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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tratado das Tentações, Capítulo 4: Meio para reconhecer que não se consentiu na tentação





CAPITULO IV.

MEIO PARA RECONHECER QUE NÃO SE

CONSENTIU NA TENTAÇÃO.

Sem dificuldade convimos que, em si mesma, a tentação não é um mal, e que só o consentimento faz o pecado. O que produz embaraço e causa uma viva inquietação às almas que Deus põe nessa provação e que conduz pela via penosa das tentações, é que elas quase sempre temem ofender a Deus; e que, não havendo refletido bastante sobre esta matéria, não têm princípios para se tranquilizarem: não sabem distinguir a tentação do consentimento. Essa incerteza em que elas estão de haverem aderido à tentação lança-as numa perplexidade que as faz sofrer muito, que lhes faz perder a paz interior, que lhes debilita a confiança confrangendo-lhes o coração e que as impede de ir a Deus com liberdade, finalmente que as lança num desânimo extremo e lhes abate inteiramente as forças. Algumas reflexões poderão esclarecer as vossas dúvidas sobre este ponto, e pôr-vos em estado de decidir-vos.

Nós não somos inteiramente senhores de nossa mente e do nosso coração. Não podemos impedir que certas idéias, certos sentimentos nos ocupem. Às vezes mesmo eles nos ocupam de súbito tão fortemente, que a alma é arrastada a seguir um pensamento, um projeto, sem o perceber. A preocupação é tão grande, que não vemos nada, não ouvimos nada do que se passa ao redor de nós, que não nos lembramos sequer do momento em que essas idéias, esses sentimentos começaram a apoderar-se da nossa alma. Assim, muitas vezes, nos achamos, sem reparar, em pensamentos e sentimentos contrários à caridade e a outras virtudes, em projetos de vaidade, de orgulho e de amor-próprio.

Este estado dura mais ou menos, conforme é mais ou menos forte a impressão dos objetos ou da imaginação, ou conforme alguma circunstância impressionante tire mais cedo a alma dessa espécie de encantamento. Então, por uma reflexão distinta, ela percebe aquilo que a ocupa. Se, nesse momento em que é restituída a si mesma, ela condena essa idéia, esse sentimento; se os desaprova e.se se desvia deles tanto quanto pode, prudentemente pode-se assegurar que em tudo o que precedeu ela não fez nenhum mal. A satisfação que ela experimenta de se ver liberta deles é mais um sinal bastante seguro de que a vontade não tomou nenhuma parte neles com reflexão.

Nessa preocupação, não houve deliberação, não houve escolha da parte da vontade. Para que se ofenda a Deus, é preciso que a vontade consinta deliberadamente em alguma coisa má, e que possa renunciar-lhe. Não se acha nem uma coisa nem outra naquilo que precede a reflexão: não pode, pois, haver aí pecado. Aliás, essa desaprovação tão pronta, desde a primeira reflexão, assinala a boa disposição da alma, que não teria admitido essas idéias, esses sentimentos, que não se teria ocupado deles, se os houvesse conhecido com bastante reflexão para os admitir ou rejeitar por escolha. Devemo-nos, pois, comportar neste caso como se essas idéias e esses sentimentos começassem no momento em que os percebemos com reflexão. Só neste ponto é que deve começar o exame que se deve fazer; e, se então eles foram rejeitados, devemos conservar-nos em paz.

Essa preocupação pode ser longa, como muitas vezes sucede na oração, em que somos arrastados por uma distração que absorve toda a atividade da alma. Esta circunstância não a torna voluntária e deliberada. Não depende da vontade tornar essa distração mais curta, como não depende o Impedi-la de vir: não há da sua parte mais escolha numa coisa do que noutra. Também não haverá mais mal; visto que a preocupação que chega subitamente sem que a prevejamos não é um pecado. A longura do tempo que a experimentamos não a torna culposa. Não é, pois, muito difícil decidir-se nessa circunstância.


Padre Michel da Companhia de Jesus, Tratado das Tentações

domingo, 23 de junho de 2013

Tratado das Tentações, CAPITULO 3 - É preciso recorrera Deus nas tentações. Ele nos sustenta no meio dos combates; E nós não reparamos nisso por falta de atenção



Nessas tempestades de que uma alma é agitada, às vezes Deus a conduz de maneira sensível. Trabalha-se então com coragem para se sustentar contra as ondas impetuosas das paixões. A vista de
Deus, que se apresenta vivamente a nós, o desejo de amá-lo, que se faz sentir, animam-nos, e redobram a nossa confiança. Mas às vezes, também, Deus se oculta: parece adormecido como outrora na barca dos Discípulos, prestes a perecerem pela violência das ondas pelas quais ela era batida.

Em semelhante ocasião, uma alma acha-se em perigo, pelo temor excessivo que se lhe apodera do coração e que o enfraquece.

Não; no momento, nada tendes a temer se levantardes os olhos para o Céu, de onde vos deve vir o socorro de que precisais,e se fizerdes uso desse socorro. em Discípulos, expostos a perder-se, não perderam seu tempo em se lamentar inutilmente; não abandonaram o cuidado da sua barca por um minuto sequer: continuaram a manobra, para se sustentarem contra a borrasca; e recorreram ao seu divino Mestre, cujo socorro imploraram.

Jesus parecia dormir (Mt 8, 34); e no entanto os dirigia, sem que eles reparassem nisso, ·nas medidas que tomava para eles não serem tragados pelas ondas. Assim Deus, por mais oculto que esteja aos
vossos olhos, nem por isto está menos atento ao que se passa no vosso coração.

A todo momento parece-vos que ides naufragar; e, no entanto, vos sustentais contra a tempestade.
Essas vistas que vos. guiam, esses sentimentos que vos animam e que vos fazem agir quase sem que o percebais, essa coragem que tantas vezes parece abandonar-vos e que renasce sempre, essa firmeza
que vos faz renunciar com constância aos falsos prazeres, aos prazeres criminosos que o inimigo vos apresenta, de quem é que os haveis? Será de vós mesma? Fraca como sois, lisonjear-vos-eis de
resistir sozinha? Não os haveis de Jesus Cristo, que, sem se mostrar sensivelmente, vos sustenta poderosamente, consoante a palavra que Ele vos deu (1 Cor 10, 13), de que a provação não será acima das vossas forças, ajudadas pela sua graça? Sim, mesmo quando o julgais afastado de vós,
Jesus Cristo está no meio do vosso coração: vós vos julgais esquecida, e mais do que nunca estais presente ao vosso Salvador, porque tendes necessidade d'Ele. Ele preside aos vossos combates, como presidiu ao de s. Estêvão (At 7, 55); e, desde que não falteis à confiança, Ele vos tornará superior a todos os vossos inimigos, impedindo-vos de consentir nos maus desígnios deles.


Padre Michel da Companhia de Jesus, Tratado das Tentações

sábado, 1 de junho de 2013

Tratado das Tentações, CAPlTULO II: As tentações não são sinal do mau estado de uma alma em relação a Deus e a sua salvação




Ordinariamente, as tentações frequentes bem podem assinalar um coração sujeito a paixões e propenso ao mal, porém não assinalam um coração mau e afastado de Deus, quando essas inclinações são desaprovadas. Esse pendor para o mal, que nós trazemos ao nascer, pela desordem que o pecado de nosso primeiro pai pôs nas nossas inclinações, às vezes é fortalecido pela dependência em que a nossa alma está dos sentidos. Essa dependência torna-nos mais ou menos sujeitos às tentações,
conforme seja mais forte ou menos forte a impressão dos sentidos; sendo tudo isso independente da nossa vontade, e não vindo do fundo do coração, não assinala nele um vício particular. Ele não é a causa dessa disposição dos sentidos; pelo contrário, sofre com ela, e, quando a corrige pelo seu apego à virtude, por mais forte que seja a inclinação o coração nem por isso se torna mau.


Essa resistência às tentações assinala, antes, um coração cristão, e faz conhecer o apego que ele tem a seu Deus, e a proteção que Deus lhe concede; coisa que deve consolá-lo e enchê-lo de confiança.

A determinação em que ele se acha de resistir à Inclinação que o arrasta, recebe-a ele da misericórdia divina, que o sustenta por uma graça tanto mais particular quanto mais exposto ele estiver ao mal e
ao perigo de sucumbir.
É raciocinar mal o dizer: Se a minha mente e o meu coração estivessem em bom estado, se fossem bem de Deus, teria eu estas idéias, estes sentimentos, que ferem a caridade, que são oposto à fé, à
submissão, à paciência, e que me metem horror a mim mesmo?
Se essas idéias, se esses sentimentos dependessem de vós, se estivesse na vossa escolha tê-los ou não  ter, com razão julgaríeis estar muito afastada de Deus quando os experimentais. Mas tudo isso absolutamente não depende de vós. Essas idéias, esses sentimentos insinuam-se subtilmente, ou se abatem com impetuosidade sobre o vosso espírito e sobre o vosso coração, sem consultarem a vossa vontade; e, o que é ainda mais forte, perseveram na vossa alma a despeito da vossa vontade, que quereria desvencilhar-se deles, e que emprega toda sorte de meios para os afastar. Eles não são, pois, a expressão livre da vontade; não são da. escolha desta: não podem, pois, decidir coisa alguma contra o bom estado da alma e contra o seu apego a Deus e à virtude.

O coração só se apega pelos seus sentimentos refletidos e deliberados. Pode, pois, um coração ser inteiramente de Deus, embora experimente indeliberadamente sentimentos contrários à virtude, desde
que estes lhe desagradem em vista de Deus.
Digo mais: o desgosto que ele .sente de se ver atacado por tais inimigos, o horror que tem destes, são uma prova bem decisiva de que ele está apegado ao dever e ao amor divino. Se ele amasse menos a
Deus, se temesse ou se detestasse menos o pecado, não teria nem esse desgosto, nem essa perplexidade, nem esse horror seguiria a sua inclinação, satisfaria os seus desejos. Não pode ele, pois, ter prova mais segura do seu amor a Deus do que a fidelidade que Deus lhe dá em combater essas
más inclinações.
Os maiores santos foram postos a essa prova; S. Paulo não foi eximido dela: e eles amavam a Deus perfeitamente. O nosso divino Salvador quis submeter-se a ela para nossa instrução: e era o Santo dos
Santos. O que Ele quis experimentar na sua humanidade santa não pode ser um mal, nem mesmo uma imperfeição: Ele era incapaz de um e de outra. Não podemos, pois, ser culpados quando experimentamos isso da mesma maneira que Ele, quando nos defendemos disso como Ele o
fez, em proporção da nossa fraqueza.

Padre Michel da Companhia de Jesus, Tratado das Tentações

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Tratado das Tentações, Padre Michel da Companhia de Jesus - Capítulo I

Inicio hoje no blog a publicação desse precioso livro. Nesse momento, milhares de rapazes (e não só) lutam dramáticamente contra o demônio, contra o mundo e contra a carne. É presnadno em ajudá-los eficazmente que posto aqui esta abençoada obra. Tenho certeza de que será de grande valia a muitas almas sinceras.

In Corde Jesu et Mariae,
Christian.

***

CAPíTULO I
AS TENTAÇÕES NAO SÃO UMA PROVA DE ABANDONO DA PARTE DE DEUS. SE ÀS VEZES SÃO UMA PROVA DA SUA CÓLERA, É DE UMA CÓLERA DIRIGIDA
PELA SUA MISERICÓRDIA.


As tentações perturbam as almas piedosas: arrastam ao precipício as almas dissipadas. Para Prevenir o mal qúe delas pode resultar, é a propósito fazer-vos saber as razões que tendes de não as temer demasiado, os princípios sobre os quais podeis decidir-vos em muitas ocasiões, a maneira de vos comportardes no tempo em que elas vos atacam, e de vos premunirdes contra os efeitos delas; e mostrar-vos as vantagens que delas podeis tirar.
As tentações são idéias, sentimentos, inclinações, pendores que nos induzem a violar a Lei de Deus, para nos satisfazermos.Essas tentações não devem nem perturbar nem desanimar uma alma cristã.
O demônio declara guerra principalmente às almas que detestam o império dele e que combatem as suas próprias paixões, que são discípulas de Jesus Cristo tanto pela. pureza dos seus costumes como pelo cunho inefável da sua regeneração ou àquelas que pensam seriamente em sacudir.o jugo sob o qual o demônio as mantém.
Pelas molas que faz funcionar contra elas, o demônio só procura concitá-las a renunciar ao amor de Jesus Cristo, desprendê-las de Deus, tomando-as cúmplices da desobediência dele. Esta reflexão
deve consolar as almas que são tentadas. É a oposição delas ao inimigo da salvação, é o seu apego à piedade, à vontade de Deus, que lhes atrai essa perseguição do­méstica. Um pouco de constância torná-las-á vitoriosas, firmá-las-á na virtude.·
Almas naturalmente tímidas, ou aquelas que o senhor por longo tempo conduziu na calma das paixões e nas doçuras da paz, imaginam que as tentações que elas às vezes experimentam são sinais da cólera de Deus sobre elas; e com isso chegam até a pensar que Deus as abandonou, quando as tentações são fortes e frequentes. Não podem persuadir-se de que Deus possa deitar olhares favoráveis sobre um coração violentamente agitado por sentimentos contrários à virtude. Esta cilada
é o último recurso do inimigo da salvação para derrubar uma alma que ele não pode vencer pelas vãs satisfações do vicio. Rouba-lhe essa preciosa confiança que pode sustentá-la contra todos os esforços do inferno.
Grosseiramente se enganam essas almas.As que são instruídas, as que conhecem melhor os caminhos de Deus, não se surpreendem com essa guerra que têm de sustentar. Pelos oráculos do Espírito Santo
aprenderam que a vida do homem é um combate continuo; que temos de nos defender incessantemente, por dentro contra os nossos gostos, as nossas inclinações, o nosso amor-próprio, esses inimigos domésticos tão capazes de nos seduzir pelas suas artimanhas e pretextos; por fora, contra a sedução dos maus exemplos, contra o respeito humano, contra as potências do inferno, invejosas da felicidade do homem e conjuradas contra ele desde o começo do mundo; e aprenderam
que só pelas vitórias que alcançamos com o socorro da graça é que abrimos caminho para chegarmos ao Céu; que enfim, consoante o Apóstolo (2 Tim 2, 5), só haverá coroa para aqueles que houverem
fielmente combatido até o fim.
S. Paulo não considerou como efeito da cólera e do abandono de Deus as tentações que continuou a experimentar, embora tivesse pedido ser livrado delas. Os Santos, por tanto tempo e tão vivamente
atacados pelo demônio até nos desertos e nos exercícios da mais austera penitêntcia, não tiveram das tentações a mesma idéia que vós. Pelo contrârio, consideraram-nas sempre como o objeto dos seus combates e a matéria dos seus méritos. Não ignoravam o que é dito nos Livros Sagrados: Por isso que éreis agradável a Deus, mister se fazia fosseis provado pela tentação (Tob .2, 13). É esta a idéia que deveis fazer da tentação; é a única que seja justa nos princípios da Religião; e, dessarte, não ficareis nem perturbada nem desanimada com ela.
Contudo, embora as tentações não sejam um sinal do abandono de Deus, porque Deus nunca abandona inteiramente o homem enquanto este estiver na terra; e embora essas tentações sejam, ordinariamente, provações para as almas justas, às vezas são também efeitos da Justiça divina; que pune certas negligências no seu serviço, certas fraquezas a que se deixam levar almas desapllcadas e presunçosas, certas aplicações naturais que dividem o coração. Mas seja punição ou provação, a submissão em recebê-las, a fidelidade em lhes resistir devem ser as mesmas. Da parte do mais terno dos pais, a justiça é sempre acompanhada de misericórdia; A sua graça está sempre ligada à oração e confiança. Ele não quer perder-nos, não quer punir-nos senão para nos reconduzir a Ele. Esta circunstància, bem longe de desanimar e de perturbar uma alma, deve, pelo contrário, animá-la ao combate pela vista do perdão que lhe é oferecido, se com coração contrito e humilhado, e com
fidelidade inviolável, cumprir a penitência que Deus lhe impõe.


Tratado das Tentações, Obra Póstuma do Padre Michel da Companhia de Jesus
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