sexta-feira, 3 de março de 2017

O que é um pecado mortal? - Padre Paulo Ricardo

103. O que é um pecado mortal?



Todo pecado é uma ação contrária ao amor de Deus, mas existem faltas mais graves do que outras, às quais a Igreja costuma dar o nome de "pecado mortal".

Em que consiste esse tipo de pecado e o que ele faz com a pessoa que o comete? E quanto aos pecados mais leves, seriam eles por acaso desprezíveis?

É o que Padre Paulo Ricardo esclarece neste episódio de "A Resposta Católica".

O Catecismo da Igreja Católica define o pecado como "uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Foi definido como uma palavra, um ato ou um desejo contrário à lei eterna" (CIC 1849). Resumidamente, o pecado é uma ação contrária ao amor de Deus. Do mesmo modo que o homem é livre para amar e praticar a caridade, também é livre para desobedecer.

É sabido também que existe uma grande variedade de pecados e, apesar de todos serem uma ofensa a Deus, estão separados em diferentes graus. A Sagrada Escritura traz várias listas e descrições. Por exemplo, São Paulo na Carta aos Gálatas diz que: "as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno, como já vos preveni, os que tais coisas praticam não herdarão o Reino de Deus" (5,1 9-21)

O pecado, conforme sua gravidade, pode ser dividido em pecado mortal ou pecado venial. Por pecado venial entende-se aquele ato que não separa o homem totalmente de Deus, mas que fere essa comunhão. Já o pecado mortal, por sua vez, atenta gravemente contra o amor de Deus, desviando o ser humano de sua finalidade última e da bem-aventurança. Ensina o Catecismo:
"O pecado mortal requer pleno conhecimento e pleno consentimento. Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afetada e o endurecimento do coração não diminuem, antes aumentam, o caráter voluntário do pecado." (CIC 1859)

Isso significa que o pecado mortal só acontece quando o indivíduo comete um delito contra Deus, consciente desses três requisitos citados acima, não somente pela matéria grave. Por exemplo, se uma pessoa - sem formação moral e intelectual adequada e sem condições de adquirí-la - pratica uma ação pecaminosa, ela pode ser isenta de culpa, pois se enquadra no caso da ignorância invencível. Por outro lado, existe também a ignorância afetada, que é quando a pessoa tinha condições de conhecer a verdade, mas preferiu não conhecê-la. Neste caso, o indivíduo peca gravemente.

Na prática, o que um pecado mortal pode fazer com a pessoa que o comete? O mesmo Catecismo ensina que:

"O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de graça. Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus." (CIC 1861)

"O pecado cria uma propensão ao pecado; gera o vício pela repetição dos mesmos atos. Disso resultam inclinações perversas que obscurecem a consciência e corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se, mas não consegue destruir o senso moral até a raiz." (CIC 1865)

Mas o que dizer, então, dos pecados veniais? Eles são desprezíveis? Não, pois um pecado mortal é gerado por uma multidão de pecados veniais que foram cometidos antes. O pecado venial, embora pareça sem importância, é um passo que conduz ao abismo. Um após o outro, leva a pessoa para o buraco, que é o rompimento da amizade com Deus. O Catecismo cita Santo Agostinho para explicar melhor como se dá a ação dos pecados veniais:

"O homem não pode, enquanto está na carne, evitar todos os pecados, pelo menos os pecados leves. Mas esses pecados que chamamos leves, não os consideres insignificantes, se os consideras insignificantes ao pesá-los, treme ao contá-los. Um grande número de objetos leves faz uma grande massa; um grande número de gotas enche um rio; um grande número de grãos faz um montão. Qual é então nossa esperança? Antes de tudo, a confissão..." (CIC 1863)

Portanto, para evitar o rompimento da amizade com Deus, ou seja, cometer um pecado grave, é preciso combater os chamados pecados veniais, os quais são passos que se dão em direção ao abismo. Nesse sentido, o sacramento da confissão é o remédio eficaz que pode refrear essa triste caminhada.

Fonte: padrepauloricardo.org

quinta-feira, 2 de março de 2017

Da página BRAVUS: Uma Cruzada Interior com São José – Brava Quaresma 2017


Por Daniel P. Volpatp · 1 DE MARÇO DE 2017 - Texto retirado do site Brav.us
Brava Quaresma 2017 Cruzada Interior Com São José
No ano passado, oferecemos alguns propósitos quaresmais diários, aos quais denominamos Brava Quaresma, e que obtiveram bons frutos, como muitos de nossos leitores testemunharam pelas redes sociais. Para este ano, a Providência coincidiu o início da Quaresma com o primeiro dia de março, o mês josefino. Propomos a nossos leitores, portanto, “Uma Cruzada Interior com São José” durante esse tempo.

A Quaresma é o tempo litúrgico penitencial de 40 dias (excluindo-se os domingos) que nos preparam para a Páscoa de Nosso Senhor. É inspirada nos 40 dias e 40 noites de jejum que Cristo passou no deserto (Mt 4), onde foi tentado pelo demônio, antes de começar seu ministério.

O número 40 possui forte significado nas Sagradas Escrituras. Representa um período de intensa preparação que antecede acontecimentos marcantes na História da Salvação: 
* Foram 40 os dias do dilúvio, preparação a uma nova humanidade, purificada (Gn 7, 4ss); 
* Foram 40 os dias de jejum de Moisés para enfim receber as Tábuas da Lei (Ex 34, 28); 
* Foram 40 os anos de caminhada do povo hebreu, rumo à Terra Prometida. 
* Foram 40 os dias de jejum do Profeta Elias, antes de encontrar a Deus no monte Horeb (I Rs 19,8); 
* Foram 40 os dias de penitência dos ninivitas, que assim obtiveram o perdão de Deus (Jn 3, 4ss).
cruzada interior luta batalha liberdade
A Quaresma sempre é tempo forte e abundante de graças, propício à conversão e à mudança de vida. Se bem vivida, proporciona muitos frutos de santificação e crescimento em virtudes. É o que almejamos com a Brava Quaresma: dar uma pequena contribuição neste processo.

É parte do tornar-se homem deixar o papel de protegido e assumir o ofício de protetor. Esse chamado é para todo homem, seja casado ou celibatário, pai biológico ou espiritual, sacerdote ou leigo. E é por isso que cada homem possui dentro de si um espírito de soldado, que protege os seus próximos com a própria vida, se preciso for.

O que se percebe, porém, é que este espírito combativo está dormente. Para acordá-lo, o homem precisa realizar esta cruzada interior contra si mesmo, vencendo seus medos e fraquezas, adquirindo domínio de si e crescendo em virtudes para, enfim, ser livre e amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. É a verdadeira liberdade, o bem agir conforme a vontade de Deus, o fim último desta cruzada interior.

Que companheiro melhor nesta cruzada do que São José, o homem justo? Nele encontramos a perfeição no trabalho, como excelente carpinteiro; a perfeita autoridade e solicitude como chefe familiar; o perfeito amor de pai a Cristo; e o perfeito amor de esposo à Virgem Maria.

Convidamos você, caro leitor, a juntar-se a nós nesta cruzada interior de 40 dias, no exército de São José, acompanhando as seguintes atividades:
  1. Os propósitos que publicaremos diariamente em nossas redes sociais, abarcando os três pilares da Quaresma católica, o jejum, a oração e a esmola;
  2. Uma oração diária e jaculatórias à São José;
  3. A participação no grupo de Facebook (aqui) que criamos, para estabelecer uma fraternidade entre aqueles que desejam viver a Brava Quaresma.
O primeiro propósito você já pode conferir:
Brava Quaresma 2017 Dia 01
Referências

Plinio Maria Solimeo. “Ide a José!”: Vida, privilégios e virtudes de São José, segundo os Evangelhos, a tradição e outros documentos. Art Press, 2007.
Thurston, H. “Lent”. In The Catholic Encyclopedia. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/09152a.htm.

A ira de um santo - Pier Giorgio Frassati, um jovem IRADO


Enganam-se os que pensam que os santos têm “sangue de barata”.

Pier Giorgio sabia ser um cara cheio de grandes gentilezas. Quando ia às montanhas, trazia flores para enfeitar os oratórios de Nossa Senhora. Se viajava, mandava cartões postais para a família. Nas escaladas, ao perceber que algum amigo estava cansado, fingia que tinha de parar para amarrar os sapatos e obrigava todo mundo a parar. Nunca se esquecia de escrever cartas para os amigos nos seus aniversários.

Mas AI se mexessem com a Verdade do Evangelho... Ah, daí o “bicho pegava”.

Em um carnaval, o grupo de Pier Giorgio fez um cartaz chamando todos os católicos da universidade para rezarem em reparação dos pecados cometidos naqueles dias. Frassati pôs o cartaz no mural da universidade, no meio de um monte de convites cheios de cores berrantes que convidavam os jovens para as baladas. A galera da universidade ficou furiosa e quiseram rasgar o convite. Pier Giorgio pôs-se, então, com muita tranquilidade, entre a multidão de mais ou menos cem rapazes e o cartaz.

Começaram a insultá-lo e ameaça-lo, mas nada o fez recuar. Foram para cima do nosso amigo bem-aventurado, que deu vários murros e pontapés. Mas evidentemente o número venceu Frassati: destroçaram o cartaz católico. Pier Giorgio levantou-se, recolheu com muita calma os pedaços do cartaz e se retirou. O amigo que estava com ele testemunha: “Frassati não disse uma única palavra enquanto voltávamos para casa, mas aquele silêncio valia por um sermão”.

Nosso Pier Giorgio Frassati irado também cacetou sozinho um grupo de fascistas quando, em um almoço, invadiram sua casa. Botou-os pra correr! Lutou com um policial porque ele queria lhe retirar uma bandeira católica que segurava durante uma manifestação, brigou muitas vezes com católicos que tinham postura política contrária à Caridade.

Ser cristão não é ter aquela ideia maconheira de “paz e amor” nem o conceito de religião light de madame “comer, rezar e amar”. Com a mesma ira com que Nosso Senhor Jesus Cristo pegou no chicote, os santos souberam defender a Verdade.

Que Pier Giorgio Frassati nos ajude a combater pela Fé e que tenhamos uma boa dose dessa santa ira, dessa ira buona.

*texto de 20 de agosto de 2015.
Fonte: Página Pier Giorgio Frassati

quarta-feira, 1 de março de 2017

[Sermão] Quarta-Feira de Cinzas: A morte e quais e como devem ser nossas práticas quaresmais - Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Estamos hoje na quarta-feira de cinzas, primeiro dia da Quaresma. Dia de jejum e abstinência. Abstinência é não comer carne, obrigando todos os fiéis católicos, a partir dos 14 anos. Jejum é fazer uma refeição normal, em geral o almoço, e duas colações, uma de manhã e uma de tarde, que, juntas, não cheguem a uma refeição normal. E não se deve comer nada entre as refeições. Todos os católicos entre dezoito e sessenta anos estão obrigados ao jejum, a não ser por motivo de saúde, ou por trabalho mais duro, ou uma mulher pela gravidez, por exemplo.

Recomendo muito, prezados católicos, que escolham um bom livro para acompanhá-los durante a quaresma. O livro de Santo Afonso sobre a Paixão, por exemplo, ou as meditações diárias do mesmo santo, a Prática do Amor a Jesus Cristo ainda de Santo Afonso; Filotéia de São Francisco de Sales, ou o Combate Espiritual, do Padre Scupoli, os Exercícios de Perfeição Cristã do Padre Rodrigues, ou uma boa Vida de Cristo. Algo que possa elevar a alma nesse tempo santo.

“Memento, homo, quia pulvis est et in pulverem reverteris.” Lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás.”

É com essa frase que a Igreja quer que nossa fronte seja marcada pelas cinzas. Lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás. A Igreja, nesse início de Quaresma, coloca diante do homem a sua mortalidade. Ela nos lembra que a morte vem para todos, indistintamente. Essa é a grande certeza de todos os homens: a morte, morreremos um dia. Todavia, a morte certa tem também uma incerteza: não sabemos nem o dia nem a hora. Portanto, caros, católicos, sabemos que iremos morrer, mas não sabemos quando. A grande ilusão é crer que temos ainda muito tempo para nos arrepender, para chorar pelos nossos pecados, para avançar na virtude, para nos converter. Como nos lembra o Livro de Esther em uma das Antífonas de hoje: emendemo-nos para melhor, para que não suceda que, surpreendidos pela morte, procuremos espaço para fazer penitência e não o encontremos. É aqui e agora que devemos nos converter.

O tempo da Quaresma é um tempo de grandes graças, se procuramos vivê-lo bem, isto é, se procuramos realmente nos converter a Deus, para amá-lo e servi-lo como nosso infinito bem que é. Não podemos desperdiçar esse tempo de graça. É preciso aproveitá-lo, para que não suceda que, surpreendidos pela morte, procuremos espaço para nos converter e não o encontremos.

Na Quaresma, prezados católicos, nossas práticas devem ter dois aspectos. Um deles se refere, digamos, ao passado: nossas práticas quaresmais devem ter como finalidade a expiação, a penitência, pelos nossos pecados cometidos. O outro aspecto diz respeito ao presente: nossas práticas quaresmais devem ter como finalidade nosso avanço na virtude, no amor a Deus, no abandono de nossos pecados presentes. A Quaresma é tempo de grandes graças para obter a misericórdia divina, para abandonar o velho homem, para abandonar o nosso pecado habitual, dominante. Assim, prezados católicos, nossas práticas não devem ser simplesmente práticas mais ou menos austeras, mas devem ter por finalidade o pedir perdão a Deus e o avanço no caminho do amor a Deus. Como nos diz o Profeta Joel: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas e com gemidos. É preciso nos converter a Deus de todo o coração, orientando-nos para Ele, inteiramente, colocando-o como o fim de nossas vidas. É preciso nos converter a Deus com jejuns, reparando pelos nossos pecados. É preciso nos converter a Deus com lágrimas e gemidos, isto é, com verdadeiro arrependimento por tê-los cometidos e com o firme propósito de não mais pecar. O tempo da quaresma é um tempo de graça. É tempo de uma boa confissão, sincera, humilde, integral.

Nossas práticas quaresmais, caros católicos, devem ser feitas com humildade. Devemos ter plena consciência de que não são nada diante de Deus e diante do que Lhe é devido, por mais que essas práticas pareçam muito perfeitas. Se nas nossas devoções, se na nossa prática religiosa entra o orgulho, tudo será prejudicado. Devemos, então, ficar atentos, e fazê-las com humildade, como algo que é simplesmente devido a Deus e que é nada diante do que deveríamos fazer por Ele. A recompensa das nossas práticas quaresmais não pode ser a nossa satisfação própria ou o elogio alheio, mas deve ser a vida eterna. Nossas práticas terminarão sendo mais ou menos conhecidas pelas pessoas que nos são próximas, mas devemos sempre endireitar nossa intenção: faço isso para Deus e não para que as outras pessoas me estimem.

A quaresma é um tempo de graça. A primeira graça está nas palavras: Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (lembra-te, ó homem, que és pó e que ao pó retornarás). Devemos guardar essas palavras durante toda a nossa vida. Somos pó, e pó é tudo que há sobre a terra. Vamos morrer, caros católicos. Não sabemos quando. É preciso estar pronto. Deus nos dá esse tempo favorável, o tempo da quaresma, tempo em que é extremamente largo em sua misericórdia. Na quaresma, Deus bate de modo particular na porta de nossa alma. A nós, cabe abrir a porta. Cabe-nos abrir a porta pela conversão a Ele, de todo o coração. Cabe-nos abrir essa porta pelas súplicas de nossas orações redobradas durante a quaresma. Cabe-nos abrir essa porta pela prática da virtude. Cabe-nos abrir essa porta pela mortificação. Tendo escolhido nossas práticas quaresmais, mantenhamo-nos firmes. Se falharmos uma vez ou outra, peçamos o auxílio da graça e retomemos nossas resoluções, sem abandoná-las. Abramos a porta ao divino Salvador. Ele não vai bater eternamente.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Fonte: Missa Tridentina em Brasília

Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma - Padre Paulo Ricardo


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 6, 1-6.16-18)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus.

Por isso, quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa.

Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa.

Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que os homens não vejam que tu estás jejuando, mas somente teu Pai, que está oculto. E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa".

O tempo da Quaresma, a que hoje damos início, é um tempo de aprofundamento espiritual especialmente dedicado à nossa santificação pessoal, por meio sobretudo do jejum e de outros exercícios penitenciais, como, por exemplo, a esmola e as pequenas mortificações e renúncias, obras a que a santa mãe Igreja, não só neste período do ano litúrgico, mas a todo instante exorta seus filhos e súditos. A finalidade da Quaresma é, portanto, uma só — santificar-nos —, se bem possa ser articulada em seus dois momentos constitutivos: afastar-nos do pecado, por um lado, e aproximar-nos de Deus, por outro. Trata-se, nesse sentido, de um único movimento de conversão em cujo termo inicial somos impulsionados, de modo mais direto, pela virtude sobrenatural da penitência, pela qual, "num esforço pessoal de retificação de vida e de a viver com mais fidelidade, reparando, por qualquer privação voluntária, as negligências de outros tempos" [1], arrependemo-nos sinceramente das faltas por nós cometidas enquanto ofensas a Deus [2].

Um segundo aspecto da espiritualidade quaresmal, relacionado mais estreitamente com nossa aproximação de Deus e, de maneira geral, um pouco negligenciado pelo comum dos fiéis, é a necessidade de dedicar-se mais à oração. Por isso, um propósito que todos, bem aconselhados por nosso diretor espiritual, podemos fazer é o de comungar com frequência; se possível, todos os dias, pois é este o meio mais eficaz, observadas as prescrições da Igreja, de entrarmos em contato com Aquele que deseja, com sede de amor, unir-se a nós pela virtude teologal da fé. Com efeito, a nossa justificação, em função da qual temos de viver este tempo de Quaresma, consiste não só na infusão da graça santificante e na remissão da culpa, mas também num movimento livre de nossa vontade em direção a Deus, por atos de fé informada pela caridade, e para longe do pecado, por atos de penitência e arrependimento [3].

Peçamos, pois, à Virgem Santíssima, Mater Dolorosa, que nos acompanhe ao longo destes próximos quarenta dias de preparação para Páscoa e, por sua materna intercessão, alcance-nos de seu Filho a graça de vivermos este tempo, não como os hipócritas e vaidosos de que nos fala o Evangelho de hoje, mas como filhos pródigos e humildes, que, desejando voltar o quanto antes à casa paterna, só pensam e querem o que pode agradar e consolar o coração dAquele que nos vê e ama no segredo de nosso coração pecador.

Referências

D. Gaspar Lefebvre (org.), Missal Romano Quotidiano. Trad. port. dos monges beneditinos de Singeverga. Bruges: Biblica, 1963, p. 136.
Cf. A. Royo Marín, Espiritualidad de los Seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 211, n. 148.
Cf. Santo Tomás de Aquino, Sum. Th. III, q. 86, a. 6, ad 1.

Fonte: padrepauloricardo.org

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Reparação pelos pecados do Carnaval: A Santa Missa é a melhor reparação - Padre Daniel Pinheiro (Sermão)

Em nome do Pai…
Ave Maria…

Caros católicos, lá está Nosso Senhor abandonado no Jardim das Oliveiras, sem ninguém para vigiar com Ele, sem ninguém que o acompanhe na oração. Aqueles que Ele veio salvar, o traem, se entregando, sem hesitação ao pecado. E nós, que dizemos ser discípulos dEle, dormiremos ou acompanharemos Jesus em sua agonia pelos pecados abomináveis cometidos durante o carnaval? Se um só pecado ofende a Deus, o que dizer do carnaval em que tantos e tão torpes pecados se concentram em tão pouco tempo? É bem verdade que em nossa sociedade vivemos praticamente um carnaval constante. Sem dúvida, porém, nesse tempo em que a razão é deixada de lado, em que a lei divina é deixada de lado pelos homens, as ofensas chegam ao extremo.

Pelos pecados impuros, o homem se assemelha aos animais brutos, que buscam uma satisfação sem causa, sem motivo, irracional. Por um momento de satisfação se perde o céu e se merece o inferno, por tão pouca coisa. Se não vale perder a alma pelo mundo inteiro, quanto mais por um pecado torpe, caros católicos. Nossa razão nos mostra e a Revelação nos confirma que esses atos devem estar voltados para a procriação, e para a procriação dentro do matrimônio indissolúvel, entre um homem e uma mulher, para que se eduquem bem os filhos.

Pelos pecados em geral e pelos pecados do carnaval, em particular, se ofende a Deus criador, se ofende a Deus legislador, a Deus que se fez homem para nos salvar. Deus detesta tanto o pecado e ama tanto a santidade, que, para destruí-lo, não recusou morrer na Cruz, sofrendo imensamente. Deus amou tanto o mundo que Ele enviou seu próprio Filho. E Cristo, Filho de Deus, nos amou tanto que morreu na Cruz para nos tirar do pecado… O próprio Deus que entrega sua vida por nós… E nós recusamos essa salvação por nossos crimes, por nossos pecados, por nossos caprichos… E como nós somos rápidos para pecar e ofender a Deus e como somos lentos para nos arrepender e reparar pelos nossos pecados.

Prezados católicos, precisamos reparar pelos nossos pecados e pelos pecados do nosso próximo. Precisamos desagravar o Sagrado Coração de Cristo do peso dos pecados. Como fazer para reparar pelos pecados do carnaval, para desagravar o Coração de Cristo? Reparar nada mais é do que oferecer à pessoa ofendida o que lhe agrada mais do que a ofensa lhe desagradou. Como reparar pelo pecado mortal, incessantemente cometido durante o carnaval? O pecado mortal é uma ofensa infinita a Deus? Como podemos nós, pobres seres humanos e, portanto, finitos, limitados, reparar por tantas ofensas infinitas? Existe uma só solução. Devemos nos unir a Cristo, pois Cristo, sendo homem e Deus, agrada infinitamente a Deus. Assim, caros católicos, em união com Cristo, quer dizer, em estado de graça, e com desejo de agir por amor a Deus, poderemos imitar Santa Maria Madalena de Pazzi, que passava as noites inteiras do carnaval diante do Santíssimo oferecendo a Deus o sangue de Cristo pelos pobres pecadores – espero que possamos fazer isso no ano que vem, com a tradicional devoção das 40 horas de adoração ao Santíssimo durante o carnaval. Unidos a Cristo, poderemos imitar o Bem-aventurado Henrique Suso, que durante o carnaval guardava um jejum rigoroso, a fim de expiar as intemperanças cometidas. Unidos a Cristo, poderemos imitar São Carlos Borromeu, que durante o carnaval, castigava seu corpo com penitências. Unidos a Cristo poderemos imitar São Felipe Neri, que visitava o santuário e fazia exercícios espirituais. Unidos a Cristo, poderemos imitar os santos, procurando santificar ao máximo esse tempo em que se cometem tantas e tantas abominações.

Todavia, caros católicos, a melhor reparação está aqui, diante de nós: a Santa Missa. Aqui é o próprio Cristo que repara pelos pecados, é o próprio Cristo que é oferecido em expiação pelos pecados. Sem a Santa Missa, já teríamos merecido há muito tempo o castigo de um dilúvio ou de uma destruição equivalente à de Sodoma e Gomorra. É a Santa Missa, o sacrifício de Cristo renovado no altar, que impede castigo semelhante.

Essa reparação pela Santa Missa, porém, será plena, de nossa parte, se nos oferecermos juntamente com Cristo durante a Missa. Nos oferecermos não somente com palavras, da boca para a fora, mas nos oferecermos realmente, com tudo o que somos e temos, oferecendo-nos sem reservas, para que Cristo faça conosco segundo a sua vontade, para que possamos reparar pelos pecados, nossos e do nosso próximo. Ofereçamo-nos, então, junto com Cristo durante a Santa Missa, em reparação pelos pecados do carnaval.

E peçamos muitas vezes nesses dias: Meu Jesus, misericórdia.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Fonte: Blog São Pio V.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Paixão de Jesus Cristo e os divertimentos do carnaval.


Consummabuntur omnia, quae scripta sunt per prophetas de filio hominis — “Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas, tocante ao Filho do homem” (Luc. 18, 31).

Sumário. Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. A nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para compadecermos do seu divino Esposo, e o consolarmos com os nossos obséquios, ao passo que os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Não temos por ventura bastantes motivos para isso?

I. Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus — “Ele vai ser entregue aos gentios”. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur — “Ele será mortejado, flagelado e coberto de escarros”. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra Santo Nome de Deus! — Et postquam flagellaverint, occident eum — “Depois de o terem açoitado, o farão morrer”. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-lhe num domingo de Qüinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do Ecce Homo, e com dois algozes ao lado, os quais lhe apertavam a coroa de espinhos e o batiam sem piedade. Ah! Meu pobre Senhor!

II. Refere o Evangelho em seguida, que, aproximando-se Jesus de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ouvindo passar a multidão, perguntou o que era. Sabendo que passava Jesus de Nazaré, apesar de a gente o ralhar, a fim de que se calasse, não cessava de gritar: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim (1). Por isso mereceu que, em recompensa de sua fé, o Senhor lhe restituísse a vista: Fides tua te salvum fecit — “A tua fé te valeu”.

Se quisermos agradar ao Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego, e neste tempo de desenfreada licença, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais que de ordinário, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, lembrando-nos do que diz São Pedro Crisólogo. Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo — “Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo”. Quando nos acharmos em presença de Jesus no tabernáculo, peçamos-lhe luz para detestarmos as ofensas que o magoam tão profundamente. Peçamos-lhe não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: Domine, ut videam — “Senhor, fazei-me ver”.

Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo Espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! Pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam, Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. — Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, a fim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo. “Atendei, Senhor, benigno às minhas preces, e soltando-me das cadeias do pecado, preservai-me de toda a adversidade.”(2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.


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1. Luc. 18, 38.
2. Or. Dom. curr.


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 279 - 282.)
Créditos: Blog São Pio V
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