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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

São Jerônimo e a coroa triunfal da castidade

O historiador Daniel-Rops conta que, antes de sua conversão definitiva, Jerônimo, “nascido de pais cristãos", “começou a sua vida como um rapaz curioso de tudo, ávido de conhecimento, cujo temperamento oscilava entre um desejo sincero de piedade, e até de ascese, e certas liberdades menos morais" [1]. Tendo recebido a fé cristã desde cedo, Jerônimo ainda não se tinha decidido totalmente por Cristo, sua carne ainda opunha resistência moral à fé que desde a infância o fascinava.

Sua juventude, que culmina com uma fuga decisiva para o deserto, ilustra muito bem o itinerário por que passam muitos cristãos, antes de se converterem. “Sou aquele filho pródigo que malbaratou a sua parte da herança paterna (...) e que ainda não soube menosprezar os afagos de minhas passadas luxúrias e, agora que me empenho em querer superar os meus vícios, ocorre que o diabo procura aprisionar-me em novas redes" [2], confessava o santo, em carta endereçada a Teodósio e outros monges anacoretas. Anos mais tarde, o santo não temeria admitir que fora várias vezes vencido pelo mal: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho" [3].

Essas palavras, certamente difíceis de escrever, revelam como, em qualquer época, onde abundou o pecado sempre é possível que superabunde a graça (cf. Rm 5, 20). O testemunho da reviravolta de Jerônimo – unido, por exemplo, às “Confissões" de um Santo Agostinho – é razão de esperança para aqueles que, tendo passado pelo vale da sombra da morte (cf. Sl 23, 4), querem agora conformar-se a uma vida iluminada pelo Verbo de Deus (cf. Sl 119, 105).

Entretanto, São Jerônimo não pretende iludir ninguém com as facilidades de uma vida mansa. Definitivamente, esse não é o caminho para quem quer possuir a virtude da pureza. A esse propósito, ele faz questão de alertar que são justamente os que lutam os principais alvos do demônio. “O diabo não procura os homens infiéis, que estão fora, cuja carne o rei assírio já queimou na fornalha. É a Igreja de Cristo que ele se apressa em arruinar" [4]. “Cuidado se você não sofre tentações!", alertava o Santo Cura de Ars. E explicava:
“A quem o demônio mais persegue? Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas! (...) As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas." [5]

“As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas (...) a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas". Esta verdade, que São João Maria Vianney pregaria na França no século XVIII, foi confirmada com força por São Jerônimo quando ele, ainda jovem, decidiu se refugiar no deserto e dizer “não" à sua velha vida de prazeres. O seu relato é impressionante, a ponto de o Cura de Ars comentar: “Eu não acredito que exista um santo que tenha sido mais tentado do que ele" [6]. Eis o que Jerônimo escreve:
“Quando eu vivia no deserto, exausto pelo calor do sol, na vasta solidão que dá aos eremitas uma solitária morada, quantas vezes os prazeres de Roma pareciam me assaltar! Permanecia sozinho, porque estava repleto de amargura. As vestes de saco desfiguraram meus membros e minha pele magra se tornara negra como a de um etíope. Chorava e gemia todos os dias, e quando o sono ameaçava superar minhas lutas, os meus ossos nus colidiam com dificuldades contra o chão. De minha comida e bebida eu nada falo, pois, ainda que esgotados, para os eremitas, beber água fria e aceitar alguma comida cozida já é visto como extravagância. Embora em meu medo do inferno eu me encerrasse nessa prisão, onde não tinha outra companhia a não ser a dos escorpiões e das feras selvagens, frequentemente me via rodeado por um bando de garotas. Ainda que minha carne estivesse como que morta, com meu rosto pálido e meu corpo macerado pelos jejuns, minha mente queimava de desejo, e as chamas da luxúria ainda fervilhavam em mim. Desamparado, eu me jogava aos pés de Jesus, derramava sobre eles as minhas lágrimas e as enxugava com meu cabelo: e então submetia meu corpo rebelde a semanas de abstinência. (...) Lembro-me o quanto clamava em alta voz toda a noite até o romper do dia, sem parar de bater em meu peito até que, à repreensão do Senhor, voltasse a ficar tranquilo. Eu chegava a temer minha própria cela, como se ela soubesse os meus pensamentos, e, então, irritado comigo mesmo, saía sozinho pelo deserto. Onde eu encontrasse vales cavernosos, montanhas rochosas ou despenhadeiros, ali eu fazia meu oratório, a fim de corrigir a minha carne infeliz. Aí – e disso o próprio Senhor é minha testemunha –, depois de ter derramado copiosas lágrimas e esticar os meus olhos aos céus, eu às vezes me sentia entre os coros angélicos, que com gozo e alegria cantavam: 'Como perfume derramado é o teu nome, por isso as jovens enamoram-se de Ti' (Ct 1, 3)." [7]

Na luta para vencer as tentações da impureza, o homem é obrigado a tomar uma decisão. Ou ele cede à impureza e, pouco a pouco, perde a fé – afinal, como ensina o bem-aventurado Fulton Sheen, “quem não vive de acordo com aquilo em que acredita termina acreditando naquilo que vive" -, ou combate o bom combate (cf. 2 Tm 4, 7) e, então, ganha a coroa da pureza, como aconteceu com São Jerônimo.

Que alegria não deve ter sido para o santo ver-se rodeado pelas hostes angélicas, após tantos embates e penitências! E que alegria não será também para nós contemplarmos a face de Deus, após as penúrias deste vale de lágrimas! Confiemo-nos à intercessão de São Jerônimo, e não desanimemos diante das tentações, mas creiamos: “Quando te decidires com firmeza a ter vida limpa, a castidade não será para ti um fardo; será coroa triunfal" [8].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014. p. 527.
São Jerônimo, Epistola II (PL 22, 331-332).
São Jerônimo, Epistola XLVIII, 20 (PL 22, 509).
São Jerônimo, Epistola XXII, 4 (PL 22, 396).
Santo Cura de Ars, Sermão sobre as tentações, p. 9-10.
Ibidem, p. 11.
São Jerônimo, Epistola XXII, 7 (PL 22, 398-399).
São Josemaría Escrivá, Caminho, 123.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A conversão de São Bernardo de Claraval


Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.




Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.

Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.

Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:
"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis.Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]

Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:
"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]

Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.

O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].

Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.

Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.

Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.

No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.

São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

A conversão de São Bernardo, II, 9.
Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
A conversão de São Bernardo, III, 6.
Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Um bom exame de exame de consciência para nós católicos:



"Vejo-te, cavalheiro cristão (dizes que o és), beijando uma imagem, mascando entre dentes umas oração vocal, clamando contra os que atacam a Igreja de Deus..., e até frequentando os Santos Sacramentos.

Mas não te vejo fazer um sacrifício, nem prescindir de certas conversas... mundanas (podia, com razão, aplicar-lhes outro qualificativo), nem ser generoso com os inferiores...- nem com a Igreja de Cristo! -, nem suportar uma fraqueza do teu irmão, nem abater a tua soberba pelo bem comum, nem desfazer-te do teu forte invólucro de egoísmo, nem... tantas coisas mais!

Vejo-te... Não te vejo... - E tu... dizes que és um cavalheiro cristão? - Que pobre conceito fazes de Cristo!" 

São Josemaria Escrivá - "Caminho, pt. 683"

Se possível, passe a diante. Obrigado.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Novena da Assunção de Nossa Senhora

Novena da Assunção de Nossa Senhora
Festa dia 15 de Agosto

Oração para todos os dias:
Oh! Santíssima Virgem que, para vos preparardes para uma santa morte, vivestes em contínuos desejos da visão beatifica; fazei que se apartem de nós os desejos vãos das coisas caducas da terra. Ave-Maria.
Oh! Santíssima Virgem que, para vos preparardes para uma santa morte, suspirastes na vida por vos unirdes para sempre com vosso Filho; alcançai-nos que vivamos sempre fiéis ao mesmo Senhor até à morte. Ave-Maria.

Oh! Santíssima Virgem que, para morrer santamente, ajuntastes um imenso tesouro de méritos e virtudes; alcançai-nos a graça de conhecermos que só a virtude e a graça de Deus é a estrada que pode conduzir-nos à salvação. Ave-Maria.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Providência Divina e o dever do momento presente - Padre Reginald Marie Garrigou-Lagrange (Parte I)


R. Garrigou-Lagrange, O.P.


“Omne quadcumque facietis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini facite”
Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, (fazei) tudo em nome do Senhor” (Cl 3, 17).


Para melhor compreender como devemos viver o dia a dia, com confiança em Deus, com abandono, é preciso estarmos atentos ao dever do momento presente e à graça que nos é oferecida para realiza-la. Falaremos primeiramente do dever que se apresenta a cada minuto, tal como os santos o compreenderam, e esclareceremos depois a conduta destes santos pelo ensinamento da Escritura e da teologia, ensino que se dirige a todos nós.


O DEVER DO MOMENTO PRESENTE TAL COMO OS SANTOS O COMPREENDERAM E A LUZ QUE ELE ENCERRA.


O dever de cada instante, debaixo de aparências muitas vezes insignificantes, é expressão da vontade de Deus a nosso respeito e a respeito de nossa vida individual. A Virgem Maria viveu assim na união divina, realizando no dia a dia a vontade de Deus pelo dever quotidiano de sua vida muito simples que, na aparência, era como a vida de todas as pessoas de sua condição. Assim viveram todos os santos, fazendo a vontade de Deus tal como se manifesta a cada hora, sem se deixar desconcertar por contrariedades imprevistas. O segredo dos santos era o de tornar-se, a cada instante, aquilo que a ação divina queria fazer deles. Viam tudo o que tinham para fazer e para sofrer, todos os seus deveres e todas as suas cruzes na vontade de Deus. Estavam persuadidos de que os acontecimentos do presente são sinais da vontade ou da permissão de Deus, para o bem daqueles que O procuram. A própria visão do mal, exercitando a sua paciência, lhes mostrava, por contraste, o que deviam fazer para evitar o pecado e suas funestas conseqüências. Os santos viam assim na seqüência de acontecimentos, um ensinamento providencial e acreditavam que ao lado e acima da continuidade de fatos exteriores de nossa vida, há como que uma seqüência paralela de graças atuais, que nos são constantemente oferecidas para fazer-nos tirar destes acontecimentos, agradáveis ou penosos, o melhor proveito espiritual. A continuidade dos acontecimentos, se soubermos bem considerá-la, contém lições de coisas de Deus, são como que um prolongamento da revelação ou o Evangelho aplicado, até o fim dos tempos.


Em quase todos os domínios distingue-se o ensinamento teórico e abstrato do ensinamento aplicado e prático; O mesmo acontece na ordem das coisas espirituais. O Senhor aí nos dá, a seu modo, esses dois ensinamentos: um no Evangelho, o outro no curso da vida.


Esta grande verdade vital, é geralmente desprezada. Quando chegam as contrariedades e revezes, somos todos queixas e murmúrios. Tal doença aparece logo quando mais tínhamos o que fazer; tal coisa nos falta; tiram-nos os meios necessários, botam obstáculos intransponíveis ao bem que devíamos realizar, ao apostolado que devíamos exercer.


Os santos em tais circunstâncias, e mesmo em outras bem mais penosas, dizem: Fazer cada dia a vontade de Deus é, no fundo, a única coisa necessária. O Senhor não ordena jamais o impossível, mas há um dever que, a cada momento, ele torna realmente possível para cada um de nós, para cuja realização ele pede nosso amor e nossa generosidade.


Se tal acontecimento doloroso é conseqüência de nossas faltas será uma lição providencial, que devemos receber com humildade para dela tirar proveito. Se, sem falta de nossa parte, o Senhor permite que sejamos privados de certos bens, é porque não são verdadeiramente necessários à nossa santificação e à nossa salvação. Os santos acham que, em certo sentido, nada lhes falta a não ser um maior amor de Deus. Se soubéssemos o que são os acontecimentos que chamamos obstáculos, contrariedades, revezes, contratempos, infortúnios, fracassos, lastimaríamos a desordem que pode existir em tais coisas (e os santos a lastimaram mais do que nós e por causa dela sofreriam mais do que nós) mas nos repreenderíamos a nós mesmos por nossos murmúrios, e seríamos mais atentos ao bem superior que Deus busca em tudo o que ele quer e até em suas permissões divinas. [1]


A Escritura diz em diversos lugares: O Senhor é quem tira a vida e a dá, leva à habitação dos mortos e trás de volta. [2]


Quanto mais a ação divina faz morrer para o pecado e suas conseqüências, mais separa de tudo o que não é Deus, mais ela vivifica. Alguém disse que a graça é, às vezes, um carrasco, e no entanto, na obra que perfaz em nós, longe de destruir a natureza naquilo que ela tem de bom, a aperfeiçoa, a restaura e a eleva. Dela pode-se dizer o que se diz de Deus: mortifica e vivifica.


Como diz o Padre de Caussade [3], explicando essas vias de Providência: “Quanto mais obscuro é o mistério mais luz contém” pois sua obscuridade vem de uma luz intensa demais para nossos olhos.


Além disso, o que melhor nos ensina é o que acontece conosco em particular a cada momento, segundo o que quis ou permitiu a Providência divina. É aí que encontramos a manifestação da vontade divina que nos diz respeito, para o momento presente. E é aí que se forma em nós o conhecimento experimental da conduta de Deus em relação a nós, conhecimento sem o qual não saberemos nos dirigir nas coisas espirituais, nem fazer aos outros um bem profundo. [4]


Na ordem das coisas espirituais, sobretudo, só sabemos bem aquilo que a experiência nos ensina pelo sofrimento ou pela ação. Nosso Senhor, que tinha sua santa alma, desde o primeiro instante de sua vinda a este mundo, a visão beatífica e a ciência infusa, quis ter também o conhecimento experimental que se adquire no dia a dia, e que faz ver as coisas, mesmo as infalivelmente previstas, sob um aspecto especial, dado pelo contato com o real. Prevemos que um amigo querido, muito doente, vai morrer, mas sua morte contém, se soubermos abrir os olhos, um ensinamento novo para nós, pelo qual Deus nos fala de algum modo à medida que o tempo passa. Esta é a escola do Espírito Santo, estas são suas lições de coisas, que nada tem de livrescas; e elas variam para cada alma; o que é útil para esta não o será para outra. Sem querer ver, superticiosamente, um sentido lógico em puras coincidências sem importância, escutemos com simplicidade o que a Providência nos diz em particular, nas lições de coisas que nos dá. É preciso não materializar ou mecanizar esta doutrina; trata-se de um espírito sobrenatural a ser levado em conta na consideração de todas as coisas, sem constrangimento, sem tola presunção.


Como diz o autor [5] que acabamos de citar: “A revelação do momento presente é uma fonte de santidade, sempre a jorrar... Vós que tendes sede, sabei que não é preciso buscar longe a fonte da água viva: ela jorra perto de vós, no momento presente, apressai-vos a chegar lá.


Porque tendo a fonte tão próxima, vos fatigais a correr atrás dos riachos?... O amor desconhecido! Parece que vossas maravilhas se acabaram e que só se pode copiar vossas obras antigas, citar vossos discursos passados. Não se percebe que vossa ação inesgotável, é uma fonte infinita de novos pensamentos, de novos sofrimentos, de novas ações... de novos santos...” O Coração de Jesus é uma “fornalha de graças sempre novas”.


Os santos de cada época não têm necessidade de copiar a vida nem os escritos daqueles que os precederam, mas sim de viver em perpétuo abandono aos segredos e inspirações de Deus; nisto é que imitam todos os que os antecederam, apesar da diversidade das circunstâncias de cada época e de cada vida individual.


O momento presente, se soubéssemos ver nele a luz divina que contém, nos lembraria de que tudo pode ser meio, instrumento ou ao menos ocasião de progresso espiritual no amor de Deus a modo de provação ou de contraste. O momento presente, segundo a ordem querida pela Providência divina, tem relação com nosso fim último, com o único necessário: assim, cada instante do tempo que se escoa tem relação com o instante único da imobilidade eterna.


Se soubéssemos ver, não seria apenas a hora da missa, a hora da oração ou da visita ao Santíssimo Sacramento que seria santificadora para nós, mas todas as horas do dia ganhariam seu sentido sobrenatural e nos lembrariam que estamos a caminho da eternidade. Daí a boa prática de abençoar a hora que começa, ou pedir para ela a benção divina. Devemos estar, a cada instante, na situação disposta por Deus: não há momento do dia em que não tenhamos algum dever a cumprir, dever em relação a Deus ou em relação ao próximo, dever ao menos de paciência, quando a ação exterior não é possível. A cada minuto devemos santificar o nome de Deus, como se não tivéssemos outra coisa a esperar no tempo; como se, no instante seguinte, devêssemos entrar na eternidade.


Assim viveram os verdadeiros cristãos entre aqueles que, durante a última guerra, estavam expostos aos tiros de artilharia, que recomeçava a intervalos de três minutos; “Em um instante pode ser a morte” diziam, e viviam o minuto presente em sua relação com a eternidade.


Assim viveram os santos. Não apenas nas circunstâncias excepcionais mas no curso normal de suas vidas, não perdiam, por assim dizer, a presença de Deus. Ora, sua conduta se torna compreensível em razão dos princípios do Evangelho, que se dirigem tanto a eles como a nós.


Cont.
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