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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

São Jerônimo e a coroa triunfal da castidade

O historiador Daniel-Rops conta que, antes de sua conversão definitiva, Jerônimo, “nascido de pais cristãos", “começou a sua vida como um rapaz curioso de tudo, ávido de conhecimento, cujo temperamento oscilava entre um desejo sincero de piedade, e até de ascese, e certas liberdades menos morais" [1]. Tendo recebido a fé cristã desde cedo, Jerônimo ainda não se tinha decidido totalmente por Cristo, sua carne ainda opunha resistência moral à fé que desde a infância o fascinava.

Sua juventude, que culmina com uma fuga decisiva para o deserto, ilustra muito bem o itinerário por que passam muitos cristãos, antes de se converterem. “Sou aquele filho pródigo que malbaratou a sua parte da herança paterna (...) e que ainda não soube menosprezar os afagos de minhas passadas luxúrias e, agora que me empenho em querer superar os meus vícios, ocorre que o diabo procura aprisionar-me em novas redes" [2], confessava o santo, em carta endereçada a Teodósio e outros monges anacoretas. Anos mais tarde, o santo não temeria admitir que fora várias vezes vencido pelo mal: “Se elevo a virgindade até os céus, não o faço por possuí-la, mas por admirar o que não tenho" [3].

Essas palavras, certamente difíceis de escrever, revelam como, em qualquer época, onde abundou o pecado sempre é possível que superabunde a graça (cf. Rm 5, 20). O testemunho da reviravolta de Jerônimo – unido, por exemplo, às “Confissões" de um Santo Agostinho – é razão de esperança para aqueles que, tendo passado pelo vale da sombra da morte (cf. Sl 23, 4), querem agora conformar-se a uma vida iluminada pelo Verbo de Deus (cf. Sl 119, 105).

Entretanto, São Jerônimo não pretende iludir ninguém com as facilidades de uma vida mansa. Definitivamente, esse não é o caminho para quem quer possuir a virtude da pureza. A esse propósito, ele faz questão de alertar que são justamente os que lutam os principais alvos do demônio. “O diabo não procura os homens infiéis, que estão fora, cuja carne o rei assírio já queimou na fornalha. É a Igreja de Cristo que ele se apressa em arruinar" [4]. “Cuidado se você não sofre tentações!", alertava o Santo Cura de Ars. E explicava:
“A quem o demônio mais persegue? Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas! (...) As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas." [5]

“As pessoas mais tentadas são aquelas que estão prontas (...) a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas". Esta verdade, que São João Maria Vianney pregaria na França no século XVIII, foi confirmada com força por São Jerônimo quando ele, ainda jovem, decidiu se refugiar no deserto e dizer “não" à sua velha vida de prazeres. O seu relato é impressionante, a ponto de o Cura de Ars comentar: “Eu não acredito que exista um santo que tenha sido mais tentado do que ele" [6]. Eis o que Jerônimo escreve:
“Quando eu vivia no deserto, exausto pelo calor do sol, na vasta solidão que dá aos eremitas uma solitária morada, quantas vezes os prazeres de Roma pareciam me assaltar! Permanecia sozinho, porque estava repleto de amargura. As vestes de saco desfiguraram meus membros e minha pele magra se tornara negra como a de um etíope. Chorava e gemia todos os dias, e quando o sono ameaçava superar minhas lutas, os meus ossos nus colidiam com dificuldades contra o chão. De minha comida e bebida eu nada falo, pois, ainda que esgotados, para os eremitas, beber água fria e aceitar alguma comida cozida já é visto como extravagância. Embora em meu medo do inferno eu me encerrasse nessa prisão, onde não tinha outra companhia a não ser a dos escorpiões e das feras selvagens, frequentemente me via rodeado por um bando de garotas. Ainda que minha carne estivesse como que morta, com meu rosto pálido e meu corpo macerado pelos jejuns, minha mente queimava de desejo, e as chamas da luxúria ainda fervilhavam em mim. Desamparado, eu me jogava aos pés de Jesus, derramava sobre eles as minhas lágrimas e as enxugava com meu cabelo: e então submetia meu corpo rebelde a semanas de abstinência. (...) Lembro-me o quanto clamava em alta voz toda a noite até o romper do dia, sem parar de bater em meu peito até que, à repreensão do Senhor, voltasse a ficar tranquilo. Eu chegava a temer minha própria cela, como se ela soubesse os meus pensamentos, e, então, irritado comigo mesmo, saía sozinho pelo deserto. Onde eu encontrasse vales cavernosos, montanhas rochosas ou despenhadeiros, ali eu fazia meu oratório, a fim de corrigir a minha carne infeliz. Aí – e disso o próprio Senhor é minha testemunha –, depois de ter derramado copiosas lágrimas e esticar os meus olhos aos céus, eu às vezes me sentia entre os coros angélicos, que com gozo e alegria cantavam: 'Como perfume derramado é o teu nome, por isso as jovens enamoram-se de Ti' (Ct 1, 3)." [7]

Na luta para vencer as tentações da impureza, o homem é obrigado a tomar uma decisão. Ou ele cede à impureza e, pouco a pouco, perde a fé – afinal, como ensina o bem-aventurado Fulton Sheen, “quem não vive de acordo com aquilo em que acredita termina acreditando naquilo que vive" -, ou combate o bom combate (cf. 2 Tm 4, 7) e, então, ganha a coroa da pureza, como aconteceu com São Jerônimo.

Que alegria não deve ter sido para o santo ver-se rodeado pelas hostes angélicas, após tantos embates e penitências! E que alegria não será também para nós contemplarmos a face de Deus, após as penúrias deste vale de lágrimas! Confiemo-nos à intercessão de São Jerônimo, e não desanimemos diante das tentações, mas creiamos: “Quando te decidires com firmeza a ter vida limpa, a castidade não será para ti um fardo; será coroa triunfal" [8].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014. p. 527.
São Jerônimo, Epistola II (PL 22, 331-332).
São Jerônimo, Epistola XLVIII, 20 (PL 22, 509).
São Jerônimo, Epistola XXII, 4 (PL 22, 396).
Santo Cura de Ars, Sermão sobre as tentações, p. 9-10.
Ibidem, p. 11.
São Jerônimo, Epistola XXII, 7 (PL 22, 398-399).
São Josemaría Escrivá, Caminho, 123.


terça-feira, 2 de junho de 2015

O guardião da castidade é o amor

Porque o guardião da castidade é o amor, é praticamente impossível falar de pureza para uma civilização que virou as costas para Deus.



Não é novidade alguma que a mensagem do Evangelho sobre a sexualidade cause escândalo às pessoas. C. S. Lewis escreve, com razão, que " a castidade é a menos popular das virtudes cristãs" [1], e, ainda no século XIII, Santo Tomás de Aquino – considerando que, "na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são contidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo" – sublinhava que é grande "milagre e claro efeito da inspiração divina que os espíritos humanos tenham concordado com tudo isto" [2].

Algumas épocas, no entanto, são particularmente insensíveis à virtude da castidade. É o caso da nossa geração, que ainda experimenta os frutos amargos da Revolução Sexual. O advento da pílula anticoncepcional – e o consequente divórcio entre o prazer e a geração dos filhos –, as chamadas "uniões livres", bem como a adoção do divórcio em várias legislações mundo afora, fortaleceram a ideia de que o ser humano poderia fazer de sua sexualidade o que bem entendesse, não dando a mínima para as leis inscritas pelo Criador em seu próprio coração.

A destruição ocorrida nas últimas décadas, no entanto, é apenas reflexo de um mal muito maior: o afastamento de Deus. É praticamente impossível falar de pureza para uma civilização que abandonou os valores eternos. A castidade é, por assim dizer, a "cereja do bolo" do cristianismo. Sem amor, ela se torna apenas uma norma a mais dentro um "moralismo" vazio. Santo Agostinho, por exemplo, fazia notar que o que se louva nas virgens "não é o fato de serem virgens, mas o estarem consagradas a Deus por uma santa continência" [3]. Ou seja, a grandeza da castidade está no amor com que é praticada, ou, como resumiu o próprio Agostinho: "A guardiã da virgindade é a caridade" [4].

Tome-se como modelo a vida da Beata Teresa de Calcutá. Mesmo em tempos de descrença como os nossos, são muitas as pessoas a admirar o testemunho dessa santa religiosa, inclusive fora da Igreja. E o que tornou reluzente a sua figura, fazendo com que os próprios chefes das nações a estimassem, e homens de letras, sem nenhum vínculo com a fé cristã, a respeitassem? Como pode ser que uma consagrada a Deus – e, por si só, "sinal de contradição" ( Lc 2, 34) – tenha conquistado tanta simpatia por onde passou? A resposta está na caridade, que dá forma a todas as obras e virtudes [5]. Por seu grande amor a Deus, Madre Teresa encheu de sentido todas as ações que realizava: desde a oração e vivência fiel dos votos religiosos até o extraordinário cuidado que tinha pelos doentes e miseráveis.

Tirando Deus do centro, porém, o que resta? O escritor britânico G. K. Chesterton, que viu o começo do século XX decretar "a morte de Deus", profetizou, ainda em 1926: " A próxima grande heresia será um ataque à moralidade, especialmente à moral sexual" [6]. Dito e feito. Não foi preciso nem meio século para que a barbárie invadisse as universidades, as igrejas e os lares. Pregou-se abertamente a destruição da família; abandonou-se largamente a vida religiosa; instaurou-se, enfim, no lugar onde deveriam reinar a ordem e a concórdia, uma verdadeira "luta de classes".

Também em seu tempo, São Paulo identificava a degradação sexual como consequência do afastamento e do abandono do verdadeiro Deus: "Apesar de conhecerem a Deus", os homens "não o glorificaram como Deus nem lhe deram graças". Como consequência, "Deus os entregou, dominados pelas paixões de seus corações, a tal impureza que eles desonram seus próprios corpos" (Rm 1, 21.24). Quando se despreza o Criador, não impressiona que as criaturas profanem os templos do Espírito Santo, que são os seus corpos (cf. 1 Cor 6, 19), e envenenem a própria fonte que dá origem ao ser humano. "Creatura enim sine Creatore evanescit – De fato, a criatura, sem o Criador, se esvai" [7].

Para que se devolva a saúde moral à nossa civilização, portanto, nada mais eficaz que mostrar ao mundo a beleza do amor de Cristo, que é o que dá brilho à tão esquecida virtude da castidade. Lembremo-nos das muitas mulheres que consagraram a sua virgindade a Deus e que, no fim da vida, foram coroadas com a palma do martírio. "Águeda e Luzia, Inês, Cecília, Anastásia": a sua caridade era tão ardente, que não contentes em oferecer ao Senhor o seu corpo, ofertaram-Lhe também as suas almas. Elas preferiram enfrentar os mais terríveis suplícios a perder a Santíssima Trindade que habitava em seus corações.

Que também nós, auxiliados pela graça, possamos dar ao mundo paganizado do século XXI um testemunho de Deus. Vale a pena gastar-se inteiramente por Ele, entregando mesmo a própria vida. Afinal, "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos" ( Jo 15, 13).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências
LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Martins Fontes: São Paulo, 2005. p. 37.
Suma contra os Gentios, I, 6, 2.
Sobre a Virgindade, 11: PL 40, 401.
Ibidem, 51: PL 40, 426.
Cf. Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 8.
The Next Heresy. G. K.'s Weekly: June 19, 1926.
Constituição Pastoral Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965), n. 36.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A castidade: um belo desafio para o jovem


Texto do site Veritatis Splendor


A luta cristã contra a impureza exige que se fuja de toda ocasião de pecado. Sabemos que “a ocasião faz o ladrão”, e aquele que brinca com o perigo nele perece. Se você, jovem, quer se manter puro e casto antes do casamento, terá que fugir de toda ocasião que possa excitar a paixão: livros, revistas, filmes eróticos, bem como, no namoro, toda ocasião que possa propiciar uma vivência sexual precoce. O namoro não é o tempo de viver as carícias matrimoniais, pois elas são o prelúdio do ato sexual, que não deve ser realizado no namoro. O que precisa haver entre os namorados é carinho, não as carícias íntimas. Além disso será preciso, para todos, solteiros e casados, o auxílio da graça de Deus; para os solteiros, a fim de que não vivam o sexo antes do casamento; para os casados, a fim de serem fiéis um ao outro. É grande a recompensa daquele que luta bravamente para manter a própria pureza. Jesus disse que esses são bem aventurados (felizes) porque verão a Deus. (Mt 5,8) Um jovem casto é um jovem forte, cheio de energias para sua vida profissional e moral. É na luta para manter a castidade que você se prepara para ser fiel ao seu cônjuge amanhã.

A grandeza de um homem não se mede pelo poder que possui de dominar os outros, mas pela capacidade de dominar a si mesmo. Esta sempre foi a coluna que manteve de pé as civilizações e os grandes homens, e hoje, também, precisa ser resgatada e preservada, sob pena de vermos perecer a nossa civilização. Nossa humanidade hedonista, amante do prazer, a qualquer custo, ri da castidade e da virgindade, e por isso paga um preço caro pela devassidão dos costumes. Para reerguer esta sociedade será preciso resgatar esses valores que nunca envelhecem. Vale a pena refletir um pouco no que dizia o Mahatma Ghandi, o célebre indiano hindu, que não era católico, que libertou a India da Inglaterra, pela força da não violência. Ele dizia:

“A castidade não é uma cultura de estufa… A castidade é uma das maiores disciplinas, sem a qual a mente não pode alcançar a firmeza necessária”. Gandhi amou tanto a castidade que alterou até a sua vida conjugal. “Sei por experiência que, enquanto considerei minha mulher carnalmente, não houve entre nós verdadeira compreensão. O nosso amor não atingiu o plano elevado… No momento em que disse adeus a uma vida de prazeres carnais, todas as nossas relações se tornaram espirituais”. Depois dos quarenta anos, Ghandi não teve mais vida sexual, nem mesmo com a esposa. Embora este pensamento não esteja plenamente de acordo com a moral católica, no entanto, mostra o valor imenso da castidade para um homem que não era batizado. Ele ainda dizia: “A vida sem castidade parece-me vazia e animalesca”. “Um homem entregue aos prazeres perde o seu vigor, torna-se efeminado e vive cheio de medo.

A mente daquele que segue as paixões baixas é incapaz de qualquer grande esforço”. A castidade longe de ser uma prisão, ao contrário, abre cada vez mais as portas da verdadeira liberdade. Só compreende isto quem a vive. Só é livre quem se possui. Para haver a castidade nos nossos atos, é preciso que antes ela exista em nossos pensamentos e palavras. Jamais será casto aquele que permitir que os seus pensamentos, olhos, ouvidos, vagueiem pelo mundo do erotismo. É por não observar esta regra que a maioria pensa ser impossível viver a castidade. Meu caro jovem, se você quiser no futuro formar uma família feliz, então comece agora, por você mesmo; e, contra tudo e contra todos que lhe oferecem o sexo vazio e fácil, antes do casamento, viva a castidade. Garanto-lhe que vale a pena, pois eu vivi isto. Eu tive que lutar muito também para chegar inteiro ao meu casamento; mas hoje, vinte e oito anos depois, ao lado de uma esposa fiel, cinco filhos saudáveis e um lar feliz, eu posso dizer-lhe que vale a pena. O jovem e a jovem cristãos terão que lutar muito para não permitir que o relacionamento sexual os envolva e abafe o namoro. Alguns querem se permitir um grau de intimidade “seguro”, isto é, até que o “sinal vermelho seja aceso”; aí está um grave engano. Quase sempre o sinal vermelho é ultrapassado, e muitas vezes acontece a gravidez e outras coisas. Um namoro puro só será possível com a graça de Deus, com a oração, com a vigilância e, sobretudo quando os dois querem se preservar um para o outro. Será preciso então, evitar todas as ocasiões que possam facilitar um relacionamento mais íntimo. O provérbio diz que “a ocasião faz o ladrão”, e que, “quem brinca com o perigo nele perecerá”. É você quem decide o que quer. Se você sabe que naquele lugar, naquele carro, naquela casa, etc., a tentação será maior do que as suas forças, então fuja destes lugares; esta é uma fuga justa e necessária. É preciso lembrar as moças, que o homem se excita principalmente pelos olhos. Então, cuidado com a roupa que você usa; com os decotes, com o comprimento das saias… Não ponha pólvora no sangue do seu namorado se você não quer vê-lo explodir. Muitas vezes as namoradas não se dão conta disto. Para a mulher a excitação se dá muito mais por palavras, gestos, fantasias, romances; mas para o homem, basta uma roupa curta, um decote, um cruzar de pernas aparentes, e muita adrenalina será injetada no seu sangue… Não provoque seu namorado. Além de tudo isso, se somos cristãos, temos que obedecer e viver o mandamento de Deus que manda “não pecar contra a castidade”; isto é, não viver a vida sexual nem antes do casamento (fornicação) e nem fora dele (adultério).

A gravidade do pecado da impureza, também chamado de luxúria, é que com ele, se mancha o Corpo de Cristo. “Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um de sua parte, é um dos seus membros” (1Cor 12,27). “… assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós somos membros uns dos outros”. (Rm 12,5) Quando eu cometo um pecado de impureza, não sujo apenas a mim mesmo, mas também ao Corpo de Cristo, do qual sou membro.

É neste sentido que São Paulo alertava os fiéis de Corinto sobre a gravidade desse pecado. “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” (1Cor 6,15). Note que o Apóstolo enfatiza os “corpos”; isto é, a realidade do corpo místico de Cristo não é apenas espiritual, mas também corporal. Sem os nossos corpos não haveria a impureza. “Tomarei, então, os membros de Cristo, e os farei membros de uma prostituta? Ou não sabeis que o que se ajunta a uma prostituta se torna um só corpo com ela? Está escrito: Os dois serão uma só carne (Gen 2,24)”, (1Cor 6,16). Para o Apóstolo, entregar-se à prostituição é o mesmo que prostituir o Corpo de Cristo, a Igreja. Esta é uma realidade religiosa da qual ainda não tomamos ciência plena; isto é, toda vez que eu peco, o meu pecado atinge todo o corpo de Cristo. Esta é uma das razões porque nos confessamos com o ministro da Igreja, para nos reconciliarmos com ela, que foi manchada pela nossa falta. De forma especial isto ocorre no pecado de impureza; o que levava São Paulo a pedir aos coríntios, entre os quais havia este problema: “Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo”. (1 Cor 6,18) É preciso entender que nós não apenas “temos” um corpo, mas “somos” um corpo. Nossa identidade está ligada ao nosso corpo; ela é fixada pela nossa foto, impressão digital ou código genético (DNA).

Portanto, o pecado da impureza agrava-se na medida em que, mais do que nos outros casos, envolve toda a nossa pessoa, corpo e alma. E o Apóstolo, mostra que o Espírito Santo não habita apenas a nossa alma, mas também o nosso corpo; e daí a gravidade da sua profanação. “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que habita em vós, o qual recebestes de Deus, e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço”. (1 Cor 6,19) São Paulo ensina que devemos dar glória a Deus com o nosso corpo: “O corpo, porém não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o Corpo: Deus que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder”. (1 Cor 6,20) Nosso corpo está destinado a ressuscitar no último dia, glorioso como o corpo de Cristo ressuscitado. “Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso …” (Fil 3,20) Nosso corpo glorificado dará glória a Deus para sempre, assim como os corpos de Jesus e Maria, já no céu. Isto explica a importância do nosso corpo, que levava Paulo a dizer aos coríntios: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado – e isto sois vós”. (1 Cor 3,16´17) Quantas pessoas destruíram-se a si mesmas, porque destruíram os seus próprios corpos!

O desrespeito ao corpo, seja pela impureza ou pelos vícios, compromete a integridade e a dignidade da pessoa toda, que é templo de Deus. Jesus foi intransigente com o pecado da impureza. No Sermão da Montanha, marco dos seus ensinamentos, Ele disse: “Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração”. (Mt 5, 27´28) Jesus quer assim destruir a impureza na sua raiz; isto é no coração dos nossos pensamentos. “Porque é do coração que provém os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias”. (Mt 15,19) Para viver a pureza há, então, que estarmos em alerta o tempo todo, como recomendou o Senhor: “vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mt 26,41) Todos nós já pudemos comprovar como é fraca a nossa carne, a nossa natureza humana, enfraquecida pelo pecado original. Portanto, não nos resta outra alternativa para prevenir a queda, senão, vigiar e orar.

Fonte: Veritatis Splendor

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

5 coisas que um filho precisa ouvir do pai - Daniel Darling



Por graça de Deus, eu sou o pai de quatro filhos fantásticos: três meninas e um menino. Assim como é maravilhoso ser o pai de filhas, é maravilhoso ser pai de um filho.

Em minha casa, Daniel Jr (4 anos de idade) e eu estamos a perder 4-1 com as raparigas, e por isso fizemos uma espécie de aliança para garantir que nem tudo fica pintado de cor-de- rosa, que vemos futebol com alguma regularidade, e que se vêem tantos filmes de super-heróis como filmes da Barbie.

Falando a sério, o trabalho de criar um filho é uma tarefa nobre e importante. Infelizmente, é um trabalho que muitos homens desleixam, abrindo caminho ao que agora se vê como uma crise de grandes proporções no nosso país: a crise da paternidade.

Quando tiver vagar veja as estatísticas e ficar a saber que uma percentagem muito elevada dos jovens que estão na prisão tiveram pouca ou nenhuma experiência de envolvimento com o pai. Na minha função pastoral, eu vi os efeitos devastadores da ausência do pai ou da sua falta de liderança na vida do filho.

Homens, ser pai para os filhos é um trabalho sério. Por isso, gostaria de apontar 5 coisas que todo filho precisa ouvir do pai:

1. Gosto de ti

Qualquer rapaz precisa de ouvir e saber que o pai o ama. Sem essa afirmação, um homem carrega feridas profundas que afetam os seus relacionamentos mais importantes.

Encontrei homens de todas idades que sonham ouvir essas palavras mágicas que significam bem mais quando vêm do pai: gosto de ti.

Nesta altura o meu filho tem só 4 anos, por isso é mais fácil dizer essas coisas. Suspeito que, à medida que crescer, vai ser um pouco mais complicado. Mas continuo a pensar dizer.

Porque por detrás de uma aparência às vezes áspera de um rapaz jovem há um coração que deseja sentir o amor do pai. O que você pode não perceber é que a primeira imagem que o miúdo vai ter do seu Pai celestial é a imagem do pai terreno quando olha para ele.

Ou seja, toca a dizer ao seu rapaz que gosta dele.

2. Estou orgulhoso de ti

Nem sei dizer quantos homens conheço que ainda hoje vivem à espera de ter a aprovação do pai.

No fundo do coração perguntam, porto-me minimamente bem? Estou a fazer o que é certo? O meu pai estará contente comigo?

Ando a aprender que é importante para nós, pais, sermos firmes com os filhos de muitas maneiras (ver abaixo), mas nunca devemos negar a nossa aprovação. Eles precisam de saber, nos momentos certos das suas vidas, que não é preciso que façam mais para conquistar o nosso favor.

Claro, às vezes eles vão decepcionar e temos de lho fazer saber e sentir. E, no entanto, é importante não sermos como senhores que, ao tentar motivar os nossos filhos para a grandeza, omitimos o maior condimento que pode facilitar o êxito: a confiança.

Lembro-me da aprovação que Deus faz ao seu Filho quando estava a ser baptizado por João Baptista. "Este é o meu Filho amado, em ponho a minha complacência" (Mateus 3,17 e Marcos 19,35). Sim, há implicações teológicas importantes nesta frase para além da aprovação, mas não posso deixar de ver a aprovação de Deus a Jesus como um modelo para a relação que temos com os nossos filhos.

Se o seu filho não subir à 1ª divisão, se ele entrar numa universidade que não é Harvard, se ele se tornar camionista e não um gestor de empresas, nunca lhe dê a impressão de que gosta menos dele. Não magoe a sua alma dessa maneira.

3. Tu não és um choninhas, és um soldado

Hoje a cultura apresenta uma imagem confusa da masculinidade.

O que é um homem? A cultura dominante diz que ele é uma espécie de inútil e que o melhor que ele consegue é desperdiçar a adolescência satisfazendo os impulsos sexuais, brincando às guerras na playstation, e sem qualquer tipo de ambição nobre.

Mas Deus não fez o seu filho, ou o meu filho, para ser um indolente, mas para ser um soldado.

Por favor, não se ponham nervosos com a palavra "soldado". É bom para encorajar os filhos a serem masculinos. Isto não tem a ver com ser caçador de leões, condutor de camiões TIR. Muitos homens verdadeiros bebem leite, conduzem utilitários pequenos, e detestam camuflados (como eu).

Há uma visão de masculinidade na Bíblia, de nobreza e força, de coragem e sacrifício. Um homem de verdade luta por aquilo que ama. Um homem de verdade valoriza a mulher que Deus lhe dá. Não se serve dela.

Um verdadeiro homem procura seguir o chamamento que Deus estampou na sua alma, e que é descoberto através da intimidade com Deus, da identificação com os dons e talentos recebidos, e da satisfação das necessidades profundas do mundo (para parafrasear Buechner).

Ninguém consegue ajudar melhor os nossos filhos a orientar-se para a sua missão que nós, os pais. Não deixemos o futuro dos nossos filhos ao acaso. Vamos estar ao lado deles, modelando para eles um modo de viver que tenha sentido.

4. O trabalho duro é um dom, não uma maldição

Ócio, preguiça e indecisão são as melhores ferramentas do diabo para arruinar as vidas dos homens jovens. Pessoal, os nossos filhos precisam de nos trabalhar no duro e ser incentivados e preparados para trabalhar no duro.

Eles precisam de perceber que o trabalho é mais duro por causa da queda original, mas em última análise foi dado por Deus para saborear o seu beneplácito. Ficar com as mãos sujas no esforço, na luta, no cansaço – tudo isto é bom, não é mau.

Infelizmente muitos jovens nunca viram como é importante para um homem poder trabalhar. Vamos mostrar-lhes que o trabalho traz alegria. O trabalho honra a Deus. O trabalho bem feito dá glória ao Criador.

Seja feito com os dedos num teclado, cortando árvores à machadada, ou manobrando uma empilhadora. Seja feito num escritório com ar-condicionado, em pântanos lamacentos, ou debaixo de um carro. Mas não se enganem: o trabalho importa e o que fizermos com as nossas mãos, se for bem feito, é um sinal do Criador.

5. Tens talento, mas não és Deus

Vamos embeber os nossos filhos num sentimento de confiança, de aprovação, de dignidade. Mas vamos lembrar-lhes que, embora agraciados pelo Criador, eles não são Deus.

Temos de lhes ensinar que a masculinidade genuína não se envaidece. Inclina-se. Pega numa toalha e lava os pés dos outros.

Um homem de verdade sente-se confortável tanto quando reza como quando fala. Ele sabe que a sua força não está nas suas façanhas ou naquilo que ele acha que as pessoas pensam dele. A força vem de Deus.

Esta humildade alimenta a compaixão e vai permitir-lhes perdoar àqueles que os hão-de ferir duramente. Vamos ajudar os nossos filhos a saber que as suas vidas realmente começam, não quando eles tiverem 18 anos ou quando tiverem o primeiro trabalho ou quando se apaixonarem por uma mulher.

As suas vidas começaram numa colina poeirenta há 2000 anos, aos pés de uma cruz romana, onde a justiça e o perdão se reuniram no sacrifício sangrento do seu salvador.

Vamos ensiná-los que viver a vida sem Jesus é como dar um concerto no convés do Titanic. É bom enquanto dura, mas, por fim, acaba na tristeza.

Fonte: Senza Pagare

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sermão sobre São José, O FIEL DEPOSITÁRIO - Bossuet

Sermão de 19 de março de 1657
O FIEL DEPOSITÁRIO


BOSSUET

É opinião generalizada e sentir comum entre os homens que o depósito, isto é, um bem que recebemos para guardar, tem qualquer coisa de sagrado e que o devemos conservar para quem no-lo confia não somente por fidelidade mas por uma espécie de sentimento religioso. Por isso o grande Santo Ambrósio nos ensina no livro 29 de seus Ofícios que era piedoso costume estabelecido entre os fiéis o de trazer aos bispos e a seu clero aquilo que se queria guardar com mais cuidado, para que fosse colocado junto ao altar, em virtude da santa persuasão em que estavam de que não havia melhor lugar para guardar um tesouro do que aquele ao qual o próprio Deus confiou a guarda dos seus, isto é, os santos mistérios.

Este costume se tinha introduzido na Igreja a exemplo da sinagoga antiga. Lemos na História Sagrada que o augusto templo de Jerusalém era lugar de depósito para os judeus. Autores profanos também nos ensinam que os pagãos tributavam esta honra a seus falsos deuses, colocando seus depósitos nos templos e confiando-os a seus sacerdotes, como se a própria natureza das coisas nos ensinasse que o respeito ao depósito tem algo de religioso e que não pode estar mais bem colocado do que nos lugares santos onde se reverencia a Divindade, nas mãos daqueles que a religião consagra.

Ora, se jamais existiu depósito que merecesse tanto ser chamado santo, santamente guardado, é este de que falo, que a providência do Pai confia à fé do justo José, tanto assim que sua casa se assemelha a um templo porque Deus aí se digna habitar e entregar-se a Si próprio em depósito. José deve ter sido, portanto, consagrado a fim de guardar tão santo tesouro. E realmente o foi, cristãos: seu corpo pela continência, sua alma por todos os dons da graça. [...]

No projeto que me proponho, o de apoiar os louvores a São José, não em conjeturas duvidosas mas em doutrina sólida tirada das Escrituras divinas e dos Padres seus intérpretes fiéis, nada de mais conveniente posso fazer, na solenidade deste dia, do que apresentar este grande santo como um homem que Deus escolheu entre todos os outros para lhe pôr nas mãos Seu tesouro e fazê-lo, aqui na Terra, seu depositário. Pretendo fazer ver hoje que nada melhor lhe convém, que nada existe tão ilustre e que esse belo título de depositário, desvendando-nos os desígnios de Deus sobre esse bem-aventurado patriarca, nos mostra a fonte de todas as graças e o fundamento seguro de todos os louvores.

Primeiramente, cristãos, é-me fácil fazer-lhes ver o quanto esta qualidade é, para ele, honra, porque, se o título de depositário já inclui a nota de estima e testemunho de probidade, se para confiar um depósito costumamos escolher entre nossos amigos aquele cuja virtude é mais reconhecida, cuja fidelidade é mais comprovada, enfim o mais íntimo e mais confidente, qual não será glória de São José, que Deus fez depositário não somente da bem-aventurada Virgem Maria, cuja pureza angélica a torna agradável a Seus olhos, mas ainda de Seu próprio Filho, único objeto de suas complacências, única esperança de nossa salvação: de modo que guardando a pessoa de Jesus Cristo, São José é instituído depositário do tesouro comum de Deus e dos homens. Que eloqüência poderá igualar a grandeza e a majestade desse título?

Então, fiéis, se esse título é tão glorioso e vantajoso àquele a quem devo hoje fazer o panegírico, é preciso que eu mesmo penetre em tão grande mistério com o socorro da graça; e que, procurando nas Escrituras o que aí lemos sobre José, vos faça ver que tudo converge para esta bela qualidade de depositário.

Efetivamente encontro nos Evangelhos três depósitos confiados ao justo José pela Providência divina, e ali também encontro três qualidades que refulgem entre as outras e que correspondem a esses três depósitos. É o que precisamos explicar por ordem. Segui, por favor, atentamente.

O primeiro de todos os depósitos que foi confiado à sua fé (o primeiro na ordem do tempo) é a santa virgindade de Maria, a qual São José devia conservar intacta sob o véu sagrado do seu matrimônio, que ele sempre guardou santamente como um depósito sagrado que não lhe era permitido tocar. Eis o primeiro depósito.

O segundo, o mais augusto, é a pessoa de Jesus Cristo, que o Pai celeste depõe em suas mãos a fim de que lhe sirva de pai, ao Santo Menino que não o tem na Terra. Vede, desde já, cristãos, dois grandes, dois ilustres depósitos confiados ao zelo de São José. Mas observo ainda um terceiro, que acharão admirável, se eu conseguir explicá-lo com clareza. Para isso é preciso compreender que o segredo é uma espécie de depósito. Trair o segredo de um amigo é como violar a santidade do depósito. Pelas leis humanas sabemos que, se alguém divulga o segredo de um testamento a ele confiado, pode ser acusado de ter violado o depósito: Depositi actione tecum agi posse, dizem os juristas. É evidente, pois, a razão por que o segredo é como um depósito. Por onde podemos facilmente compreender que, se José é o depositário do Pai eterno, é porque Este lhe contou o Seu segredo. Que segredo? Um segredo admirável: a encarnação de Seu Filho.

Assim, porque, como sabemos, era desígnio de Deus esconder Jesus Cristo do mundo até que Sua hora houvesse chegado, São José foi escolhido não somente para O guardar mas também para O esconder. Por isso lemos no Evangelista (S. Lucas 2, 33) que José, com Maria, admirava tudo o que se dizia do Salvador, mas não lemos que ele falasse, porque o Pai eterno, desvendando-lhe o mistério, fez dele um segredo sob a obrigação do silêncio. Este segredo é o terceiro depósito que o Pai acrescenta aos outros dois. Segundo o que nos diz o grande São Bernardo, Deus quis confiar à sua fé o segredo mais santo de seu coração: Cui toto committeret secretissimum atque sacratissimum sui cordis arcanum (Super Missus est — hom. 2, no 15).

Como sois querido de Deus, ó incomparável José, já que Ele a vós confia esses três grandes depósitos: a Virgindade de Maria, a pessoa de Seu Filho único e o segredo de Seu mistério!

Mas não julgueis, cristãos, que ele desconhecia essas graças. Se Deus o honrava com aqueles três depósitos, de sua parte José apresentava a Deus, em sacrifício, três virtudes que observo no Evangelho. Não duvido que sua vida tenha sido ornada com todas as outras, mas eis aqui as três principais virtudes que Deus quer que vejamos na sua Escritura. A primeira é a pureza, que aparece pela continência no seu matrimônio; a segunda, sua fidelidade; a terceira, sua humildade e seu amor à vida obscura. Quem não verá a pureza de São José nesta santa sociedade de desejos pudicos, nesta admirável correspondência à Virgindade de Maria e em suas bodas espirituais? A segunda, sua fidelidade, aparece nos cuidados infatigáveis que tem para com Jesus no meio das tantas adversidades que por todas as partes seguem esse Menino divino desde o começo de sua vida. A terceira, sua humildade, vê-se em que, possuindo tão grande tesouro por uma graça extraordinária do Pai eterno, longe de se vangloriar por esses dons ou de publicar suas vantagens, se esconde tanto quanto pode aos olhos dos mortais, contemplando, em gozo pacífico com Deus, o mistério que lhe fora revelado e as riquezas imensas que tem sob sua guarda.

Ah! Quanta grandeza descubro aqui e como aqui descubro tão importantes instruções! Quanta grandeza vejo nesses depósitos, quantos exemplos vejo nessas virtudes! E como a explicação desse assunto tão belo será glorioso para São José e frutuoso para todos os fiéis!

(PERMANÊNCIA, ano XI, março/abril, números 112/113.)


Jacques-Bénigne Bossuet (Nascido em, 27 de setembro de 1627, em Dijon - e morreu em Paris, 12 de abril de 1704) foi Bispo de Condom e Meaux (Dioceses da França) e teólogo francês.


Fonte: Ite ad Joseph

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Só os castos são fortes



CASTIDADE

Do latim "castitas", de "castus", originariamente termo da linguagem religiosa que significava: conforme aos ritos; posterior­mente foi tomado como particípio do verbo "careo" = carecer e passou a significar tam­bém: isento de, puro.

É uma virtude moral que preserva o homem de qualquer complacência indevida com a satisfação sexual.

É a expres­são de uma plena vitória da vontade sobre o instinto.

É uma nota inconfundível das almas nobres e fortes.

O homem casto não é apenas aquele que não tem uma vida desregrada, mas é o que exerce pleno controle não só sobre seus atos e palavras, mas também sobre seus impulsos íntimos e seus desejos.

As reações do animal obedecem, de modo exclusivo e ine­lutável, aos estímulos dos instintos de conser­vação e reprodução. Mas nele esses instintos têm uma regulação automática e um equilíbrio natural. No homem, esse equilíbrio é exercido pela razão consciente e voluntária. E nisso re­side a nobreza do ser humano. O devasso acaba se assemelhando ao animal, escravo dos próprios instintos. O casto controla os seus ins­tintos, segundo as finalidades superiores da razão: não vive para comer, mas come para viver; não vive para o sexo, mas submete a atividade sexual à sua função imanente de transmitir o dom da vida e de permitir entre os esposos a realização da plenitude de amor humano. A castidade é o resultado de uma autodisciplina, permanentemente exercida so­bre os pensamentos, os desejos, os sentidos num ideal de nobre austeridade voluntaria­mente aceito. A impostura dos devassos con­siste em se apresentarem como corajosos, li­bertos de todos os tabus. Na realidade, são covardes que abdicaram da luta interior e se tornaram escravos de suas paixões, porque, de fato, só os castos são fortes.
___________________________

Fonte: Pe. Fernando Bastos de Ávila, S.J. - Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo, MEC - Ministério da Educação e Cultura, FENAME - Fundação Nacional do Material Escolar, 2a edição, 1975, verbete Castidade, página. 116.

Fonte: Vida e Castidade

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Santo Estanislau Kostka (13/11)


Santo Estanislau Kostka
Apelidado de "anjo" na infância, Estanislau Kostka atingiu a juventude guardando todas as virtudes, como um anjo realmente. Mas, não faltaram oportunidades para se entregar aos prazeres mundanos, pois pertencia a uma família polonesa nobre e poderosa.

Nascido em 28 de outubro 1550, até a idade de treze anos Estanislau viveu na casa dos pais. Aos quatorze eles o enviaram para estudar no seminário dos padres jesuítas em Viena, junto com o irmão mais velho e o tutor. Mas o seminário logo foi fechado pelo imperador Maximiliano e toda a comunidade estudantil acabou abrigada no castelo de um príncipe protestante. Aquele ambiente cheio de festas e jogos de prazeres, em nada combinava com Estanislau, que buscava uma vida de virtudes e oração, dentro da doutrina cristã.

A situação para ele era das mais inadequadas, pois o irmão e o tutor passaram a requisitar sua participação nesses jogos. Não bastasse isso, o tal príncipe protestante queria impedir os católicos de irem à missa receber a comunhão. Depois também era atormentado pelos colegas, que zombavam muito de sua preferência pela vida religiosa.

Mas a luta contra o ambiente hostil e a vida de privações a que se obrigava acabaram por minar a saúde do rapaz. Frágil, ficou doente a ponto de quase perder a vida, mas o salvaram a fé profunda e a confiança em Maria Santíssima, de quem era devoto. Durante um sonho, um anjo apareceu para lhe dar a Eucaristia, e a Virgem Mãe também, curando-o ao colocar-lhe o Menino Jesus nos braços. Maria, em sua aparição, também o convidou a ingressar na Companhia de Jesus.

Estanislau, que já pensava em ser um padre jesuíta, contou tudo à família que fora à Viena verificar como os filhos estavam vivendo e estudando. Aproveitou para dizer que queria mesmo ser um sacerdote. A oposição dos seus pais foi total. Tentou insistir mais foi inútil. Então, fugiu sozinho, a pé e vestido de mendigo para despistar se o perseguissem.

De Viena, na Áustria foi para Treves, na Alemanha, percorrendo setecentos quilômetros até chegar a uma casa provincial dos jesuítas. O provincial na época era Pedro Canísio que o recebeu com amabilidade, mas teve de enfrentar a reação do pai do jovem que ameaçou fazer expulsar todos os jesuítas da Polônia, caso o filho não voltasse ao convivo da família. Mas Estanislau se manteve irredutível.

Aos dezessete anos Estanislau foi enviado para Roma, com uma carta de recomendação ao superior geral da Ordem, São Francisco de Borja, que com carinho o encaminhou para complementar o noviciado e os estudos de teologia no Colégio Romano. Foram apenas nove meses entre os jesuítas, mas plenos de trabalho, estudo, dedicação e disciplina, exemplares. Até ser acometido por uma febre misteriosa e, no dia 15 de agosto de 1568, festa da Assunção de Nossa Senhora, ele partiu docemente ao encontro de Deus.

O seu túmulo se tornou local de muitas graças e rota de peregrinação. O Papa Bento XIII o canonizou em 13 de novembro de 1726, e designou essa data para celebrar a festa em memória de Santo Estanislau Kostka, padroeiro dos noviços.

Fonte: Catolicanet

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Tratado da Castidade - Parte VI (Final) - Santo Afonso Maria de Ligório


§ VI. DO VOTO DE CASTIDADE




I. Uma alma que cansagra a Deus a sua virgindade torna-se uma esposa de Jesus
Cristo, e por isso o Apóstolo não hesita em escrever (II Cor 11, 2): "Eu vos desposei
com um Esposo, com Cristo, para vos apresentar a Ele como virgem pura". Jesus Cristo
mesmo se dá como Esposo das virgens, na parábola das dez virgens: "Saíram ao
encontro do Esposo... e entraram com Ele para as núpcias" (Mat 25, 10). O Divino
Salvador deixa-se chamar pelos outros fiéis de Mestre, Pastor e Pai; quer, porém, ser
chamado de Esposo pelas almas virgens. Esses desponsais com o Senhor, se realizam
por meio da fé: "Eu me desposarei contigo pela fé" (Os 2, 20). A virtude da virgindade é
um fruto especialíssimo dos merecimentos de Jesus Cristo, e por isso se diz, no
Apocalipse (14, 4), que as virgens formam o cortejo do Cordeiro. A Santíssima Virgem
revelou a uma alma devota que uma esposa de Jesus Cristo deve, acima de todas as
virtudes, amar a pureza, porque ela a torna de modo especial semelhante a seu Divino
Esposo. São Bernardo diz que todas as almas justas são esposas do Senhor, "mas de um
modo particular vale isso das almas virgens", como nota Santo Antônio de Pádua. Por
isso São Fulgêncio chama a Jesus Cristo o Esposo de todas as virgens consagradas a
Deus.

Uma moça que quer permanecer no mundo e casar-se, se é prudente, se informa
com todo o cuidado a respeito dos que solicitam a sua mão, para conhecer o mais digno
e o mais capaz de torná-la feliz aqui na terra. A pessoa religiosa, por sua vez, desposase,
pelos votos, com Nosso Senhor Jesus Cristo. Procuremos a esposa dos Cânticos, que
sabe perfeitamente avaliar as qualidades desse Esposo Divino, e perguntemos-lhe:
'Quem é o vosso amado, ó santa esposa? Quem é aquele que possui todo o vosso
coração e vos tornou a mais feliz das mulheres?' Ela responde: 'Meu Amado é branco e
vermelho: é branco por Sua pureza, e vermelho pela chama do amor em que se abrasa
por Sua esposa; em uma palavra, Ele é tão belo, tão perfeito em todas as virtudes, que
não há nem pode haver um outro esposo mais nobre ou mais amoroso que Ele'. "Nem
quem O iguale em Sua grandeza, nem em Sua beleza, nem em Sua generosidade", diz
Santo Euquério. Por isso escreve Santo Inácio de Antioquia: "Aquelas bem-aventuradas
virgens, que se consagraram a Jesus Cristo, podem estar certas de que não encontrarão,
nem no céu nem na terra, um esposo tão belo, tão nobre, tão rico, tão amável como
Aquele que lhes foi dado, Jesus Cristo".


Santa Clara de Montefalco dizia que prezava tanto sua virgindade, que antes
quereria sofrer durante toda a sua vida as penas do inferno, do que perder esse valioso
tesouro. Com toda a razão, pois, muitas virgens virtuosas renunciaram a casamentos
principescos para permanecerem esposas de Jesus Cristo. Santa Joana, infanta de
Portugal, renunciou à mão de Luís XI, rei da França; a Beata Inês de Praga, à do
imperador Frederico II; Isabel, filha do rei da Hungria e herdeira do reino, à de
Henrique, arquiduque da Áustria, e muitas outras procederam do mesmo modo.
Uma virgem que se consagra ao Senhor, diz Teodoreto, está livre de todo o
cuidado inútil. Não tem outra coisa a fazer senão entreter-se contínua e familiarmente
com Deus. Isso indica o Apóstolo quando diz que a virgem "é santa no corpo e na alma"
(I Cor 7, 34); santa no corpo pela castidade, santa no espírito por seu comércio íntimo
com Deus. "Se ela não tivesse outra recompensa a esperar, diz Santo Anselmo, só por
estar livre dos cuidados seculares e não ter outra obrigação, já deveria ser tida por
sumamente feliz". Do que se vê que as virgens não só receberão uma imensa glória no
Céu, mas já serão recompensadas antecipadamente aqui na terra, com uma paz
inalterável.

As virgens que se consagram ao amor de Jesus Cristo, ofertando-Lhe o lírio da
pureza do coração, tornam-se tão agradáveis a Deus como os Santos Anjos, - certamente
um efeito sublime da castidade virginal. Todas as virgens que buscam a perfeição são
esposas queridas de Jesus Cristo, porque Lhe consagraram seu corpo e sua alma, e nada
mais buscam nesta vida que agradar-Lhe. São João foi o discípulo amado de Jesus,
porque guardou a virgindade. Justamente por esse motivo amava-o Jesus mais que aos
outros discípulos, como a Igreja o insinua quando diz: "Foi escolhido como virgem pelo
Senhor, e mais amado que todos os outros".


As virgens são chamadas, na Sagrada Escritura, as primícias de Deus: "São
virgens; esses seguem o Cordeiro aonde quer que Ele vá. Esses foram comprados dentre
os homens, para serem as primícias para Deus e para o Cordeiro" (Apoc 14, 4). Mas por
que são chamados primícias de Deus? O Cardeal Hugo responde: "Como os primeiros
frutos são mais agradáveis que os outros, assim também as virgens consagradas a Deus
agradam mais ao Coração deste e constituem o objeto de seu especial amor".
Diz-se ainda, na Sagrada Escritura, que o Esposo Divino "se apascenta entre os
lírios" (Cânt 2, 16). Esses lírios representam as virgens que conservam sua pureza por
amor de Deus. Um expositor nota o seguinte nessa passagem dos Cânticos: "Enquanto o
demônio procura a imundície da impureza, Jesus Cristo se apascenta [isto é, descansa,]
entre os lírios da castidade".

O que, porém, deve aumentar consideravelmente a nossos olhos o valor da
virgindade, é o louvor extraordinário que lhe tece o Espírito Santo, dizendo: "Tudo o
que se aprecia não é comparável a uma alma continente" (Ecli 26, 20). Isso mesmo nos
deu a entender a Santíssima Virgem, quando disse ao Arcanjo que Lhe anunciava a
divina maternidade: "Como se dará isso, se não conheço varão?" (Lc 1, 14). Maria, com
essas palavras, mostrou que preferiria renunciar à dignidade de Mãe de Deus, a perder o
tesouro de Sua virgindade.


Segundo São Cipriano, a pureza virginal é a rainha de todas as virtudes e o
complemento de todos os bens. Santo Efrém escreve que as virgens que guardam a sua
pureza por amor de Jesus Cristo, serão favorecidas por Ele em todos os pontos. São
Bernardo acrescenta que a virgindade habilita a alma, de um modo todo especial, a ver o
Divino Esposo nesta vida pela fé, e na outra pela luz da glória.
Imensa é a glória que Jesus Cristo prepara no Céu às Suas esposas que na terra
Lhe consagraram sua virgindade. Nosso Senhor mostrou um dia à Sua grande serva
Lucrécia Orsini os sublimes tronos que ocuparão aqueles que serviram a Jesus Cristo
em pureza virginal. Ao que exclamou ela: "Oh! Quão agradáveis não são a Jesus e a
Maria as virgens!" Os teólogos afirmam que as virgens receberão no Céu uma auréola
especial, sendo ornadas com uma luzente coroa de honra e glória, pois se diz na Sagrada
Escritura, a respeito das virgens: "Ninguém podia cantar esse cântico, senão aqueles
cento e quarenta e quatro mil que foram comprados na terra". Explicando essa
passagem, diz Santo Agostinho que a glória que Jesus Cristo concede às Virgens não
confere aos outros Santos.


II. Grande é a satisfação de Jesus Cristo quando alguém se associa ao número de
Suas esposas. Isso declaram aquelas palavras dos Cânticos: "Vinde, ó filhas de Sião, e
vede o rei Salomão com o diadema com o qual o coroou sua mãe no dia de suas
núpcias, no dia da alegria de seu coração" (Cânt 3, 11). Isso, porém, vale só daquelas
almas que se consagraram sem restrição ao amor do Esposo Divino. Desposando Jesus
uma tal alma, quer que todo o Céu se alegre com Ele e entoe hinos de regozijo:
"Alegremo-nos e exultemos e demos-Lhe glória, porque são chegadas as bodas do
Cordeiro e Sua esposa está ornada" (Apoc 19, 7). Os ornatos com que Jesus quer ver
ataviadas Suas esposas são as virtudes, particularmente o amor e a pureza, que são
apresentadas nos Cânticos como coroas de prata e de ouro: "Nós te faremos umas
cadeias de ouro listradas de prata" (Cant 1, 10). São estas as vestes pomposas e as jóias
com que o Senhor atavia Suas esposas, e das quais fala Santa Inês: "Ele circundou
minha direita e meu pescoço com um colar de pedras preciosas, revestiu-me com um
hábito bordado a ouro e ornado com artísticos relevos e deslumbrantes adornos".
Os seculares buscam coisas terrenas, mas as esposas de Jesus Cristo nada mais
querem senão Deus; por isso delas se pode afirmar ao pé da letra: "Esta é a geração dos
que buscam a Deus" (Sl 23, 6). "Ó esposas do Redentor, exclama São Tomás de
Villanova, não deveis buscar qual de vós sobrepuja as outras por seu nascimento, seus
talentos ou fortuna; examinai, antes, quem é mais agradável ao Esposo Divino, quem
vive unida mais intimamente a Ele, quem é mais humilde, pobre e obediente". Ouçamos
também o que diz o Espírito Santo: "Filho, quando entrares ao serviço de Deus...
prepara tua alma para a tentação" (Ecli 2, 1), para sofreres com humildade e paciência,
pois "o ouro e a prata se provam no fogo, e os homens que Deus quer receber, na
fornalha da humilhação" (Id. v. 5). "Ninguém pode servir a dois senhores" (Mat 6, 24),
a Deus e ao mundo. quem, portanto, quiser consagrar-se a Deus deve renunciar ao
mundo, e quem quiser tornar-se esposa de Jesus Cristo deverá exclamar
incessantemente: "Deus só é todo o meu tesouro e meu único bem".
São José de Calazans diz que, se não se der a Jesus todo o coração, não se Lhe
deu nada. Isso é inteiramente verdade, porque nosso coração já é em si muito pequeno
para amar dignamente a um Deus que merece um amor infinito; e esse pequeno coração
deveria ainda ser dividido entre Deus e as criaturas?

Como poderás, pois, tu, alma cristã, te incomodares com o mundo, depois de te
consagrares a Deus? Esquece de tudo o mais e procura guardar o teu coração inteiro
para teu Divino Esposo, que escolheste para Lhe dedicares todo o teu amor. Eu disse:
teu coração inteiro, porque Jesus Cristo quer que Sua esposa seja "um jardim fechado e
uma fonte selada" (Cânt 4, 12); um jardim fechado, pois não deve receber a ninguém
mais senão a seu Divino Esposo; uma fonte selada, porque esse Divino Esposo é zeloso
e não permite que encontre entrada no coração de sua esposa outro amor que o amor por
Ele. Por isso diz-Lhe: "Quero que me coloques como um selo sobre teu coração e sobre
teu braço" (Cant 8, 6), para que a ninguém mais ames senão a Mim, e para que todos os
teus atos sejam feitos com a única intenção de Me agradares. O Amado é colocado
como um selo sobre o coração e o braço, diz São Gregório, quando a alma mostra por
sua vontade (isto é, o coração) e por suas ações (isto é, o braço), quanto ama a seu
celeste Esposo.



Quando o amor divino reina numa alma, expulsa toda a afeição que não se refere
a Deus, pois "o amor é forte como a morte" (Id. it.). Como nada há que possa resistir à
veemência da morte quando é chegada a sua hora, assim também não há nenhum
impedimento e nenhuma dificuldade que não seja superada pelo amor divino, quando
ele se apodera de um coração. "Se um homem der todas as riquezas de sua casa, ele as
desprezará como se nada tivesse dado" (Id., v. 7). Um coração que ama a Deus,
despreza tudo o que lhe oferece e pode oferecer o mundo; numa palavra, ele despreza
tudo o que não é Deus. São Bernardo diz que Deus, como nosso Senhor, exige de nós
temor; como Pai, respeito; como Esposo, porém, unicamente amor.

A Venerável Francisca Farnese não conhecia meio mais eficaz para estimular a
si e às suas companheiras a tender à perfeição, do que a recordação de que eram esposas
de Jesus Cristo. Está fora de dúvida, dizia ela, que cada uma de vós foi escolhida por
Deus para se tornar santa, pois que vos concedeu agrande honra de vos fazer Suas
esposas. E, de fato, é essa uma graça inapreciável, que exige uma fiel cooperação. Santo
Agostinho escreveu a uma virgem consagrada a Deus: "Tens um Esposo que é mais
belo que tudo o que existe no Céu e na terra, e que te deu um penhor seguro de Seu
amor escolhendo-te para Sua esposa. Podesc oncluir disso quão obrigada estás a pagar o
Seu amor". Ó esposa de Jesus Cristo, não te ocupes mais contigo e com o mundo; não
pertences mais ao mundo, nem a ti mesma, mas a Deus; e cuida unicamente em viver
para esse Esposo que escolheste.

Escolheste a Deus por Esposo, mas primeiramente te escolheu o Senhor para Sua
esposa. Quantas almas não deixou Ele no mundo, não lhes concedendo os favores que a
ti fez? O Salvador preferiu-te a todas essas almas, não por seres mais digna, mas por te
amar mais que às outras. Por isso te diz o Senhor, pela boca do Profeta (Ez 16, 8), que o
tempo que te resta de vida é "um tempo para amar". Deves ligar-te a Jesus, teu Esposo,
com toda a tua confiança e, com todo o teu amor, prender-te a Ele, que te amou desde a
eternidade, que te criou por Sua bondade, e te chamou a Seu santo amor por meio de
tantas graças especiais. Por isso, se o mundo solicitar o teu amor, ó esposa de Jesus
Cristo, diz-lhe com Santa Inês: "Aparta-te de mim, pábulo da morte. Desejas o meu
amor, mas eu não posso amar a mais ninguém do que a meu Deus, que me amou
primeiro". "Porque és a esposa de um Deus, diz São Jerônimo, reveste-te de um santo
orgulho". Os seculares se orgulham de sua união com pessoas nobres e ricas; tu, porém,
podes te gloriar de uma sorte muito melhor, porque te tornaste esposa de um Rei
Celeste. Dize, pois, cheia de alegria e santo orgulho: "Achei a quem meu coração ama;
prende-lo-ei com meu amor e não O largarei mais" (Cant 3, 4).

De fato, é uma imensa felicidade para uma virgem quando ela pode gloriar-se e
dizer: "Aquele a quem os Anjos do Céu desejam servir, é meu Esposo. Meu Criador
escolheu-me para Sua esposa, e, como Ele é o Rei e o Senhor do mundo, cingiu-me
igualmente com uma coroa de rainha".
Deves saber, entretanto, ó esposa do Senhor que lês esses louvores, que não
possuis irrevogavelmente essa coroa enquanto permaneceres aqui na terra; poderás
perdê-la novamente por tua culpa; para que ninguém ta roube, segura-a fortemente
(Apoc 3, 11). Renuncia às criaturas, une-te cada vez mais intimamente a Jesus Cristo
pel oamor e pela oração, e suplica-Lhe sem cessar que não permita que te tornes outra
vez infiel. Deves dizer-Lhe: Ó Jesus, meu divino Esposo, não permitais que me separe
de Vós.

E quando as criaturas quiserem apoderar-se de teu e daí expulsar Jesus Cristo,
dize desassombradamente com o Apóstolo, confiada na assistência divina: "Quem me
separará do amor de Jesus Cristo? Nem a morte, nem a vida, nem criatura alguma será
capaz de nos separar do amor de Deus" (Rom 8, 35).



[Nota: Quando o Santo Doutor fala da santa virgindade, refere-se às almas, tanto
das mulheres quanto dos homens]

(SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Escola da Perfeição Cristã,
compilação de textos do Santo Doutor pelo padre Saint-Omer, CSSR, tradução do padre
José Lopes, CSSR, IV Edição, Editora Vozes, Petrópolis: 1955, páginas 186-204 e 338-
343).

domingo, 4 de novembro de 2012

Symphonia Virginium


Óbviamente, esta belíssima oração pode ser adaptada para ser recitada por nós homens.
“Ó amante cheio de doçura, de dóceis abraços, ajuda-nos a conservar nossa virgindade. Fomos formadas do pó, ai!, ai!, e no crime de Adão. Bem duro é contradizer o gosto que o fruto tem. Dá-nos coragem, ó Cristo, Salvador. Nós desejamos ardentemente seguir-te. Ó como é gravoso, para nós miseráveis, a ti imaculado e inocente Rei dos Anjos imitar. Confiamos em ti, todavia, pois é teu desejo a pedra preciosa permanecer sem putrefação. Invocamos-te agora, Esposo e consolador, que nos redimiste na cruz. Por teu sangue comprometidas somos para ti esposas repudiando homem para te preferir a ti Filho de Deus. Ó belíssima forma, ó suavíssimo perfume de desejáveis delícias, sempre por ti suspiramos no exílio das lágrimas, na esperança de contemplar-te e contigo permanecer. Nós estamos no mundo e tu em nossa mente, abraçamos-te no profundo coração quase como se foras presente. Tu, fortíssimo leão, rompeste o céu para descer ao útero duma Virgem e destruíste a morte para elevar a vida à cidade de ouro. Concede-nos habitar dentro de seus muros e permanecer contigo, dileto Esposo, pois nos livrastes das fauces do Diabo, que seduziu nossos primeiros pais.”
(SYMPHONIA VIRGINUM, de Santa Hildegard von Bingen, Doutora da Igreja).


Fonte: O Camponês

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Tratado da Castidade - Parte V - Santo Afonso Maria de Ligório



§ V. DA VIRGINDADE
São Cipriano (De disc. et hab. virg.) denomina a multidão de virgens que se
consagram ao amor de seu Divino Esposo, de "a mais nobre porção da Igreja de Cristo".
Vários outros Santos Padres, como Santo Efrém, Santo Ambrósio, Santo Agostinho,
São Jerônimo, São Crisóstomo, escreveram livros inteiros em louvor da virgindade.
Não é minha intenção expor aqui todos os méritos e vantagens que adquirem as
pessoas que consagraram a Deus sua virgindade; disso tratarei extensamente no capítulo
IV da III parte, que trata do voto de castidade [que reproduzimos logo abaixo]. Aqui
farei seguir, simplesmente, uma instrução para os que levam uma vida virginal sem
terem emitido o voto de castidade.
As almas virgens são extraordinariamente belas aos olhos de Deus: "Serão como
os Anjos de Deus no Céu" (Mat 22, 30). Barônio conta que na morte de uma virgem,
chamada Geórgia, uma multidão de pombos adejavam ao redor da casa e, quando seu
cadáver foi transportado à igreja, pousaram no teto, exatamente em cima do lugar onde
se achava o caixão, e daí não se retiraram até ser sepultada a piedosa virgem (An. 480).
Essas pombas certamente eram Anjos, que queriam prestar as últimas honras àquele
corpo virginal.
As almas virginais, que renunciaram ao casamento para se dedicarem
exclusivamente ao amor de Jesus Cristo, tornam-se esposas do Filho de Deus. Nos
Santos Evangelhos, Jesus Cristo é chamado Pai, Mestre, Pastor das almas; referindo-se
às virgens, porém, dá-Lhe o nome de Esposo: "Elas saíram a receber o Esposo e a
Esposa" (Mat 25, 1). Por isso, tinha razão Santa Inês, respondendo, segundo Santo
Ambrósio, aos que lhe ofereciam a mão do filho do prefeito de Roma: "Ofereceis-me
um esposo? Já encontrei um muito melhor" (De virg., 1. 1). Semelhante resposta deu
Santa domitila, sobrinha do imperador Domiciano, aos que queriam persuadi-la a casarse
com Aureliano: "Dizei-me: a quem deveria escolher por esposo uma jovem pedida
em casamento por um monarca e por um camponês? Para casar-me com Aureliano, teria
de renunciar ao Rei do Céu. Ora, isso seria uma loucura inominável, que nunca
praticarei". E, firme nessa resolução, deixou-se queimar viva, para poder permanecer
fiel a Jesus Cristo, a Quem consagrara sua virgindade.
Quem poderá imaginar a glória que Deus reserva a Suas castas esposas lá no
Céu? Os teólogos são de opinião que no Céu existe uma glória especial reservada às
virgens, uma coroa ou alegria particular, de que estão privados os outros Santos.
Mas, dir-me-á uma ou outra jovem: 'Ora, casando-me também poderei santificarme'.
Não receberás a resposta da minha boca, mas da de São Paulo, que te dirá também
a diferença que existe entre as virgens e as casadas: "A mulher virgem pensa nas coisas
que são do Senhor, para que seja santa no corpo e no espírito. Mas, a que é casada,
pensa nas coisas que são do mundo, em como agradar ao marido. Em verdade, digo isso
para vosso proveito... para vos exortar ao que vos convém e vos facilita a orar ao Senhor
sem embaraço" (I Cor 7, 34).


Deve-se, pois, notar que as casadas, sem dúvida alguma, podem ser santas
segundo o espírito, ao passo que as virgens, que amam a Deus, o são de corpo e espírito.
Tome-se também em consideração estas palavras: "O que facilita servir a Deus sem
impedimento". Quantos impedimentos não encontram as casadas na sua tendência à
santidade! E esses obstáculos são tanto maiores, quanto mais elevada a sua condição
[social].
Para nos fazermos santos temos de empregar os meios e, antes de tudo, nos
consagrar à oração mental, receber amiúde os Santos Sacramentos, e pensar sem
interrupção em Deus. Ora, quando uma senhora casada achará tempo para cuidar
naquilo que é do Senhor? Ela se ocupará com as coisas deste mundo, diz São Paulo,
cuidará em agradar a seu marido, olhará pelas necessidades de sua família, pelo seu
sustento e vestes, vigiará a educação de seus filhos, atenderá aos parentes e amigos,
pensará continuamente nos seus afazeres; seu coração ficará assim dividido entre seus
filhos, seu marido e Deus. Como encontrar tempo para se entregar a longas orações
mentais, para receber muitas vezes a Comunhão, se nem lhe resta tempo para cuidar de
todas as obrigações de sua casa e estado? O marido quer ser atendido, os filhos gritam e
choram, querendo mil coisas diversas. Como meditar entre tantos cuidados e
perturbações? Muitas mães de família nem mesmo aos domingos podem ir à igreja. É
verdade, ela pode conservar a sua boa vontade, mas sempre lhe será custoso cuidar,
como convém, do que é do Senhor. Não há dúvida de que pode adquirir grandes
merecimentos em razão de tais provações, entregando-se à Vontade de Deus que, em
tais condições, não que mais do que um sacrifício perene de resignação e paciência;
mas, no meio de tantas distrações e tribulações, é quase impossível, é mesmo heroísmo,
praticar a virtude da paciência e conformidade, sem o exercício da oração e a recepção
dos Sacramentos... Mas, prouvera a Deus que as senhoras casadas nada mais tivessem a
deplorar que a falta de tempo necessário para seus exercícios de piedade.
A m´s conduta do marido, os desgostos causados pelos filhos, os negócios da
casa, as molestas atenções que se devem à sogra e aos cunhados, as suspeitas, as
inquietações de consciência quanto à vida conjugal e educação dos filhos, tudo isso
origina um mar de tribulações, no qual passam sua vida entre suspiros e lágrimas. E
felizes se conseguirem salvar sua alma e alcançarem de Deus a graça de não deixarem o
inferno desta vida para se precipitarem no inferno eterno! Esta é a bela sorte das jovens
que se consagram ao mundo... [grifo do original]
Mas, entre tantas mulheres casadas, não haverá uma só que se santifique? Sim,
existem também Santas casadas. Porém, quais são estas? As que se santificam pelo
martírio, que sofrem tudo por amor de Deus, com uma paciência que nada abala. Mas,
quantas se elevarão a tal perfeição? Ah! Mui poucas. E se encontrares uma tal, verás
que deplora amargamente ter escolhido o partido do mundo, tendo podido, com tanta
facilidade, consagrar-se a Jesus Cristo.
Verdadeiramente felizes são aquelas virgens que se consagram por inteiro e
exclusivamente ao seu Divino Salvador. Estas estão livres dos perigos em que se achão
as casadas. Seu coração está desembaraçado do apego aos filhos e marido, aos bens
transitórios, ao luxo vão ou a outras coisas do mundo.
E, quando as mulheres casadas se vêem obrigadas a empregar muitos cuidados e
grandes somas com seu traje, para aparecer ao mundo à altura de sua posição e agradar
a seu marido, a virgem que se consagrou a Jesus Cristo se contenta com um vestido
simples e desataviado, pois, do contrário, daria escândalo. Todos os seus pensamentos e
cuidados tendem a agradar a Jesus, a quem dedicou seu corpo, sua alma, seu amor todo.
Assim, possui ela também mais liberdade de espírito para pensar em Deus e mais tempo
para se entregar à oração e receber os Sacramentos.
Se não te sentes chamada, alma cristã, ao estado conjugal, nem ao religioso, mas
desejas fazer-te santa no mundo, como verdadeira esposa de Jesus Cristo, toma a peito
os seguintes conselhos: Para a santificação, não é suficiente que uma virgem traga
ilibada a sua pureza e use o nome de esposa de Jesus Cristo; é preciso também praticar
as virtudes de uma esposa de Jesus. No Evangelho é o reino dos Céus comparado a
umas virgens. Mas que virgens? Às virgens prudentes e não às loucas. Aquelas foram
introduzidas na sala das núpcias; a estas foi a porta fechada e ouviram do Esposo: Não
deixais de ser virgens, mas eu não vos reconheço por esposas minhas. As verdadeiras
esposas de Jesus seguem o Esposo para onde quer que Ele vá (Apoc 14, 4). que quer
dizer seguir o Esposo? Santo Agostinho explica que é prender-se a Ele (De s. virg., c.
7). Depois de Lhe teres sacrificado teu corpo, deves ainda consagrar-Lhe todo o teu
coração, de tal forma que só te ocupes em amá-lO. Para isso, deves empregar os meios
para pertencer exclusivamente a Ele.
O primeiro é a oração mental, a que te deves dedicar com todo o zelo. Não
julgues que, para isso, é necessário se recolher a um convento ou passar todo o dia na
igreja. Não há dúvida que em uma casa de família há barulho e perturbações de pessoas
que entram e saem; mas quem tem boa vontade encontra sempre jeito e tempo para
fazer suas orações; por exemplo, de manhã, antes de se levantarem as pessoas da casa,
ou de noite, depois de já se terem recolhido. Também não se requer que se esteja sempre
de joelhos; podem-se recitar as orações durante o trabalho ou caminhando; basta elevar
o pensamento a Deus, pensar na Paixão de Cristo ou meditar sobre qualquer outro
assunto devoto.
O segundo meio é a recepção assídua dos santos sacramentos da Penitência e
Eucaristia. (...) Quanto à Comunhão, não é muita coisa se for recebida só por
obediência; deve-se ter deselo delA, e pedi-lA. Esse Divino Pão quer ser desejado e que
se tenha fome dEle. A Comunhão é que faz com que as esposas de Jesus permaneçam
fiéis a seu Divino Esposo, já que a Ela devem em especial a conservação de sua pureza.
Este Divino Sacramento conserva na alma toda espécie de virtudes, sendo, porém, seu
efeito principal, conservar ilibado o lírio da virgindade, dando-Lhe o profeta, por isso, o
nome de "nutrimento dos escolhidos e vinho que gera virgens" (Zac 9, 17).
O terceiro meio é o recolhimento e a vigilância. O Divino Esposo compara Sua
esposa com um lírio entre os espinhos (Cânt 2, 2). Uma donzela que quer viver na
sociedade, entre divertimentos e distrações mundanas, não poderá permanecer fiel a
Jesus Cristo. Deve, pelo contrário, estar sempre circundada dos espinhos da abstinência
e mortificações, e guardar, em especial no trato com homens, a maior reserva, e rigorosa
modéstia dos olhos e palavras e, mesmo, se necessário, mostrar-se austera e descortês.
Os espinhos são o que protegem os lírios, isto é, as virgens; sem eles, perder-seão
em pouco tempo. O Senhor compara a beleza de Sua esposa com a da pomba (Cânt
1, 9). Por quê? Porque a pomba, por instinto natural, evita a companhia dos outros
pássaros. Assim, uma virgem é bela aos olhos de Jesus, se leva uma vida retirada e se se
esconde, quanto possível, aos olhos do mundo. São Jerônimo diz (Ep. ad Eust.) que o
Esposo das almas é cioso. Desgosta-se muito, por isso, de uma virgem que, depois de se
haver consagrado ao Seu amor, gosta de mostrar-se e procura agradar aos homens.
Pessoas verdadeiramente virtuosas preferem desfigurar-se a si mesmas a tornarse
objeto de amor criminoso. Se, por desgraça, acontecer tornar-se uma virgem vítima
de uma violência qualquer, sem culpa sua, não deve inquietar-se com isso, já que sua
pureza não fica alterada. Foi o que Santa Lúcia respondeu ao tirano que a ameaçava de
entregá-la ao prostíbulo: "Se eu for desonrada contra minha vontade, receberei uma
coroa dupla". Com razão se diz: Não o sentimento, mas o consentimento fere a alma.
Além disso, podemos ficar convencidos que uma virgem modesta e reservada saberá
também fazer-se respeitar.
O quarto meio é a mortificação dos sentidos. Uma virgem que quer conserva-se
pura, diz São Basílio, deve ser pura na língua, falando sempre com decoro e, se for
necessário tratar com homens, só dizer o indispensável; pura nos ouvidos, evitando
ouvir conversas mundanas; pura nos olhos, conservando-os fechados ou, ao menos,
baixos, quando na companhia de homens; pura no tato, usando do máximo cuidado
quanto aos outros e quanto a si mesma; pura principalmente no espírito, esforçando-se
por resistir aos maus pensamentos, recorrendo a Jesus e Maria.
Para conseguir isso, é preciso que ela mortifique seu corpo com jejuns e outras
penitências. Jesus Cristo é um 'Esposo de Sangue' (Ex 4, 26), que desposou nossa alma
na ara da Cruz e, por amor dela, derramou até a última gota de Sangue. Por esse motivo,
Suas esposas suportam angústias, doenças, dores, maus tratos e injúrias, não só com
paciência, mas até com alegria. Assim deve-se entender o texto da Escritura, que diz:
"As Virgens seguem o Cordeiro para onde quer que Ele vá" (Apoc 14, 4). Elas seguem
jubilosas e cantando a Jesus, seu Divino Esposo, mesmo no meio dos opróbrios e penas,
a exemplo de milhares de virgens que foram ao encontro da morte e das torturas, cheias
de alegria.
Finalmente, deves recomendar-te instantemente a Maria, a Rainha das Virgens,
se quiseres perseverar no teu estado de virgindade perpétua. Ela é que prepara e conclui
a união das almas com Seu Divino Filho; Ela que alcança para essas almas escolhidas a
graça da preseverança, pois, sem a Sua assistÊncia, todas tornar-se-iam infiéis.
Vós, que ledes estas linhas, - dirijo-me àquelas que se sentem chamadas pelo
Divino Esposo a renunciar ao Matrimônio - vós, que quereis pertencer a Jesus Cristo,
não vos obrigueis desde logo por um voto, nem façais, logo no começo, o voto de
castidade perpétua; fazei esse voto quando Deus vo-lo inspirar e o confessor o permitir.
Aconselho-vos, porém, que agradeçais a Jesus Cristo, vos ter chamado a Seu especial
amor, e vos ofereçais ao Senhor como coisa que Lhe é consagrada e própria para todo o
sempre. E, por isso, dizei-Lhe assim: Ó meu Jesus, meu Deus e Salvador, que por mim
morrestes, perdoai-me se também eu ouso chamar-vos meu Esposo. Ouso porque vejo
que Vos agrada chamar-me a essa honra. Essa graça é tão grande, que não Vo-la posso
agradecer suficientemente. Eu merecia estar agora ardendo no inferno, porém, em vez
de me castigar, escolheis-me para esposa Vossa. Pois bem, meu Divino Salvador, eu
renuncio ao mundo, eu renuncio a tudo por amor de Vós e a Vós me entrego inteira e
irrevogavelmente. De hoje em diante sereis meu único bem, meu único amor. Vejo que
quereis possuir meu coração inteiro: ei-lo, entrego-o sem restrição. Aceitai meu
sacrifício e não me repulseis como eu mereceria. Esquecei-Vos de todas as ofensas que
Vos tenho feito até hoje: detesto-as de todo o coração. Ah! Tivesse eu morrido antes de
Vos haver ofendido! Perdoai-me em Vosso amor, e concedei-me a graça de Vos
permanecer fiel e nunca mais Vos abandonar. Vós, ó meu Esposo, Vos entregastes todo
a mim; eis-me aqui, eu também quero entregar-me toda a Vós. Ó Maria, minha Rainha e
minha Mãe, prendei meu coração ao Coração de Jesus Cristo; ligai-me tão fortemente a
Ele, que nunca mais possa desprender-me de Vosso Divino Filho.


Fonte: Tratado da Castidade, Santo Afonso Maria de Ligório

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Verdadeiros heróis!


Num excesso de orgulho exclamou uma dia um Imperador romano: "Seria bastante bater com o pé na terra para dela surgirem legiões de combatentes".
Bastou bater Cristo com o pé no solo para desde logo surgirem legiões e legiões de virgens!

Ele é que operou este prodígio.
Só e não outro o fez.
Só Ele o podia fazer.

Ele "a Pureza das virgens", Ele o Imaculado, e Filho da Imaculada, Ele quem amou com amor de preferência a João, o Apóstolo virgem e lhe concedeu, durante a Última Ceia, repousar tão perto de si a cabeça que podia ouvir em seu peito as pulsações do Coração Divino, Ele que reserva aos Virgens, no Céu, um lugar especial ao lado do Cordeiro sem manchas, e lhes concedeu cantarem um cântico místico, que só os Virgens sabem repetir. Ele unicamente pode alcançar da fraqueza humana este admirável triunfo do espírito sobre a matéria e que, com toda propriedade, se chama heroísmo.

Sim, heroísmo: e de tal modo que muitos santos não hesitam em pôr em paralelo o casto com o anjo, e na comparação, dão a palma de glória da vitória ao primeiro.

Santo Ambrósio, no tratado sobre a Virgindade, exclama: 
"Os anjos vivem sem carne, os virgens triunfam da carne". 

"É mais belo conquistar a glória angélica que tê-la recebido por natureza. O homem alcança a virgindade pela luta e com muitos esforços e o anjo a possui muito naturalmente".
(São Pedro Crisólogo).

O casto não desce a pactuar com o vício. Direis que também o anjo não desce a essa baixeza? mas onde está o heroísmo de não cair no pecado da carne, quando se não tem carne?

"Eles, os anjos, não estão sujeitos as paixões: e nem o canto efeminado e nem as músicas mundanas e nem a beleza das mulheres os podem seduzir".
 (São João Crisólogo)

"Há entre o homem casto e o anjo, esta diferença: A castidade do anjo é mais feliz, a do homem é mais heróica." 
(São Bernardo; Ep. 24)

Todas as virtudes são belas, a castidade contudo é chamada por antonomásia "bela virtude" porquanto espiritualiza, digamos assim, os nossos corpos de barro. Grandemente comovedor é em gentes, aos olhos do mundo, de pouco ser, ver brilhar nelas essa virtude "angélica", que Tertuliano qualifica de "caro angelicata".

Realiza-se neles a palavra de Cristo: 

"São como anjos de Deus no Céu."
(Mat., 22)

Fora-lhes necessário emprenhar-se em mil lutas, mas isto longe de ser humilhante é o que lhes constitui verdadeiro mérito. O imaculado é um triunfador, é um herói.

É o homem forte por excelência.

Jovem! Poderás ser atleta, ufanar-te com o título de primeiro "keeper", de campeão dos "forwards"!
Se entrando á noite, em casa, não tiveres a coragem de resistir a vil paixão, não passas de um covarde, herói dos esportes...

E tu, pelo contrário, frágil criança, tu jovem pálido, sem músculos para jogar os haltéres, tu que nem ao menos sabes distinguir (que lástima!) um "hands," de um "penalty" de um "corner", mas sabes muito bem refrear tuas paixões, tu sim, é o verdadeiro valente, e a teus pés o gigante, de que antes falamos, nem é digno de te desatar as correias dos sapatos.

Homem, sim, és tu!
A pureza, como a virtude, não tem de feminino senão o nome!

(A Grande Guerra - Pe. Hoornaert - págs. 44 a 46)
Fonte: A Grande Guerra
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