segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Michael Voris - Virilidade Roubada


A vocação ao celibato, a masculinidade transcendente

Texto retirado do excelente site http://www.brav.us/

Por Diego Amaya Vasquez, Chile.
Texto original em espanhol, tradução nossa (Brav.us)

Se uma pessoa qualquer escutar a palavra “celibato”, em sua mente virá, imediatamente, a vida sacerdotal ou consagrada, mas, jamais ousaria relacioná-la à vida laica, o que, na vida da Igreja, sempre foi uma realidade presente. Atualmente a palavra celibato é motivo de riso e chacota. Muitos outros erram ao confundir o celibato com a continência (ou abstinência). Por esse motivo, é necessário seguir um processo definido para tratar corretamente esse tema: começaremos definindo, distinguindo, para, então, aplicar este tema na prática. Tentaremos, ao longo deste texto, responder às seguintes questões:

a) O que é o celibato?
b) Para que o celibato?
c) Por que o celibato?
d) A quem o celibato é destinado?

Além disso, buscaremos demonstrar algumas conclusões práticas para o nosso tempo, durante o simples e superficial desenvolvimento deste tema, de acordo com os limites deste artigo.

O que é o celibato?

a) Em primeiro lugar, o celibato, no sentido cristão, não é simplesmente “não estar casado”, e não é um desprezo do matrimônio. Não é um vilipêndio da carnalidade, nem significa reprimir aquilo que no homem é tão veemente e que Deus inseriu na natureza humana como um meio de santificação com exercício no interior do matrimônio. São João Paulo II afirmava “Quando a sexualidade humana não é considerada um grande valor dado pelo Criador, perde-se o significado da renúncia pelo Reino dos Céus”1. Por muitos anos temos presenciado como o mundo se encarrega de “deificar” o corpo e depreciar a alma. Bento XVI nos motiva afirmando que a dignidade e grandeza humana está em ambas as realidades que formam uma só substância: “Se o homem pretender ser só espírito e quiser desprezar a carne como se fosse uma herança meramente animal, espírito e corpo perderiam sua dignidade. Se, ao contrário, repudia o espírito e leva em consideração somente a matéria, o corpo, como uma realidade exclusiva, reduz igualmente sua grandeza”2.

O celibato não é uma negação, senão uma escolha livre, ativa e frutífera. É um grande “SIM”. Por isso, não se deve confundi-lo com a continência, visto que não se trata de um simples “conter”, mas, sim, uma opção livre por um bem maior. A continência, vista objetivamente, pode ser praticada por qualquer pessoa, inclusive por um não crente. Todavia, o celibato, na perspectiva cristã, é um meio de santificação, que só é possível ser assumido com uma ajuda sobrenatural da graça, e que sempre se opta livremente por um bem maior e transcendente: o Reino dos Céus.

Na antiguidade havia homens (eunucos) que se dedicavam completamente ao serviço de seus senhores e a estes, Nosso Senhor Jesus Cristo fazia referência quando dizia “e há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens”3. Nosso Senhor, no entanto, inaugura um novo celibato, repleto de esplendor e liberdade, livre de toda escravidão anterior e em vistas da glória futura, dizendo “também há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus”4, manifestando que se trata de um meio que se escolhe livremente e que tem um fim sobrenatural. Jesus estava totalmente consciente da rigidez desse convite e que essa realidade de vida não é fácil se o sujeito confia em suas próprias forças, e traduzindo ao nosso tempo, nos adverte o Divino Salvador “Quem puder entender, que entenda!”5.

A doutrina da Igreja, no Concílio Vaticano II, canta um verdadeiro louvor ao celibato, denominando-o de “dom precioso da graça divina dado a alguns pelo Pai”6, “sinal e estímulo do amor”7 e “símbolo especial dos benefícios celestiais”. Isto é sinal de que a Igreja sempre tem tido grande estima acerca do dom do celibato, exigindo-o explicitamente aos sacerdotes de rito latino desde o século IV, e no oriente é exigido aos monges e os candidatos ao episcopado. E é essencial deixar claro que o celibato não tem somente um fim prático, como muitos poderiam crer.
Para que o celibato?

b) O celibato permite entregar-se e servir a Deus com um coração indiviso. Este dom celestial permite, àquele que o vivencia como um dom precioso, ser um sinal da vida futura, uma presença escatológica já em nosso tempo. O celibato é viver como estivéssemos já no céu. É trazer o céu ao nosso tempo, vivido em nossa natureza completa, em corpo e alma.

Esse convite de Cristo a uma vida celibatária é um desafio para elevar o amor humano e a descobrir novas maneiras de demostrar e encarnar esse amor escatológico. Não podemos reduzir o amor verdadeiro à relação sexual somente, pois o amor é muito mais que a união corporal. De fato, atualmente, somos testemunhas de como o amor e o ato sexual tem sido absolutamente dissociados um do outro, rebaixando a dignidade deste ato sublime e procriador a um entretenimento banal e superficial. Inclusive, dentro da mesma Igreja, podemos encontrar alguns membros que reduzem o celibato à castidade e à negação das relações sexuais, quando, na verdade, a castidade e o celibato envolvem e são envólucros da pessoa em sua totalidade, em cada um de seus atos.

Hoje em dia a Igreja se encontra “em débito” sobre o tema do celibato laical. No documento Lumen Gentium, do Concílio Vaticano, ele é colocado na mesma categoria da viuvez. No entanto, a cada dia, a Igreja toma mais consciência de que a vida celibatária é uma vocação particular e não imposta por circunstâncias distintas. Não são todos os homens que são chamados à vida matrimonial e à vida consagrada e, não por isso, estes permanecem numa lacuna vocacional. Na atualidade, há muitas pessoas que decidem viver uma vida de celibato no meio do mundo, cooperando com as tarefas da Santa Mãe Igreja e vivendo uma vida de santidade plena inseridos em seus afazeres diários. Sinal dessa realidade é que em alguns novos movimentos da Igreja estão abertos à possibilidade de que leigos optem pela vida celibatária sem deixar de ser leigos. Esses leigos celibatários desejam santificar-se sem outra consagração além do Batismo, que já é, por si, uma grande responsabilidade.

Por que o celibato?

Cristo, ao ser celibatário, nunca renuncia seu ser masculino, a ser um homem verdadeiro e completo em todos os sentidos. 

c) Poderíamos nos perguntar, por que o celibato? A resposta pode ser somente uma: Porque Jesus Cristo, nosso modelo de santidade e único mediador, foi celibatário. Obviamente, nem todos são chamados a seguir a Cristo nesse estilo de vida. Logo, se nem todos são chamados à vida de celibato, é porque é um chamado particular. E se é particular, então recebe graças especiais para ser vivido, as quais se chamam graças de estado. Tudo isso indica que o celibato é uma verdadeira vocação particular. Alguns poderiam dizer que “Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus e, por isso, conseguia viver o celibato”, mas aqueles que fazem essa afirmação esquecem que Ele assumiu a natureza humana em sua totalidade, uma masculinidade íntegra e totalmente ordenada segundo a graça. Por esse motivo que Jesus Cristo revela o homem ao próprio homem8, já que é igual a nós em tudo, menos no pecado. Nesse sentido, a virgindade e o celibato de maneira alguma rebaixam a natureza humana, da qual Cristo é o modelo pleno, mas, em contrapartida, elevam-na a um nível muito mais profundo e transcendente. É muito importante destacar que a vida de celibato não significa a renúncia da masculinidade (ou da feminilidade), pelo contrário, significa torná-la sobrenatural, do mesmo modo que o fez o filho de Deus. Cristo, ao ser celibatário, nunca renuncia seu ser masculino, a ser um homem verdadeiro e completo em todos os sentidos. É necessário reafirmar essa verdade sobre a masculinidade de Cristo contra todas aquelas falsas teologias que se dedicam a diminuir a importância dessa realidade. Cristo não é um ser etéreo e assexuado, mas um Deus que se fez HOMEM9.

A quem o celibato é destinado?

d) Definitivamente o celibato não é somente para os sacerdotes consagrados. Inclusive, nem sequer é exigido para todos os clérigos do rito oriental. E, além disso, existe o testemunho de tantos consagrados que se santificam por meio dos conselhos evangélicos e que não são sacerdotes. Mas, a questão que se aplica é: pode um leigo viver o celibato e receber a graça para isso? A resposta é SIM, mesmo que para aos olhos do mundo seja impossível e o celibato pareça uma doutrina medieval. Um leigo também pode ser chamado a servir a Deus com um coração indiviso; ele também pode ser chamado a ser um sinal escatológico e, mais ainda, todos os leigos são chamados a imitar Jesus Cristo, mas alguns de uma maneira especial, vivendo sua dimensão celibatária.

Desde o início dos tempos da Igreja já existia o celibato leigo, não é uma “novidade” do Concílio Vaticano II. São Paulo já revelava isso na Primeira Carta aos coríntios, quando afirmava: “Portanto, o que se casa com sua noiva, o faz bem. E o que não se casa, faz melhor. A mulher está ligada a seu marido enquanto vive; mas, uma vez que o marido morre, fica livre para casar-se com quem desejar, mas só no Senhor. Será feliz se permanece assim segundo o meu conselho; que também eu creio ter o Espírito de Deus”10.

O celibato leigo era praticado na igreja primitiva, tanto no caso de homens quanto no de mulheres. Os homens eram chamados de “continentes” e “ascetas”, as mulheres que viviam esse conselho evangélico eram conhecidas por “virgens”.

São Paulo diz “Aquele que não é casado se preocupa com as coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado se preocupa com as coisas do mundo, em como agradar sua mulher; está, portanto, dividido. A mulher não casada, o mesmo que a donzela, se preocupa com as coisas do Senhor, de ser santa no corpo e no espírito. Mas a casada se preocupa com as coisas do mundo, em como agradar seu marido”11.

Nesses textos não se pretende pronunciar uma condenação contra o estado conjugal, longe disso. Devemos recordar que no mesmo texto, São Paulo compara o matrimônio ao amor de Cristo pela Igreja e ressalta, desse modo, a indissolubilidade do matrimônio.

Em todos os tempos o celibato tem sido causa de crítica, escândalo e incompreensões. E, diante disso, a Igreja tem sido obrigada a armar-se e a defender excelência desse estado de vida eleito tanto por consagrados como por leigos12. De maneira alguma se deseja aqui obscurecer e tirar o valor do matrimônio, somente pretendemos transmitir o ensinamento bimilenar e plurissecular da Igreja, mãe e mestra, que nos recorda no Catecismo: “Essas duas realidades, o sacramento do matrimônio e a virgindade pelo reino de Deus, provém do próprio Senhor, é Ele quem lhes dá sentido e lhes concede a graça indispensável para que os viva de acordo com a Sua vontade. O apreço da virgindade pelo reino e o sentido cristão do matrimônio são inseparáveis e se apoiam mutuamente”.

O celibatário não é um “solteirão”, nem é alguém incapaz para uma relação matrimonial ou para o sexo. Exatamente o oposto, é alguém que alcançou um nível de maturidade emocional, psicológica e espiritual que o levou a discernir que não é chamado à vida matrimonial e, em alguns casos, tampouco, à vida consagrada. É alguém chamado a viver o amor e a fecundidade de uma maneira sobrenaturalmente diferente do matrimônio, sem negar sua própria sexualidade, elevando seus afetos ao mandato evangélico que exorta a “Ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”.

***
Em nosso tempo, devemos ser rebeldes. A melhor maneira de viver essa rebeldia é por meio de uma vida virtuosa. 

Créditos: http://www.brav.us/2016/08/a-vocacao-ao-celibato-a-masculinidade-transcendente/

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A dúvida respondida por São João Paulo II

Na primeira metade de seu pontificado, devido a sérias controvérsias suscitadas na Igreja, São João Paulo II se viu obrigado a confirmar a Tradição católica de não ordenar mulheres.




Depois dos agitados anos 1960, quando a Igreja também se viu questionada pelas revoluções mundo afora, o problema relativo à ordenação de mulheres já não era uma novidade para os teólogos. O tema estava entre os principais assuntos discutidos nas academias, sobretudo após a iniciativa dos anglicanos de incluírem entre os seus sacerdotes também as mulheres. Foi aí que o então Sumo Pontífice Paulo VI, exercendo o ministério petrino de confirmar os irmãos na fé, publicou a Declaração Inter Insigniores, com a qual dirimia qualquer dúvida acerca da Tradição católica. A Igreja "não se considera autorizada a admitir as mulheres à ordenação sacerdotal", explicou o Santo Padre na época. Todavia, o debate estava longe de acabar ali.

As discussões continuaram a fervilhar nos anos seguintes com cada vez mais veemência e caráter reivindicatório. A seu favor, os defensores das ordenações femininas argumentavam que a decisão de Jesus de escolher apenas homens para o ministério apostólico baseava-se somente em um contexto sociológico e que, por isso, tal decisão seria disciplinar, como no caso do celibato dos padres. Ao contrário da doutrina, que não pode ser contestada pelo fiel católico, a disciplina, embora deva ser obedecida enquanto estiver em vigor, pode ser ab-rogada. E era esse o desejo deles.

Em 1978, assume o trono de São Pedro o cardeal polonês Karol Wojtyla. É durante o seu governo que o Papa será desafiado a dar uma resposta definitiva para a questão. O estopim da queda de braço ocorreu nos Estados Unidos, em 1979, na Catedral de Washington. Na ocasião, a irmã Therese Kane, então presidente da US Leadership of the Women Religious, havia sido escolhida para representar as freiras no encontro com o Santo Padre. Foi durante a sua fala que ela explodiu a bomba:
"Nós temos ouvido a poderosa mensagem de nossa Igreja, dirigida à dignidade e à reverência de todas as pessoas [...]. A Igreja deve responder oferecendo a possibilidade de as mulheres, como pessoas, serem incluídas em todos os ministérios."

A mensagem da irmã Therese Kane ganhou o mundo e não podia passar despercebida dentro dos círculos católicos. Apesar do constante ensinamento do Magistério sobre o assunto, a força daquele gesto desencadeou uma nova onda de discussões que exigiram do Papa uma posição inequívoca. E foi o que ele fez, já mesmo na ocasião da visita aos Estados Unidos, explicando repetidas vezes que a Igreja não possuía a faculdade de ordenar mulheres. "Chamando só homens como seus apóstolos, Cristo agiu de maneira totalmente livre e soberana. Fez isto com a mesma liberdade com que, em todo o seu comportamento, pôs em destaque a dignidade e a vocação da mulher", explicou novamente o Santo Padre, agora em 1988, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (n. 26).No mesmo documento, São João Paulo II ainda esclareceu que:
"Se Cristo, instituindo a Eucaristia, a ligou de modo tão explícito ao serviço sacerdotal dos apóstolos, é lícito pensar que dessa maneira ele queria exprimir a relação entre homem e mulher, entre o que é 'feminino' e o que é 'masculino', querida por Deus, tanto no mistério da criação como no da redenção. É na Eucaristiaque, em primeiro lugar, se exprime de modo sacramental o ato redentor de Cristo Esposo em relação à Igreja Esposa. Isto se torna transparente e unívoco, quando o serviço sacramental da Eucaristia, no qual o sacerdote age 'in persona Christi', é realizado pelo homem. É uma explicação que confirma o ensinamento da Declaração Inter Insigniores, publicada por incumbência do Papa Paulo VI para responder à interrogação sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial."

A intervenção clara de São João Paulo II serviu para tranquilizar "muitas consciências que, em boa fé, se deixaram agitar talvez não tanto pela dúvida, como pela insegurança. Elas "encontraram a serenidade graças ao ensinamento do Santo Padre", como observaria o cardeal Ratzinger anos depois.

Por outro lado, algumas oposições ao ensinamento constante do Magistério ordinário da Igreja não cessaram e se fizeram ainda mais atrevidas, chegando ao cúmulo de ordenações clandestinas. O desafio estava lançado à Santa Sé e São João Paulo II não o deixaria sem resposta. No dia 22 de maio de 1994, data em que se celebrava a Solenidade de Pentecostes, o Santo Padre mandou publicar a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis:
"Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja." (grifos nossos)

A definição de São João Paulo II, apesar de clara, ainda foi objeto de dúvidas entre alguns prelados e fiéis. Questionava-se se a declaração possuía caráter dogmático. Em forma de dubium, chegou à Congregação para a Doutrina da Fé a seguinte questão: "Se a doutrina, segundo a qual a Igreja não tem faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, proposta como definitiva na Carta Apostólica Ordinatio sacerdotalis, deve ser considerada pertencente ao depósito da fé." A resposta da mesma congregação foi: "Afirmativa". Roma locuta!

Toda esta controvérsia nos ensina como a Igreja costuma usar o instrumento do dubium (plural dubia) para esclarecer alguma dificuldade interpretativa que possa surgir de um documento magisterial. Ensinar com clareza o caminho de Deus é um grande ato de misericórdia e de caridade para os fiéis. Afinal, não há nada mais importante para as ovelhas do que ouvir, com clareza, a voz do bom pastor e dele receber a vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Fonte: Padrepauloricardo.org

Fuga da ociosidade - Santo Afonso Maria de Ligório


É preciso notar aqui que é um engano acreditar que o trabalho é nocivo à saúde do corpo, quando é certo que o exercício corporal ajuda muito a conservar a saúde.

Muitas vezes o que faz apresentar escusas do trabalho, não é tanto o perigo da saúde, mas o peso e fadiga que o acompanham e que desejamos evitar. Ah! Quem lançar os olhos no Crucifixo, não andará esquivando-se dos trabalhos. — Um dia, Sór Francisca do Santo Anjo, Carmelita, se lamentava de ter as mãos todas dilaceradas de tanto trabalhar, e Jesus Crucificado lhe respondeu: Francisca, olha as minhas mãos e depois lamenta-te. 

Além disso, o trabalho é um remédio contra os enfados de solidão, e também contra as numerosas tentações que muitas vezes assaltam os solitários. — Sto. Antão abade achava-se um dia muito atormentado de pensamentos desonestos e ao mesmo tempo muito fatigado da solidão: não sabia o que fazer para se aliviar. Apareceu-lhe então um anjo, que o conduziu ao pequeno jardim que havia ali perto; e, tomando uma enxadinha, começou a lavrar a terra, e, em seguida, se pôs a orar. De novo, principiou a trabalhar e depois tornou a orar. Com isto, ensinou ao santo o modo como havia de conservar a solidão e ao mesmo tempo livrar-se das tentações, passando da oração ao trabalho, e do trabalho a oração. Não se deve trabalhar sempre, mas também não se pode orar sempre, sem se arriscar a perder a cabeça, e se tornar depois absolutamente inútil para todos os exercícios espirituais. — É por isso que Sta. Teresa, depois de sua morte, apareceu à Sór Paula Maria de Jesus e lhe recomendou que nunca abandonasse os exercícios corporais sob pretexto de fazer obras mais santas, assegurando-lhe que tais exercícios aproveitam muito para a salvação eterna. 

De outra parte, os trabalhos manuais, quando se fazem sem paixão e sem inquietação, não impedem de fazer oração. — Sor Margarida da Cruz, arquiduquesa de Áustria e religiosa descalça de Sta. Clara, se dedicava aos ofícios mais trabalhosos do mosteiro, e dizia que, entre outros exercícios, o trabalho não é somente útil às monjas, mas também necessário, visto que não impede o coração de se elevar para Deus.

Narra-se que S. Bernardo, um dia vendo um monge que não deixava de orar enquanto trabalhava, disse-lhe: “Continua, meu irmão, a fazer sempre o que fazes agora, e alegra-te, porque, deste modo, quando morreres, serás livre do purgatório”. O mesmo santo seguia esta prática como refere o escritor de sua vida; pois, não descuidava dos trabalhos exteriores e ao mesmo tempo se recolhia todo em Deus.

Santo Afonso de Ligório no livro: A Verdadeira Esposa de Cristo.
Créditos: Modéstia Masculina São José

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Aparecida, uma devoção genuinamente popular


Nossa Senhora da Conceição Aparecida é um farol luminoso sobre a altíssima vocação do povo brasileiro: a vocação à santidade.


No chamado prólogo do Evangelho de São João, o apóstolo amado faz a seguinte afirmação acerca dos seguidores de Cristo: "Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus" (Jo 1, 12-13). Nestas palavras acertadas do evangelista, alguns teólogos viram, com razão, o fundamento para a fé na virgindade perpétua de Maria e na sua imaculada conceição [1]. De fato, Jesus, o primogênito de Deus, não nasceu do sangue de Maria, nem da vontade de sua carne, mas sim de um desígnio todo espiritual da vontade salvífica de Deus.

A piedade popular, "verdadeira expressão da atividade missionária espontânea do povo de Deus", soube acolher esses privilégios de Nossa Senhora, celebrando-os, ao longo da história da Igreja, de modos variados e singelos [2]. No Brasil, isso se torna particularmente evidente no belíssimo testemunho dos romeiros de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, título concedido à pequena imagem milagrosa da Virgem Maria, cujo tricentenário de sua descoberta por três simples pescadores, em 1717, comemora-se neste ano. Com essa santa devoção, os brasileiros exprimem a sua total confiança na intercessão da Virgem Santíssima, de quem o povo desta terra é especial devedor.

A devoção à Mãe Aparecida é genuinamente popular. Ela não se origina em uma aparição mística de Maria, como em Lourdes ou em Fátima, mas do amor e da confiança filial de pobres devotos. Como expressou-se o papa São João Paulo II na sua primeira visita ao Brasil, "os templos materiais aqui erguidos são sempre obra e símbolo da fé do povo brasileiro e do seu amor para com a Santíssima Virgem" [3]. Não se trata de uma demonstração ostentosa de poder; trata-se, antes, de uma resposta ao auxílio perpétuo da Virgem Maria a esta nação.

E é desse testemunho de fidelidade que se pode colher a mensagem de Nossa Senhora ao Brasil. Embora ela não tenha se manifestado por meio de uma visão mística, manifestou-se, porém, nos inúmeros favores que há 300 anos ela concede aos seus filhos brasileiros. Isso exige, por sua vez, uma atitude de conversão e de penitência, como nas outras devoções marianas. Em Fátima ou em Aparecida, o papel da Virgem Maria na Igreja sempre será o de cooperadora na salvação dos homens; ela "nos aponta as vias da Salvação, vias que convergem todas para Cristo, seu Filho, e para a sua obra redentora" [4].

A Igreja sempre entendeu a piedade popular como "uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar" [5]. Aí está a razão de a Virgem Santíssima apresentar-se no Brasil por meio da imagem que hoje veneramos. Ela quis despertar no peito do próprio camponês essa sede mais intensa, essa consciência de que, sem a presença de Cristo em nossas vidas, nada podemos fazer, senão pecar e destruir. Nossa Senhora da Conceição Aparecida é um farol luminoso sobre a altíssima vocação do povo brasileiro: a vocação à santidade.

Com efeito, não podemos deixar de mencionar os inúmeros perigos que rondam a fé do povo brasileiro e põem em xeque essa sua vocação à santidade. De muitos modos, o inimigo de Jesus e de Maria procura falsear a genuína fé católica, promovendo sincretismos nocivos, que descaracterizam o verdadeiro culto mariano. Ao mesmo tempo, o avanço agressivo das seitas procura afugentar os fiéis do colo de Maria, conduzindo-os a uma falsa teologia da prosperidade, que barateia o Evangelho de Cristo com promessas de bem-estar econômico. Foi pensando nisso que São João Paulo II chamou a atenção dos bispos para protegerem a piedade popular dos brasileiro: "Estou certo de que os Pastores da Igreja saberão respeitar esse traço peculiar, cultivá-lo e ajudá-lo a encontrar a melhor expressão, a fim de realizar o lema: chegar 'a Jesus por Maria'" [6].

Desde o início da devoção à Mãe Aparecida, o traço característico mais marcante dos romeiros era a recitação conjunta do rosário. Do mais simples ao mais nobre, todos se curvavam perante a imperatriz do Brasil para rezar piedosamente o Santo Terço. Nas aparições em Lourdes e em Fátima, por sua vez, é justamente a récita diária do Rosário a oração recomendada pela Virgem aos pequenos videntes. Percebe-se, portanto, o quão necessária é essa oração tradicional para a conversão das almas. Nossa Senhora não insistiria tanto neste ponto se não fosse algo de especial importância. Nesta ocasião dos 300 anos, temos de repetir a súplica do papa São João Paulo II: "Quem dera renascesse o belo costume – outrora tão difundido, hoje ainda presente em algumas famílias brasileiras – da reza do terço em família" [7].

Ninguém pode negar o estado de calamidade no qual se encontra o Brasil. É chegada a hora, destarte, de voltarmos nossos olhares para a Senhora Aparecida e suplicarmos a tão urgente conversão de nosso país. Ela também deseja que seu Coração Imaculado triunfe nestas terras de Santa Cruz!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências
Cf. Introdução ao Evangelho de São João. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Santos Evangelhos. Trad. de José A. Marques. Braga: Edições Theologica, 1985.
Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 24 de nov. 2013, n. 122.
São João Paulo II, Homilia, 4 de jul. 1980.
Ibidem.
Papa Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 8 de dez. 1975, n. 48.
São João Paulo II, Homilia, 4 de jul. 1980.
Ibidem.

Padre Paulo Ricardo - Memória de São João Bosco, presbítero


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Não dê um smartphone ao seu filho



Por Jonathon van Maren | Depois de passar quatro dias em um encontro de combate à exploração sexual, na cidade de Houston, no Texas, minha mente está exausta. Assistimos a palestras sobre neurociência, tráfico humano, abuso sexual, exploração infantil e muito mais. Também assistimos a muitas, muitas palestras, sobre o veneno que tem se infiltrado em todos os lugares, alimentando o estupro, destruindo relacionamentos, debilitando os homens e obliterando a infância: a pornografia.

Ainda escreverei muito mais sobre o que aprendi, mas, por enquanto, gostaria de fazer aos pais um breve apelo, que praticamente todos os palestrantes fizeram e eu faço questão de repetir: não dê um smartphone ao seu filho.

Parece loucura imaginar que, uma década atrás, smartphones eram incomuns. Muitas pessoas sequer tinham um celular em mãos. Agora, de acordo com a premiada jornalista e escritora Nancy Jo Sales — autora de American Girls: Social Media and the Secret Lives of Teenagers —, praticamente todas as interações sociais (e sexuais) dos adolescentes foram canalizadas para os pequenos e frenéticos aparelhos que eles carregam consigo para onde quer que vão. Isso tem feito crescerem ocyberbullying, o consumo e a produção de pornografia e até mesmo o suicídio e a exploração sexual entre jovens. Adolescentes — e crianças — são puxados para dentro das redes sociais, do Facebook ao Instagram, do Snapchat a outra meia dúzia de aplicativos desconhecidos, onde as interações e os conteúdos são selecionados apenas pelas crianças que os acessam, livres de qualquer supervisão dos pais ou adultos.

Os adolescentes sabem que isso está tornando as suas vidas miseráveis. As meninas com quem conversou a jornalista Nancy Sales também lhe contaram isso. Mas elas também revelaram não ter saída. Como hoje a maior parte da vida das pessoas se passa online, optar por sair é como escolher o isolamento voluntário. As "moedas de troca" geralmente envolvem imagens de nudez, sexo explícito ou "selfies" — e, cada vez mais, também isso deixou de ser opcional.

Os pais são incapazes de controlar esse novo mundo dos adolescentes. Em muitos casos, eles sequer conseguem penetrar o seu interior. É por isso que um pai ficou tão perplexo quando sua filha se enforcou depois de um adolescente cruelmente publicar um vídeo seu tomando banho no Snapchat — aquela tinha sido, na verdade, a primeira vez em que o pai, desolado, ouviu falar de "Snapchat". Para os pais que desejam resgatar os seus filhos da "selva da Internet" ou poupá-los do sofrimento que está devastando milhões de pessoas, há algumas alternativas. Diálogo honesto e conversas francas. Fiscalização atenta do uso das redes sociais. Programas especiais e filtros de Internet em todos os aparelhos de tecnologia.

Mas, por hoje, eu gostaria de indicar apenas uma coisa: não dê um smartphone ao seu filho.

Esse conselho tem me tornado bastante impopular em alguns ambientes. Um dia desses, durante apresentação em uma escola, um adolescente me cumprimentou com sarcasmo: "Então você é aquele que disse aos meus pais que eu não deveria ter um celular". Mas isso é essencial. As crianças e a maior parte dos adolescentes não precisam de um celular com acesso à Internet. Eles não precisam de acesso ininterrupto aos sites de mídia social que os submetem mais à influência de seus colegas que à de seus pais. Eles não precisam da pressão social que inevitavelmente —inevitavelmente — advém da entrada em um mundo com novos padrões e novas "moedas de troca". E, acima de tudo, eles não devem ter acesso a toda a pornografia que a web pode oferecer, a todo esse material sujo criando novos e destrutivos modelos de comportamento — modelos com os quais toda a juventude, para além dos Estados Unidos, está começando a se conformar, seja por pressão, por violência ou por escolha própria.

Escutei dezenas de histórias nesse fim de semana, de pais que se surpreenderam encontrando os seus filhos assistindo a pornografia pesada em seus smartphones. Crianças com idade menor que a média de primeira exposição a pornografia, que costumava ser 11 anos. Agora são 9. Essas crianças, em alguns breves momentos de espanto e terror, têm roubada a sua inocência. Seus mundos mudam por completo naquele momento. Elas não podem "desver" o que viram. Elas sequer deveriam ter acesso a isso, para começo de história.

Por isso, não coloque um smartphone na mão do seu filho.

Eu entendo que os adolescentes tendem mais a precisar realmente de um celular. Meus pais me compraram um telefone celular quando eu tirei a carteira de habilitação — não para que eu interagisse com meus amigos e entrasse na Internet, mas para que eles entrassem em contato comigo e eu tivesse um meio de me comunicar quando estivesse fora, essas coisas. Meus primeiros celulares não tinham acesso à Internet, e eu não perdi nada com isso. Confesso que às vezes gostaria que meu telefone atual também não tivesse Internet, porque eu sou culpado, juntamente com esta geração, de desperdiçar tempo no meu telefone quando poderia estar fazendo alguma coisa (qualquer coisa, na verdade) mais produtiva. Mas, quando adolescentes precisam de um telefone, mesmo assim eles não precisam de um telefone com acesso à Internet. Um telefone que lhes permita fazer ligações e mandar mensagens é bom o suficiente. Eles não precisam estar constantemente conectados às redes sociais, não precisam de Snapchat (um aplicativo que pode arruinar vidas em questão de segundos) e eles definitivamente não devem ter acesso à pornografia selvagem com a qual quase inevitavelmente irão se deparar.

Não dê aos produtores pornográficos o acesso que eles tanto procuram aos seus filhos. Eles sabem que crianças e adolescentes são mais propensos a encontrar pornografia em seus celulares, e é por isso que eles fizeram um esforço gigantesco nos últimos anos para criar material pornô que pudesse ser visto e transmitido via aparelhos móveis. Eles sabem como chegar aos seus filhos: por meio de um smartphone.

Não dê um ao seu filho.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
Créditos: padrepauloricardo.org
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