomar a sua cruz e seguir o seu Senhor. As cinco primeiras são propostas diariamente; as duas últimas podem ser feitas em um ritmo semanal ou mesmo mensal. O importante é não cruzar os braços, pois "quem não se prepara e não se fortalece para o combate espiritual é incapaz de permanecer 'firme na brecha' por Cristo".
Se os hábitos a seguir ainda não fazem parte da sua vida, comece a pô-los em prática hoje mesmo!

1. Rezar todos os dias

Todo homem católico deve começar o seu dia com oração. Há um ditado que diz: "Até que você se dê conta de que a oração é a coisa mais importante na vida, você nunca terá tempo para rezar". Sem oração, um homem é como um soldado sem comida, sem água e sem munição!
Por isso, reserve algum tempo para falar com Deus como a primeira coisa do seu dia, todas as manhãs. Reze as três orações essenciais da fé católica: o Pai Nosso, a Ave Maria e o Glória.
Reze também em toda refeição. Antes que a comida ou a bebida toque os seus lábios, faça o sinal da cruz, reze a oração do "Abençoai-nos, Senhor" e termine com o sinal da cruz. Faça isso, não importando onde, com quem ou o quanto você esteja comendo. Nunca fique tímido ou com vergonha de rezar durante as refeições. Jamais negue a Cristo a gratidão que Lhe é devida. Rezar como um homem católico antes de cada refeição é uma maneira simples, mas poderosa de manter-se firme na brecha (cf. Ez 22, 30).

2. Fazer um exame de consciência antes de dormir

Reserve alguns minutos para repassar o seu dia, incluindo tanto as graças que você recebeu quanto os pecados que cometeu. Agradeça a Deus pelas bênçãos e peça perdão pelos seus pecados. Depois, faça um ato de contrição.

3. Não deixar de ir à Missa

Ainda que assistir à Missa semanalmente seja um preceito da Igreja, apenas um em cada três homens católicos assistem à Missa todos os domingos. Para um grande número de homens católicos, a sua negligência em assistir à Missa é um pecado grave, um pecado que os coloca em perigo mortal.
A Missa é um refúgio na batalha espiritual, onde os homens católicos encontram o seu Rei, ouvem os Seus comandos e são fortalecidos com o Pão da Vida. Toda Missa é um milagre onde Jesus Cristo está integralmente presente, um milagre que é o ápice não apenas da semana, mas de todas as nossas vidas sobre a terra. Na Missa, um homem agradece a Deus por Suas inúmeras graças e ouve Cristo enviá-lo de volta ao mundo para construir o Reino de Deus. Pais que levam os seus filhos à Missa estão ajudando de uma maneira muito real a assegurar a sua salvação eterna.

4. Ler a Bíblia

Como São Jerônimo mui claramente nos diz: "Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo". Quando lemos a palavra de Deus, Jesus está presente. Homens casados, leiam a Bíblia com suas esposas e com seus filhos. Se os filhos de um homem o vêem lendo as Escrituras, mais eles tendem a permanecer na fé. Meus irmãos em Cristo, isto eu posso assegurar a você: homens que lêem a Bíblia crescem em graça, sabedoria e paz.

5. Guardar o repouso dominical

Desde a criação de Adão e Eva, Deus Pai estabeleceu um ciclo semanal terminando com o repouso sabático. Ele nos deu o "sábado" para assegurar que em um dos sete dias nós Lhe rendêssemos graças, descansássemos e refizéssemos as nossas forças. Nos dez mandamentos, Deus reafirma a importância de guardar o "sábado".
Com o constante bombardeio comercial e barulho dos meios de comunicação hoje em dia, o "sábado" é a trégua de Deus em meio à tempestade. Como homens católicos, vocês devem começar (ou aprofundar) a santificação do "sábado" (que para nós, cristãos, é o dia do Senhor, o Domingo). Se são casados, devem conduzir suas esposas e filhos a fazer o mesmo. Dediquem o dia para o descanso e para uma verdadeira recreação, e evitem todo trabalho desnecessário. Passem o tempo em família, assistam à Missa e aproveitem o presente desse dia.

6. Procurar a Confissão

Bem no início do ministério público de Cristo, Jesus chama todos os homens ao arrependimento. Sem arrependimento dos pecados, não pode haver nenhuma cura ou perdão, e não haverá nada de Céu. Um grande número de homens católicos está em grave risco de morte, devido particularmente aos níveis epidêmicos de consumo de pornografia e do pecado da masturbação.
Meus irmãos, vão se confessar agora mesmo! Nosso Senhor Jesus Cristo é um Rei misericordioso que perdoará aqueles que humildemente confessarem os seus pecados, mas Ele não perdoará aqueles que se negam. Abram as suas almas ao dom da misericórdia do Senhor!

7. Construir fraternidade com outros homens católicos

A amizade católica entre os homens tem um grande impacto em suas vidas de fé. Homens que possuem laços de fraternidade com outros homens católicos rezam mais, vão à Missa e à Confissão mais frequentemente, lêem as Escrituras com mais regularidade e são mais ativos na fé.
O livro dos Provérbios nos diz que "o ferro com o ferro se aguça, e o homem aguça o homem" ( Pr27, 17). Conclamo a cada um de nossos padres e diáconos a reunir os homens em suas paróquias e começar a reconstruir uma fraternidade católica vibrante e transformadora. Conclamo os leigos a formarem pequenos grupos de amizade para apoio mútuo e crescimento na fé. Nenhuma amizade pode ser comparada a um amigo em Cristo.
Fonte: Into the Breach | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Créditos: padrepauloricardo.org
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