Foi a corrupção do coração que levou
teu camarada à incredulidade. Essa contradição contínua que ele acha
entre a fé e sua própria vida, o remorso perpétuo que ele sente na alma,
a angustia incessante a este pensamento: Se há um Deus, se ele me pedir
um dia conta dos meus atos, dos meus pensamentos, ai de mim! Como seria
bom que não houvesse Deus... Talvez não haja... Sim, não há, não... não
há Deus.
Posso dizer com toda certeza que, se as leis morais graves
e áusteras emanassem não da religião, porém da álgebra ou da física,
ninguém no mundo seria descrente, antes, pelo contrário, haveria alguns
para duvidar dos princípios da álgebra e da física, em nome do
"progresso"
Que a increduliade seja a resultante da decadência moral,
é uma averiguação provada pelo fato de a descrença andar de parelha com
os anos da juventude, com a idade das paixões, e desaparecer com estas
últimas. A criança não é descrente: sente-se mesmo tão feliz com Deus! O
velho quase não é descrente, a religião e a fé são-lhe a última
esperança. Mas o entre-tempo é a época procelosa das paixões, à qual
convém bem esta afirmação de Pascal: "O coração tem razões que a razão
não conhece". Sim, o coração corrompido pode ser incrédulo, mas a razão
esclarecida nunca o é. Ninguém fica ateu, mas só aquele que tem razão
para que não haja Deus.
O jovem que na idade do seu desenvolvimento
físico sabe conservar a pureza de sua alma, permanece isento de dúvidas
contra a fé. Mas, em compensação, confesso que aquele que leva uma vida
impura, não tem mais gosto pela oração, acha incômodas as práticas
religiosas, depois a religião no seu conjunto, e finalmente perde a fé.
Infalivelmente tem que perder a fé. A ruína moral que se produz dentro
dele, a sua vida depravada, ele se esforça por justificá-las com o
auxílio de máximas filosóficas, de livros, de sofismas, de teorias
científicas; busca nos livros, como consequência, uma justificação
teórica de seu ateísmo, ateísmo que, em face do Deus santo que pede a
cada um de nós a santidade, ele já pratica há muito tempo por uma vida
de pecado.
A vida pura não é só uma consequência, mas também uma
condição da fé. Para que a razão não se torne pagã, é necessário que o
coração já o não seja antes. "Conservai vossa alma em estado de desejar a
existência de Deus, e não lhe duvidareis da existência". (Rousseau)
Já ouviste o que dizem do avestruz? Quando ele é perseguido, esconde a
cabeça na areia, e, como não vê seu inimigo, crê que este não existe.
Não sei se esses jovens "descrentes" não escondem a cabeça diante de
Deus: naõ vêem a Deus, não querem vê-Lo; mas isto não quer dizer que de
fato não há Deus. Quantos jovens não se compelem realente à descrença,
unicamente para não serem obrigados a mudar de vida? Porque é que o
pecador não quer pensar em Deus? Porque sente que contraiu grandes
dívidas para com Deus; cada qual evita aniosamente a casa do seu credor.
Contrariamente, o jovem de alma pura como um lírio manifesta uma fé
ardente, porque repousa sobre o peito do Senhor Jesus. Um grande
conhecedor da humanidade, La Bruyère, escreveu (Caractéres, 16): "Eu
quisera ver um homem sóbrio, moderado, casto, equtativo, pronunciar que
não há Deus; falaria pelo menos sem interesse: mas esse homem não se
acha".
Para quantos jovens se tem renovado literalmente aquilo que o
célebre escritor François Coppé escreveu, após a sua conversão, no
prefácio do seu livro "Dor bendita": Fui educado cristãmente e, depois a
minha primeira comunhão, cumpri os meus deveres religiosos durante
vários anos com ingênuo fervor. Foram, digo-o francamente, a crise da
adolescência e a vergonha de certas confissões que me fizeram renunciar
aos meus hábitos de piedade. Muitos homens que estão neste caso
conviriam, se fossem sinceros, em que o que o afastou ppriemeiro da
religião foi a regra severa que ela impõe a todos, do ponto de vista dos
sentidos, e que só mais tarde foi que eles pediram à razão e à ciência
argumentos metafísicos que lhes permitissem não mais se incomodarem".
"Bem-aventurados os que têm o coração puro, porque verão a Deus", disse
Nosso Senhor. E os que têm o coração corrompido? Só verão do mundo os
gozos sensuais, a podridão, as espurícias, as libertinagens, as
batalhas.
"Senhores, dizia o ilustre escritor Chateaubriand numa
sociedade cultivada: ponde a mão no coração e dizei-me por vossa honra:
não teríeis a coragem de crer se tivésseis a coragem de viver castos?"
Cada vez que ouço falar de um jovem descrente, do seu "juízo
esclarecido", sou obrigado a me lembrar desta palavra de Santo
Agostinho: Nemo incredulus, nisi impurus. Ao moço descrente posso dar,
com toda tranquilidade este conselho de Pascal: Se quiserdes ficar
convencidos das verdades eternas, não multipliqueis as provas, mas
extirpai as vossas paixões". Rompei com o pecado - e amanhã tereis uma
fé robusta.
Tithamer Toth, A Casta Adolescência