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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A importância do esporte, do ponto de vista de um Papa!



– I –

Tudo o que fala de exercícios físicos, de jogos, de competições, de esporte, interessa e atrai a juventude de hoje. Os jovens cristãos sabem, porém, que os movimentos do espírito, especialmente a corrida para a luz intelectual, o avançar sobre o terreno misterioso e por vezes árduo da revelação, o impulso para a bondade e a santidade, são ainda mais belos e mais nobres e apaixonantes, porque o saber e a virtude de ânimo sobrepujam e superam a forma dos músculos e a perecível desenvoltura e agilidade dos membros.

O vigor do corpo, que acompanha e embeleza o florescer da juventude, não permanece diminuído, nem rebaixado, mas, pelo contrário, exaltado e nobilitado pelo estudo da cultura religiosa e da virtude que domina as paixões. Na juventude brilha tanta força de energia no corpo como de virtude no ânimo quando, no fundo do coração, germina aquela vontade que no temor de Deus encontra o princípio da sabedoria iluminadora do caminho da vida.

A juventude, embora inclinada sempre a nada temer, muitas vezes teme e se apavora por não se achar suficientemente moderna, à altura do seu tempo. Mas o verdadeiro cristão está sempre à altura do tempo (Discurso aos Jovens de Ação Católica, 10 de novembro de 1940).

***

– II –

Tão longe da verdade está quem repreende a Igreja por não cuidar dos corpos e da cultura física quanto quem pretenda restringir a sua competência e ação às coisas “puramente religiosas”, “exclusivamente espirituais”.

Como se o corpo, criatura de Deus, do mesmo modo que a alma, à qual está unido, não devesse ter sua parte na homenagem a ser prestada ao Criador!

“Seja comendo”, escrevia o Apóstolo das Nações aos Coríntios, “seja bebendo, seja que façais qualquer outra coisa, tudo fazei para a glória de Deus”. São Paulo fala aqui da atividade física: o cuidado do corpo, o esporte, bem se encaixa nas palavras “seja que façais qualquer outra coisa”. Antes, Paulo discorre muitas vezes explicitamente: fala de corridas, de lutas, não com expressões de crítica ou de repreensão, mas como conhecedor que eleva e nobilita o conceito cristão das mesmas.

Afinal, que coisa é o esporte senão uma das formas de educação do corpo? Ora, esta educação está em estreita relação com a moral. Como poderia, portanto, a Igreja desinteressar-se dela?

Em realidade, a Igreja sempre teve para com o corpo humano uma solicitude e uma atenção que o materialismo, no seu culto idolátrico, não manifestou jamais. E é muito natural, pois este não vê e não conhece do corpo senão a carne material, cujo vigor e cuja beleza nascem e florescem para depois conhecerem a podridão e a morte, como a erva do campo que termina nas cinzas e no lodo. É bem diverso disto o conceito cristão. O corpo humano é, em si mesmo, a obra-prima de Deus na ordem da criação visível. O Senhor o destinou a florescer, aqui embaixo, para que, imortal, desabroche nas glórias do céu. Ele o uniu ao espírito na unidade da natureza humana, para que a alma saboreasse o encanto das obras de Deus, para ajudá-la a remirar neste espelho o seu Criador comum! Não foi Deus que fez mortal o corpo humano, mas sim o pecado; só por causa do pecado, o corpo, tirado do pó, deve um dia ao pó retornar. Deste pó, entretanto, o Senhor irá tirá-lo novamente para chamá-lo à vida. Ainda que reduzidos a pó, a Igreja respeita e honra os corpos, mortos para depois ressurgirem.

Mas a uma visão ainda mais alta nos conduz o Apóstolo São Paulo: “Não sabeis”, diz ele, “que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que está em vós, que vos foi dado por Deus e que não pertence a vós mesmos? Pois fostes resgatados por alto preço! Glorificai, portanto, a Deus no vosso corpo”.

Ora, qual é, em primeiro lugar, o ofício e o fim do esporte, sã e cristãmente entendido, senão exatamente o de cultivar a dignidade e harmonia do corpo humano, de desenvolver a sua saúde, vigor, agilidade e graça?

Nem se reprove a São Paulo a sua enérgica expressão “Trato duramente o meu corpo e o reduzo à servidão”, pois ele, no mesmo trecho, se apoia no exemplo dos fervorosos cultores do esporte. O esporte moderno, conscienciosamente exercitado, fortifica o corpo, torna-o são, forte e cheio de vida para executar esta função educativa; o esporte submete o corpo a uma disciplina rigorosa e por vezes dura, que o domina e o retém verdadeiramente em servidão: treino para a fadiga, resistência à dor, hábitos de continência e de temperança severa, condições todas indispensáveis para quem quer conseguir a vitória. O esporte é eficaz antídoto contra a moleza e a vida cômoda, acorda o sentido de ordem e educa ao exame e ao domínio de si, ao desprezo do perigo sem jactância nem pusilanimidade. Assim, ele ultrapassa a robustez física para conduzir à força e à grandeza moral. Do país natal de muitos esportes teve origem o proverbial “fair play”, aquela emulação cavalheiresca e cortês que eleva os espíritos acima das mesquinhezes das fraudes, dos ardis de uma vaidade obscura e vingativa, e os preserva dos excessos de um fechado e intransigente nacionalismo. O esporte é uma escola de lealdade, de coragem, de resistência, de resolução, de fraternidade universal, todas estas virtudes naturais, mas que fornecem à virtude sobrenatural um fundamento sólido e preparam para sustentar sem debilidades o peso das mais graves responsabilidades.

Fatigar sadiamente o corpo para repousar a mente e dispô-la para novos trabalhos, afinar os sentidos para adquirir uma intensidade maior de penetração das faculdades intelectuais, exercitar os músculos e habituar-se ao esforço para temperar o caráter e formar-se uma vontade forte e elástica como o aço: tal era a ideia que o sacerdote alpinista havia feito do esporte.

Como esta ideia é distante do grosseiro materialismo, para o qual o corpo é todo o homem! Mas como é distante, também, daquela loucura do orgulho, que não se contenta em arruinar com um desprezo malsão as forças e a saúde do esportista a fim de conquistar a palma da vitória, em uma luta ou competição de velocidade, e o expõe, por vezes, temerariamente, até à morte! O esporte digno deste nome torna o homem corajoso diante do perigo presente, mas não o autoriza a desafiar um risco sério sem uma razão proporcionadamente grave. Isto seria moralmente ilícito.

Assim entendido, o esporte não é um fim, mas um meio; como tal, deve ser e permanecer ordenado ao fim, que consiste na formação e educação perfeita e equilibrada do homem por inteiro, para o qual o esporte é um auxílio no cumprimento pronto e alegre do dever, quer na vida de trabalho, quer na vida familiar.

Com uma mudança lamentável da ordem natural, alguns jovens se dedicam apaixonadamente, com todo o seu interesse e toda a sua atividade, às reuniões e manifestações esportivas, aos exercícios de treinamento e às disputas, colocando todo o seu ideal na conquista de um campeonato, mas às inadiáveis e importantes exigências do estudo e da profissão dão apenas consideração distraída e abúlica. O lar nada mais é, para eles, que um hotel, onde param de passagem, quase como estranhos.

A serviço da vida sã, robusta, ardente, a serviço de uma atividade mais fecunda no cumprimento dos deveres do próprio estado, o esporte pode e deve estar também a serviço de Deus. Para este fim ele inclina os ânimos a dirigirem as forças físicas e as virtudes morais, que desenvolve; mas, enquanto o pagão se submetia ao severo regime esportivo a fim de obter somente uma coroa perecível, o cristão se submete a ele por um escopo mais alto, para um prêmio imortal.

De que serviria a coragem física e a energia do caráter se o cristão as usasse apenas para fins terrenos, para ganhar uma “copa” ou para dar-se ares de super-homem? Se não soubesse, quando necessário, reduzir em meia hora o tempo do sono ou retardar um encontro no estádio para não deixar de assistir à Santa Missa no domingo? Se não conseguisse vencer a preocupação com a opinião alheia para praticar a religião e defendê-la? Se não fosse capaz de prontidão e de autoridade para reprimir com o olhar, com a voz, com o gesto, uma blasfêmia, um turpilóquio, uma desonestidade, para proteger os mais jovens e os mais débeis contra as provocações, as assiduidades suspeitas? Se não se acostumasse a concluir os seus felizes sucessos esportivos com um louvor a Deus, Criador e Senhor da natureza e de todas as suas forças? Não vos esqueçais que o mais alto destino do corpo, e sua mais elevada honra, é ser habitação de uma alma, que refulge de pureza moral se for santificada pela graça divina (Discurso aos Jovens da Ação Católica, 20 de maio de 1945).

***

– III –

Prestai em primeiro lugar a Deus a honra que lhe é devida e, sobretudo, santificai o dia do Senhor, pois o desporto não dispensa dos deveres religiosos. “Eu sou o Senhor teu Deus”, diz o Altíssimo no Decálogo; “não tenhas outro Deus fora de mim”, isto é, nem sequer o próprio corpo nos exercícios físicos e no desporto: seria quase um regresso ao paganismo. De igual modo, o quarto mandamento, expressão e tutela da harmonia que o Criador quis no seio da família, recorda a fidelidade às obrigações familiares, que se devem preferir às supostas exigências do desporto e das associações desportivas.

Pelos mandamentos divinos é também protegida a vida própria e a alheia, a saúde própria e a alheia, as quais não é lícito expor imprudentemente a sério perigo com a ginástica e o desporto.

Deles recebem força também aquelas leis, já conhecidas dos atletas do paganismo, que os desportistas verdadeiros observam justamente como leis invioláveis no jogo e nos desafios e são outros tantos pontos de honra: franqueza, lealdade, espírito cavalheiresco, pelas quais detestam, como mancha desonrosa, o emprego da astúcia e do engano; estimam e respeitam o bom nome e a honra do adversário tanto como o próprio.

O exercício físico se torna, assim, como que uma ascese de virtudes humanas e cristãs, ou melhor, deve tornar-se e ser tal, por mais duro que seja o esforço exigido, para que o exercício do desporto se supere a si mesmo, atinja um dos seus objetivos morais e seja preservado de desvios materialistas, que lhe diminuiriam o valor e a nobreza.

Eis, em poucas palavras, o que significa a fórmula “Quereis agir retamente na ginástica, no jogo e no desporto? Observai os mandamentos”, os mandamentos no seu sentido objetivo, simples e claro.

CONCLUSÃO

Quando se respeita com cuidado o teor religioso e moral do desporto, ele deve entrar na vida do homem como elemento de equilíbrio, de harmonia e de perfeição, e como ajuda eficaz para o cumprimento dos outros deveres. Baseai, portanto, a vossa alegria na prática correta da ginástica e do desporto. Levai para o meio do povo a sua benéfica corrente para que prospere cada vez mais a saúde física e psíquica e se fortifiquem os corpos ao serviço do espírito; acima de tudo, enfim, não esqueçais, no meio da agitada e inebriante atividade gímnico-esportiva, aquilo que na vida vale mais que todo o resto: a alma, a consciência e, no vértice supremo, Deus (Discurso ao Congresso Científico Italiano de Desporto e Educação Física, 8 de novembro de 1952).

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A partir de “Pio XII e os problemas do mundo moderno”, em tradução e adaptação do Pe. José Marins

Créditos: Aletheia

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

As Bem-Aventuranças nas cartas de Pier Giorgio Frassati

Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
“Eu deixei meu coração nas montanhas com a esperança de reencontrá-lo nesse verão, escalando o Monte Branco. Cada dia me enamoro mais e mais pelas montanhas… E se meus estudos me permitissem, eu passaria dias inteiros sobre os montes para contemplar naquele ar puro, a Grandeza do Senhor”. (à M. Beltramo, 6.VIII.1923)
“A fé que recebi no Batismo me sugere com voz segura: por você mesmo não faria nada, porém, se você tiver Deus como centro de todas as tuas ações, então sim, chegarás até o fim”. (à I. Bonini, 15.I.1925)

Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra.

Eu os exorto, ó jovens, com todas as forças da minha alma para que se aproximem o máximo possível da mesa Eucarística, alimentem-se deste Pão dos Anjos e encontrarão a força para combater as lutas internas, contra as paixões e contra toda adversidade”. (do discurso à juventude Católica de Pollone, 1923)

Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

“Você me pergunta se estou alegre. E como poderia não estar? Enquanto a fé me der forças, eu estarei sempre alegre! O católico tem que ser alegre: a tristeza deve ser erradicada da alma do católicoA dor é diferente da tristeza, que é a mais detestável de todas as doenças. Esta doença é quase sempre produto do ateísmo; porém, a finalidade para a qual nós fomos criados nos mostra o caminho que, mesmo com muitos espinhos, não é de nenhum modo triste. É um caminho alegre, mesmo através da dor”. (à sua irmã Luciana, 14.II.1925)

Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

“Que grande dádiva é ter saúde como a temos! Por isso nossa saúde deve ser colocada ao serviço daqueles que não a temDe outra maneira estaríamos traindo esse dom de Deus e Sua benevolência”.

Bem aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

“Jesus me visita a cada manhã na Comunhão e eu lhe respondo da pobre maneira que posso fazê-lo: visitando os pobres”.
Ao redor dos pobres e dos enfermos eu vejo uma luz particular que nós não temos”.

Bem aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.

A verdadeira felicidade, ó jovens, não consiste nos prazeres do mundo e nas coisas terrenas, mas na paz de consciência que só se tem se somos puros de coração e de mente”.(do discurso à Juventude Católica de Pollone, 1923)
Eu te peço pra rezar um pouco por mim, para que Deus me dê uma vontade férrea, para que eu não desfaleça frente aos seus projetos”. (à Severi, 13.IV.1925)
O porvir está nas mãos de Deus e de nenhuma outra maneira poderia ser melhor”. (à Marco Beltramo, 3.II.1925)

Bem aventurados os que agem em prol da paz, porque eles serão chamados de filhos de Deus

“Creio que é o único desejo que um verdadeiro amigo pode fazer a um amigo querido é: a paz do Senhor esteja sempre contigo! Pois se você possui a paz todos os dias, você será verdadeiramente rico”. (M. Beltramo, 10.IV.1925)
“Sintamos em nós a íntegra força do nosso amor cristão que nos torna irmãos para além dos confins de todas as nações”.(aos estudantes de Bonn, 1923)

Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

Pobres desgraçados os que não tem fé! Viver sem uma fé, sem um patrimônio para defender, sem sustentar uma luta contínua pela verdade não é viver, mas fingir que se vive”. (à I. Bonini, 27.II.1925)
O dia de minha morte será o mais belo da minha vida”.

Pier Giorgio Frassati pode ser considerado como patrono, o guia espiritual da juventude universitária.

João Paulo II – Cracóvia, 27 de março de 1977

Vocês, jovens, têm modelos para inspirá-los. Penso, por exemplo, em Pier Giorgio Frassati, que foi um jovem moderno, aberto aos valores do esporte – era um valente alpinista e um arrojado esquiador -, mas que soube dar, ao mesmo tempo, um valente testemunho de generosidade de Fé cristã no exercício da caridade. Ele caminha com vocês, muito vivo, com seu sorriso e sua bondade… Depois da primeira guerra mundial , ele escrevia assim: Com a caridade se semeia a paz nos homens. Porém, não a paz do mundo, mas a verdadeira paz que só a Fé em Cristo nos pode dar, tornando-nos irmãos”.
Deixo a vocês a palavras de Pier Giorgio com um programa, juntamente com sua amizade espiritual a fim de que, em todo lugar da terra, vocês também sejam portadores da verdadeira paz de Cristo.

João Paulo II – 12 de abril de 1984 – Jubileu internacional dos esportistas, Estádio Olímpico de Roma

O que mais me surpreendia nele era sua pureza, sua alegria radiante, sua piedade, sua liberdade de filho de Deus por tudo aquilo que existe de belo no mundo, seu sentido social, a consciência que tinha de compartilhar a vida e o destino da Igreja. Porém, o que mais me assombra é que tudo isso aparecia nele de uma maneira natural e espontânea, cheio de calor humano e virilidade. […] Sua fé se nutria da mesma substância do cristianismo: Deus existe, a oração é o fermento da existência, os sacramentos são o alimento da vida eterna, a fraternidade universal é a lei das relações humanas.
Aqui aparece o caráter misterioso da Graça Divina, rebelde segundo o reto raciocínio: em um ambiente onde se considera o cristianismo “superado” surge um cristão que respira a alegria de viver, que não tem nada de sectário, um cristão que vive seu cristianismo com uma espontaneidade que quase dá medo: poderia se dizer que Pier Giorgio não teve seus problemas. De fato, ele os suprimiu com a graça de sua fé, quem sabe a que preço e com quais sofrimentos. Enfim, um homem dado à oração, um homem que come todos os dias o pão da morte e da vida, um homem que se consume por amor aos seus irmãos.

Fonte: Ecclesia Una

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

São João Paulo II - Sobre o Esporte




O tema que escolhestes para a vossa reflexão chama a atenção para a natureza e as finalidades da prática desportiva, neste tempo caracterizado por múltiplas e importantes transformações sociais. O desporto é decerto um dos fenómenos relevantes que, com uma linguagem que todos compreendem, pode comunicar valores deveras profundos. Pode ser veículo de excelsos ideais humanos e espirituais, quando é praticado no pleno respeito das regras; mas pode também defraudar a sua autêntica finalidade se der espaço a outros interesses, que ignoram a centralidade da pessoa humana.

O tema fala de "rosto" e de "alma" do desporto. Com efeito, a actividade desportiva manifesta, além das ricas possibilidades físicas do homem, também as suas capacidades intelectuais e espirituais. Não é mera potência física e eficiência muscular. Eis por que o verdadeiro atleta não se deve deixar subjugar pelas duras leis da produção e do consumo, ou por considerações puramente utilitaristas e hedonistas.

As potencialidades do fenómeno desportivo tornam-no um significativo instrumento para o desenvolvimento global da pessoa e um factor mais útil do que nunca para a construção de uma sociedade mais à medida do homem. O sentido de fraternidade, a magnanimidade, a honestidade e o respeito pelo corpo virtudes sem dúvida indispensáveis a todo o bom atleta contribuem para a edificação de uma sociedade civil, onde o antagonismo é substituído pela competição, onde ao confronto se prefere o encontro e à contraposição rancorosa, o confronto leal. Desta forma, o desporto não é um fim, mas um meio; pode tornar-se veículo de civilização e de genuíno entretenimento, estimulando a pessoa a dar o melhor de si e a evitar o que pode ser perigoso ou de grave prejuízo para si ou para o próximo.

Infelizmente, não são poucos, e talvez estejam a tornar-se mais evidentes, os sinais de um mal-estar que às vezes põem em discussão os próprios valores éticos que fundamentam a prática desportiva. Ao lado de um desporto que ajuda a pessoa, há de facto outro que a prejudica; ao lado de um desporto que exalta o corpo, há outro que o mortifica e o atraiçoa; ao lado de um desporto que persegue ideais nobres, há outro que só recorre ao lucro; ao lado de um desporto que une, há outro que divide.

Os meus votos são para que este Jubileu do Desporto seja ocasião para que todos, queridos responsáveis, dirigentes, apaixonados de desporto e atletas, reencontrem um novo impulso criativo e propulsivo, através de uma prática desportiva que saiba conciliar, com espírito construtivo, as complexas exigências solicitadas pelas transformações culturais e sociais em acto com as que são imutáveis no ser humano.

Permiti-me ainda uma consideração. Enquanto favorece a robustez física e tempera o carácter, o desporto nunca deve distrair dos deveres espirituais quem o pratica e o aprecia.
Seria como correr, segundo quanto escreve São Paulo, apenas "por uma coroa corruptível", esquecendo que os cristãos jamais podem perder de vista "a coroa imarcescível" (cf. 1 Cor 9, 25). A dimensão espiritual deve ser cultivada e harmonizada com as várias actividades de entretenimento, entre as quais se insere também o desporto.

Às vezes, os ritmos da sociedade moderna e de algumas actividades desportivas poderiam fazer com que o cristão se esquecesse da necessidade de participar na assembleia litúrgica no Dia do Senhor. Contudo, as exigências do justo e merecido entretenimento não podem causar detrimento à obrigação do fiel de santificar a festa. Ao contrário, no Dia do Senhor a actividade desportiva deve estar inserida num contexto de serena distensão, que favoreça o estar juntos e o crescer na comunhão especialmente familiar.

Formulo cordiais e ardentes votos para este vosso encontro e, enquanto invoco sobre vós a protecção de Maria, asseguro a minha lembrança na oração por todos vós e de bom grado vos abençoo.

Fonte: Site do Vaticano

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Esporte pelo Papa Pio XII


 


Tudo o que fala de exercícios físicos, de jogos, de competições, de esporte, interessa e atrai a juventude de hoje. Os jovens cristãos sabem, porém, que os movimentos do espírito, e especialmente a corrida para a luz intelectual, a avançada sobre o terreno misterioso e por vezes árduo da revelação, o impulso para a bondade e a santidade, são tanto mais belos e mais nobres e apaixonantes, quanto o saber e a virtude de ânimo sobrepujam e superam a forma dos músculos e a caduca desenvoltura e agilidade dos membros.

O vigor do corpo, que acompanha e embeleza o florescer da juventude, não permanece diminuído, nem rebaixado, mas, pelo contrário, exaltado e nobilitado pelo estudo da cultura religiosa e da virtude que domina as paixões. Na juventude brilha tanta força de energia no corpo, como de virtude no ânimo, quando no fundo do coração germina aquela vontade que no temor de Deus encontra o princípio da sabedoria iluminadora do caminho da vida.

A juventude inclinada sempre a nada temer, muitas vezes, porém, teme e se apavora por não aparecer suficientemente moderna, de não aparecer à altura do seu tempo, ou como dizem alguns "à la page". Mas o verdadeiro cristão encontra-se sempre à altura do tempo (1).

(I) Discurso, Jovens de Ação Católica, 10 de novembro, 1940.

***

Tão longe da verdade está o que reprova à Igreja de não cuidar dos corpos e da cultura física, quanto quem pretenda restringir a sua competência e ação às coisas "puramente religiosas", "exclusivamente espirituais".

Como se o corpo, criatura de Deus, do mesmo modo que a alma, à qual está unido, não devesse ter sua parte na homenagem a ser prestada ao Criador!

"Seja comendo - escrevia o Apóstolo das Gentes aos Coríntios -, seja que bebais, seja que façais qualquer outra coisa, tudo fazei para a glória de Deus". São Paulo fala aqui da atividade física; o cuidado do corpo, o esporte, bem se encaixa nas palavras: "seja que façais qualquer outra coisa". Antes Paulo discorre muitas vezes explicitamente; fala de corridas, de lutas, não com expressões de crítica, ou de repreensão, mas como conhecedor que eleva e nobilita o conceito cristão das mesmas.

Afinal, que coisa é o esporte, senão uma das formas de educação do corpo? Ora esta educação está em estreita relação com a moral. Como poderia, portanto, a Igreja dela desinteressar-se?

Em realidade a Igreja sempre teve para com o corpo humano uma solicitude e uma atenção, quais o materialismo, no seu culto idolátrico, não manifestou jamais. E é muito natural, pois que este não vê e não conhece do corpo senão a carne material, cujo vigor e cuja beleza nascem e florescem para depois conhecerem a podridão e a morte, como a erva do campo que termina nas cinzas e no lodo. Conseguintemente, é bem diverso disto o conceito cristão. O corpo humano é, em si mesmo, a obra-prima de Deus na ordem da criação visível. O Senhor o havia destinado a florescer, aqui embaixo, para que, imortal, desabroche nas glórias do céu. Uniu-o ao espírito na unidade da natureza humana, para fazer que a alma saboreasse o encanto das obras de Deus, para ajudá-la a remirar neste espelho o seu Criador comum, para conhecê-la, adorá-la, amá-la! Não foi Deus que fez mortal o corpo humano, mas sim o pecado; só por causa do pecado, o corpo, tirado do pó, deve um dia a ele retornar. Deste pó, entretanto, o Senhor irá tirá-lo novamente para chamá-lo a vida. Ainda que reduzidos a pó a Igreja respeita e honra os corpos, mortos para depois ressurgirem.

Mas à visão ainda mais alta conduz-nos o Apóstolo São Paulo: "Não sabeis diz ele que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós que vos foi dado por Deus e que não pertence a vós mesmos? Pois que fostes comprados por caro preço. Glorificai portanto a Deus no vosso corpo".

Ora, qual é, em primeiro lugar, o ofício e o fim do esporte, sã e cristãmente entendido, senão exatamente o de cultivar a dignidade e harmonia do corpo humano, de desenvolver a saúde, o vigor, a agilidade e a graça do mesmo.

Nem se reprove a São Paulo sua enérgica expressão: "Castigo corpus meum et in servitutem redigo: "trato duramente o meu corpo e o reduzo a servidão" pois que ele, no mesmo trecho, se apóia no exemplo dos fervorosos cultores do esporte. O esporte moderno, conscienciosamente exercitado, fortifica o corpo, torna-o são, forte e cheio de vida para executar esta função educativa; o esporte submete o corpo a uma disciplina rigorosa e por vezes dura, que o domina e o retém verdadeiramente em servidão: treino para a fadiga, resistência à dor, hábitos de continência e de temperança severa, condições todas indispensáveis para quem quer conseguir a vitória. O esporte é eficaz antídoto contra a moleza e a vida cômoda, acorda o sentido de ordem e educa ao exame e ao domínio de si, ao desprezo do perigo sem jactância nem pusilanimidade. Assim ele ultrapassa a robustez física para conduzir à força e à grandeza moral. Do país natal do esporte teve origem o proverbial "fair play", aquela emulação cavalheiresca e cortês, que eleva os espíritos acima das mesquinhezas das fraudes, dos ardis de uma vaidade obscura e vingativa, e os preserva dos excessos de um fechado e intransigente nacionalismo. O esporte é uma escola de lealdade, de coragem, de resistência de resolução, de fraternidade universal, todas estas virtudes naturais, mas que fornecem à virtude sobrenatural um fundamento sólido e preparam para sustentar sem debilidades o peso das mais graves responsabilidades.

Fatigar sãmente o corpo para repousar a mente e dispô-la para novos trabalhos, afinar os sentidos para adquirir uma intensidade maior de penetração das faculdades intelectuais, exercitar os músculos e habituar-se ao esforço para temperar o caráter e formar-se uma vontade forte e elástica como o aço: tal era a idéia que o sacerdote alpinista havia feito do esporte.

Como esta idéia está, pois, distante do grosseiro materialismo, para o qual o corpo é todo o homem! Mas como está também distante daquela loucura do orgulho, que não se contenta em arruinar com um desprezo malsão as forças e a saúde do esportista, para conquistar a palma da vitória, em uma luta pugilística ou competição de velocidade e o expõe, por vezes, temerariamente até à morte! O esporte digno deste nome torna o homem corajoso diante do perigo presente, mas não o autoriza a desafiar sem uma razão proporcionadamente grave, um risco sério. Isto seria moralmente ilícito.

Assim entendido o esporte não é um fim, mas um meio; como tal, deve ser e permanecer ordenado ao fim, que consiste na formação e educação perfeita e equilibrada do homem por inteiro, para o qual o esporte é um auxílio no cumprimento pronto e alegre do dever, quer na vida de trabalho, como na familiar.

Com uma mudança lamentável da ordem natural, alguns jovens dedicam-se apaixonadamente, com todo seu interesse e toda sua atividade, às reuniões e manifestações esportivas, aos exercícios de treinamento e às disputas, colocando todo seu ideal na conquista de um campeonato, mas às inadiáveis e importantes exigências do estudo e da profissão, dão apenas consideração distraída e abúlica. O lar, nada mais é para eles senão um hotel, onde param de passagem, quase como estrangeiros.

A serviço da vida sã, robusta, ardente, a serviço de uma atividade mais fecunda no cumprimento dos deveres do próprio estado, o esporte pode e deve estar também a serviço de Deus. Para este fim, realmente, ele inclina os ânimos porque dirijam as forças físicas e as virtudes morais, que desenvolve; mas enquanto o pagão se submetia ao severo regime esportivo para obter somente uma coroa caduca, o cristão a ele se submete por um escopo mais alto, para um prêmio imortal.

De que serviria realmente a coragem física e a energia do caráter, se o cristão delas usasse somente para fins terrenos, para ganhar uma "copa", ou para dar-se ares de super-homem? Se não soubesse, quando é necessário, reduzir de meia hora o tempo do sono ou retardar um encontro no estádio, antes do que deixar de assistir à Santa Missa no domingo; se não conseguisse vencer o respeito humano para praticar a religião e defendê-la; se não fosse capaz de sua prontidão e de sua autoridade para reprimir com o olhar, com a voz, com o gesto, uma blasfêmia, um turpilóquio, uma desonestidade, para proteger os mais jovens e os mais débeis contra as provocações, as assiduidades suspeitas; se não se acostumasse a concluir os seus felizes sucessos esportivos com um louvor a Deus, Criador e Senhor da natureza e de todas as suas forças? Não vos esqueçais que o mais alto destino do corpo, e sua mais elevada honra, é ser habitação de uma alma, que refulge de pureza moral se for santificada pela graça divina (2).

2) Discurso, Jovem de Ação Católica, 20 de maio, 1945.

***

Prestai em primeiro lugar a Deus a honra que lhe é devida, e, sobretudo, santificai o dia do Senhor, pois que o desporto não dispensa dos deveres religiosos. "Eu sou o Senhor teu Deus", dizia o Altíssimo no Decálogo; "não tenhas outro Deus fora de mim", isto é, nem sequer o próprio corpo nos exercícios físicos e no desporto: seria quase um regresso ao paganismo. De igual modo, o quarto mandamento, expressão e tutela da harmonia que o Criador quis no seio da família, recorda a fidelidade às obrigações familiares, que se devem preferir às supostas exigências do desporto e das associações desportivas.

Pelos mandamentos divinos é também protegida a vida própria e a alheia, a saúde própria e a alheia, as quais não é lícito expor imprudentemente a sério perigo com a ginástica e o desporto.

Deles recebem força também aquelas leis, já conhecidas dos atletas do paganismo, que os desportistas verdadeiros observam justamente como leis invioláveis no jogo e nos desafios, e são outros tantos pontos de honra: franqueza, lealdade, espírito cavalheiresco, pelas quais detestam, como mancha desonrosa, o emprego da astúcia e do engano; estimam e respeitam o bom nome e a honra do adversário tanto como o próprio.
O exercício físico torna-se assim como que uma ascese de virtudes humanas e cristãs, ou melhor, devem tornar-se e serem tal, por mais duro que seja o esforço exigido, para que o exercício do desporto se supere a si mesmo, atinja um dos seus objetivos morais, e seja preservado de desvios materialistas, que lhe diminuiriam o valor e a nobreza.

Eis em poucas palavras o que significa a fórmula: Quereis agir retamente na ginástica, no jogo e no desporto? Observai os mandamentos, os mandamentos no seu sentido objetivo, simples e claro.

CONCLUSÃO

Quando se respeita com cuidado o teor religioso e moral do desporto, ele deve entrar na vida do homem como elemento de equilíbrio, de harmonia e de perfeição, e como ajuda eficaz para o cumprimento dos outros deveres. Baseai portanto a vossa alegria na prática correta da ginástica e do desporto. Levai mesmo para o meio do povo a sua benéfica corrente para que prospere cada vez mais a saúde física e psíquica e se fortifiquem os corpos ao serviço do espírito; sobretudo, enfim, não esqueçais, no meio da agitada e inebriante atividade gímnico-esportiva, aquilo que na vida vale mais do que todo o resto: a alma, a consciência e, no vértice supremo: Deus (3).

(3) Discurso ao Congresso Científico Italiano de Desporto e Educação Física, 8 de novembro, 1952.

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 

Fonte: A Grande Guerra
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